TRINDADE
1.
Referências Bíblicas Sobre a Trindade
1.1. A
Pluralidade do Deus Uno Inferida no Antigo Testamento
Segundo Grudem, "às vezes as pessoas pensam que a doutrina da
trindade é encontrada somente no Novo Testamento. Mas se Deus desde sempre
existe como três pessoas, seria surpreendente não encontrar indicação alguma
disso no Antigo Testamento (AT). Embora a doutrina da Trindade não seja
explicitamente encontrada no AT, diversas passagens sugerem ou dão a entender
que Deus existe como mais de uma Pessoa."[1]
Sendo assim, serão apresentadas a seguir, de forma sucinta, as principais
referências à doutrina da Trindade no AT.
- Em Gênesis 1.1-2[2] está escrito que "Deus criou os céus e a terra" e o
"Espírito de Deus se movia sobre a face das águas", mostrando
que a figura do Deus Pai e do Deus Espírito Santo estavam atuantes na
criação. O mesmo sentido da presença do Espírito Santo na criação é
expresso em Jó 33.4, onde está escrito sobre Seu papel na criação do
homem, sendo o sopro de vida, o fôlego de vida (também em Gn 2.7), com
ligação à palavra hebraica ruwach que ao mesmo tempo designa
espírito e "vento, hálito"[3].
- A indicação da pluralidade divina atuante na criação do homem nos
leva ao famoso texto de Gênesis 1.26, em que Deus diz: "Façamos o
homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança." Neste versículo
saltam aos olhos as palavras no plural "façamos" e
"nossa", sugerindo claramente mais de uma Pessoa atuando na
criação do homem. Relacionando-se a isso, podemos verificar que, em toda a
bíblia, não há nenhuma referência a outro criador divino além de Deus.Também,
segundo Romanos 4.17, Deus é aquele que "chama à existência as coisas
que não existem", ou seja, Deus cria do nada, do vazio, algo
atribuído a mais nenhum ser. A palavra "chama" usada em Romanos
vem do grego kaleo, que tem o sentido de "proferir em alta
voz", sugerindo que Deus cria apenas por Sua palavra. Em tudo isso
fica implícito que, mesmo que mais de uma Pessoa tenha atuado na criação
do homem, essas Pessoas se referem a um só Deus, pois só Um tem esse atributo.
- Continuando, outra referência interessante em que, como escreveu
Erickson, "Deus é citado usando um verbo no plural em referência a si
mesmo"[4] é Isaías 6.8, onde está escrito: "Então ouvi a voz do Senhor
conclamando: "A quem enviarei e quem irá de ir por nós?"".
Sobre esse texto, diz o mesmo autor que "o que é significativo, do
ponto de vista da análise lógica, é a mudança do singular para o
plural". Algumas pessoas defendem a posição, de que o uso do plural
nesses textos e em outros (Gn 3.22 e Gn 11.7), referem-se à plurais de
majestade, como poderia ser usado por monarcas quando falando de suas
próprias ações. Todavia, mais uma vez, não encontramos esse tipo de
utilização na bíblia, especialmente no AT, em nenhum dos livros em que
reis são mencionados, quer sejam reis de Israel, quer sejam de reis outras
nações.
- A última referência
importante sobre a Trindade no AT que será mencionada[5], pode ser encontrada em relação à descrição da imagem de Deus no
homem em Gênesis 1.27. Neste texto está escrito: "Criou Deus o homem
à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou." O
sentido de ligação fica claro entre as duas primeiras frases, porém, como
diz Erickson, na análise do texto original o paralelismo pode também ser
encontrado em relação à primeira e à terceira frase desse versículo
bíblico[6]. Ou seja, a imagem de Deus no homem deve ser entendida também, na
realidade de que o ser humano foi criado homem e mulher, existindo nessa
imagem uma unidade (o ser humano em si) e uma pluralidade (macho e fêmea),
algo espelhado na realidade plural divina[7].
1.2. A
Pluralidade do Deus Uno Expressa no Novo Testamento
Mesmo assim, se pensarmos a fundo, no AT ainda não há evidencias
suficientemente satisfatórias para comprovar a doutrina da trindade, ou seja, não
existem referências claras para que um judeu da época que entrasse em contato
com o texto bíblico infira afirmasse a existência da trindade por si só. A
única coisa que seria notada é a realidade da pluralidade em Deus, porém, como
ela funciona e como Deus age através dela é algo que só fica claro no Novo
Testamento, como veremos a seguir.
a. No
Novo Testamento (NT) existe maior riqueza e clareza nas inúmeras passagens que
mencionam a trindade. Normalmente, os autores do NT utilizam a palavra grega theos
ao se referirem ao "Deus Pai" e a palavra grega kyrios,
traduzida por "Senhor", nas referências ao Deus Filho, Jesus. Em II
Coríntios 13.14 fica nítido esse uso, na benção de Paulo àquela igreja da
região da Acaia na forma trinitaria: "A graça do Senhor (kyrios)
Jesus Cristo, o amor de Deus (theos) e a comunhão do Espírito (pneuma)
Santo sejam com todos vocês." Esse texto é muito conhecido e comumente faz
parte das celebrações de cultos cristãos. A nota referente a esse versículo,
utilizada na Bíblia de Estudos NVI, diz que essa passagem do NT "serve
para nos lembrar que o ministério da Santa Trindade é conhecido como
verdadeiro, não mediante à explicação racional ou filosófica, mas mediante à
experiência cristã, por meio da qual o crente conhece em primeira mão a graça,
o amor e a comunhão que fluem livremente a ele das três pessoas do único Senhor
Deus."[8]
b. Agora,
em nenhum outro lugar do NT a triunidade do Deus único fica tão evidente quanto
nos evangelhos, pois lá é narrado o ministério terreno do Filho de Deus. Sem
falar da pluralidade que fica evidente, todas as vezes que Jesus, especialmente
no evangelho de João, ou se apresenta, ou é apresentado, como Deus, mas que,
ainda assim, se comunica e fala sobre o Deus Pai e explica sobre a atuação do
Consolador (Espírito Santo), algumas referências mostram de forma clara a
atuação das três Pessoas da Trindade ao mesmo tempo. Uma das passagens em que
esse conceito fica evidente é a do batismo de Jesus por João Batista (em Mt 3,
Mc 1 e Lc 3), na qual é narrado que, logo após Cristo ser batizado, foi visto o
Espírito Santo descer do céu como pomba, pousando-se sobre Ele e a voz do Pai,
vinda do céu, disse: "Este é meu Filho amado, em quem me agrado". O
que é muito interessante e solidifica, mais uma vez, o conceito da trindade no
NT, é a forma verbal utilizada na frase "em quem me agrado", o que no
grego se chama aoristo. Esse tempo verbal, sem equivalentes em línguas
latinas, expressa uma ação interminável, atemporal, como dizendo: "em quem
sempre me agradei, me agrado e sempre me agradarei".
c. Seguindo
adiante, ainda nos evangelhos, a formula de Jesus a respeito do batismo, em
Mateus 28.19, prescreve: "Portanto, vão e façam discípulos de todas as
nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo." Percebamos
a palavra "nome" escrita no singular, referindo-se às três Pessoas,
em total igualdade e unidade. Esse conceito de igualdade pode ser bem observado
na relação entre o Deus Filho e o Deus Espírito, já que o ministério do
Espírito Santo é a perfeita continuidade da obra de Cristo na terra, como está
escrito em João 16, Jesus disse: "Agora vou para aquele que me
enviou" e "se eu não for o Conselheiro não virá para vocês" e
ainda, "Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará
conhecido a vocês."
Em
vista disso, como diz Erickson, "embora a doutrina da Trindade não seja
declarada de forma expressa, a Escritura, especialmente o NT, contém tantos
indícios da deidade e da unidade das três Pessoas que podemos compreender por
que a igreja formulou a doutrina, concluindo que estava certa em fazê-lo."[9]
2. O
Entendimento do Conceito Bíblico da Trindade
2.1. Precauções
Básicas para que o Ensino Bíblico não seja Distorcido
De um modo geral, todos os cristãos que, ainda que de forma superficial,
foram apresentados ao conteúdo bíblico mais básico e fundamental, julgam ter
familiaridade com o assunto da Trindade. Porém, como disse Dallas Willard sobre
muitos que acreditam compreender a obra de Jesus, "a presumida
familiaridade tem levado ao desconhecimento, o desconhecimento ao desdém e o
desdém a uma profunda ignorância."[10] O
mesmo acontece com o tema da Trindade, muitos julgam compreender esse assunto,
mas, na verdade são verdadeiros desconhecidos a ele, incorrendo em erros
graves, ou mesmo, sendo incapazes de formular explicações plenamente
satisfatórias àqueles que nunca foram apresentados ao assunto, como comentado
no início deste trabalho sobre o próprio autor.
Um ponto que sempre deve ser levado em
consideração sobre esse assunto tão profundo é que, de certa forma, ele ainda
permanece como um mistério divino, ou seja, como homens, nunca o poderemos
conhecer em plenitude. Qualquer busca por simplificações extremas pode
desviar-nos do fato que o conhecimento de Deus vem pela fé e parte da
iniciativa e revelação de Deus. Os esforços humanos de nada adiantam. Devemos
deixar que a Palavra ilumine nosso entendimento e abra caminho para o
conhecimento divino expresso a nós, como o Salmo 119 inteiro nos ensina.
Mais adiante, é importante
atentarmos ao fato, de que qualquer forma de analogia que possa ser usada para
demonstrar a Trindade limita muito a explicação do tema, ou mesmo, faz pior,
induz a erros de conceito. Por exemplo, dizer que a Trindade é como a água, que
pode ser apresentada no estado sólido, líquido ou gasoso, mas que constitui uma
só substância, faz o leigo esquecer que esses estados são apenas "modos de
ser"[11] do
elemento água, ou seja, "uma porção de água não existe simultaneamente em
três estados", mas Deus sim existe simultaneamente em três Pessoas e em Um
só. Outra analogia errônea é a do sol, que existe na forma da estrela em si, na
forma de luz e na forma de calor. Isso nos induz a pensar que da mesma forma
que o sol possui partes diferentes que o representam, o Pai, o Filho e o
Espírito Santo existem de formas distintas, ou seja, representam partes
diferentes da natureza divina. Essa é uma visão triteísta e errada da verdade
bíblica.
2.2. A
Verdade Bíblica de que Deus é Trino
A verdade bíblica coerente deixa clara a doutrina de que Deus é três
Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Com o fim de facilitar o entendimento
dessa afirmação, utilizaremos a analise de Jenson, que diz que "a passagem
trinitaria mais notável do NT, que resulta num sistema teológico completo, é
Romanos 8."[12]
Continua o autor dizendo que "seu cerne conceitual e argumentativo é o
versículo 11", a saber: "E, se o Espírito daquele que ressuscitou a
Cristo dentre os mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou a Cristo dentre
os mortos também dará a vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito,
que habita em vocês." Em um só versículo verificamos um resumo do plano
redentor de Deus e vemos claramente as três Pessoas da Trindade atuando neste
plano, onde Deus é o agente da salvação, efetuada através de Jesus e confirmada
com o envio do Espírito Santo, que habita no crente.
Com isso, fica claro que o Pai não é o Filho, algo também comprovado por
textos como João 1.1, onde está escrito que no início era o Verbo, ou, a
Palavra, representativo de Cristo, que estava com Deus e era Deus. Também, em I
Timóteo 2.5, está escrito que Jesus é o único mediador entre Deus e os homens,
algo que só pode ser cumprido caso Cristo seja uma Pessoa distinta de Deus Pai.
Além disso, o Pai não é o Espírito Santo, uma vez que Romanos 8.26-27
diz que o Espírito Santo intercede por nós e o faz de acordo com a vontade de
Deus. Ora, não existe lógica em entendermos que uma pessoa intercede para si
mesma em favor de outrem. Da mesma forma, o Filho não é o Espírito Santo,
comprovado por João 16.7, passagem onde Jesus diz que irá para junto do Pai e
enviará o Espírito Santo. Novamente, não existe lógica em uma pessoa enviar-se
a si mesma.
Um ponto importante
levantado por Grudem é que "alguns têm questionado se o Espírito Santo é
de fato uma Pessoa distinta, ou apenas um "poder" ou
"força" de Deus em operação no mundo."[13]
Porém, na análise bíblica encontramos alguns fatos que desmentem essa hipótese.
Novamente o evangelho de João nos ajudará na passagem João 15.26, que diz:
"Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o
Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito."
Em primeiro lugar, a palavra Conselheiro vem do grego parakletos, que
indica uma pessoa "chamada para estar ao lado de alguém", um
"conselheiro de defesa", algo que não poderia ser usado para uma
"força" indeterminada. Percebamos também o pronome "ele"
utilizado referindo-se ao Espírito Santo, que vem do grego ekeinos. Uma
vez que a palavra grega para espírito, pneuma, que quer dizer um
"movimento de ar", ou, um "sopro suave", não é masculina,
mas neutra, o uso do pronome não deveria ser usado, mas é. Além dessas, muitas
outras comprovações existem[14],
como atributos pessoais claros apresentados na bíblia pelo Espírito, como falar
em Atos 8.29 e 13.3, ser entristecido em Efésios 4.30, distribuir dons (1Co
12.11), avaliar e aprovar em (At 15.28), entre outros.
2.3. A
Verdade Bíblica de que Deus é Uno
Um dos ensinos mais importantes da
bíblia é o fato de só haver um Deus. Apesar do fato das três Pessoas existirem,
como comprovamos biblicamente até agora, elas são Um. Como diz Grudem,
"são Um não somente em propósito e em concordância sobre o que pensam, mas
são Um em essência, possuindo a mesma natureza essencial."[15]
Sendo assim, há Um e somente Um Deus.
Atualmente, com o levantar da era
pós-moderna, a posição absoluta sobre o Deus único é interpretada como radical
e intolerante. Isto frente ao crescimento da popularidade da concepção
panteísta que, segundo Geisler, "acredita num Deus impessoal que literalmente
é o Universo"[16],
não seu criador divino. Continua o autor: "os panteístas acreditam que
Deus é tudo que existe: Deus é a grama, Deus é o céu, Deus é a árvore",
Deus é o homem, enfim, Deus é tudo e tudo é Deus, visão pregada pelo budismo,
hinduísmo e outras religiões orientais.
Certamente devemos levar em consideração que toda forma de fanatismo
cego religioso é errada, porém, da mesma forma que muitos têm considerado os
cristãos intolerantes em função da crença no Deus único, é intolerante da parte
dos que crêem diferente julgar os cristãos por terem fé no ensino bíblico. Ou
mesmo, julgá-los por acreditarem em uma verdade absoluta, dizendo não existir
uma só verdade, mas verdades de acordo com o ponto de vista e experiência de
vida de cada um. Frase esta que se contradiz, uma vez que é utilizada como uma
verdade absoluta para dizer que verdades absolutas não existem.
Sendo assim, o que diz o ensino
bíblico, base da fé cristã? Em Romanos 3.30 é ensinado que só há um Deus. Em
Efésios 4.6 está escrito que só há um Deus. Em Tiago 2.19 é expresso que só há
um Deus. E muitos mais textos o fazem. Além disso, na própria auto-revelação de
Deus, Ele se apresenta contrário ao politeísmo, como em Êxodo 20.2,3: "Eu
sou o Senhor, o teu Deus, que te tirou do Egito, da terra da escravidão. Não
terás outros deuses além de mim." Algo interessante é que no AT a
idolatria e busca de outros deuses além do único Deus é considerada tanto uma
desobediência, como também, algo totalmente nulo e sem valor, pela inexistência
de outros deuses. Conceito muito explorado no livro de Jeremias, como no
versículo 2.11: "alguma nação já trocou seus deuses? E eles nem sequer são
deuses! Mas o meu povo trocou a sua Glória por deuses inúteis."
Em vista disso alguém poderia alegar:
"Não dá para crer na idéia da Trindade e na idéia da existência de apenas
um Deus!" Bem, como já foi mencionado, o conhecimento pleno da pluralidade
do Deus Uno permanecerá sempre como um mistério. Todavia, o estudo bíblico nos
permite conviver tranquilamente com essa realidade, mesmo que ela transcenda o
entendimento humano e seja paradoxal.
Como prova disso, algo que
não poderia deixar de ser mencionado é o mandamento expresso em Deuteronômio
6.4, que diz: "Ouça, ó Israel: O Senhor, o nosso Deus, é o único
Senhor." Neste texto a palavra hebraica traduzida por "único" é echad,
que representa muito mais do que a leitura em português pode demonstrar. Essa
mesma palavra é usada em Gênesis 2.24 para dizer que o homem e a mulher se
tornarão "uma só" carne. O sentido amplo que vem do hebraico sugere
não apenas a palavra "um", mas sim a união de partes distintas, um
organismo formado por diferentes pessoas. Existe outra palavra hebraica para
demonstrar o sentido de "único", "exclusivo" e, até mesmo,
"solitário", que é yachiyd. Essa palavra aparece em Zacarias
12.10 falando da perda de um filho "único", equivalente a palavra
grega monogenes, que aparece em João 3.16, onde se fala de Jesus como o
Filho "Unigênito" de Deus.
3. Entendimento
Básico das Visões Religiosas Existentes e Aplicações Práticas do Conceito da
Trindade
3.1. A
Mentalidade do Ouvinte Depende de Sua Cosmovisão
Para formularmos uma proposta de explicação sobre o conceito da Trindade
a um recém-apresentado ao tema, em primeiro lugar é importante que pensemos
sobre quem é nosso interlocutor. Especificamente, qual sua crença religiosa. Em
resumo, existem três cosmovisões principais que englobam todas as religiões
existentes: o ateísmo, o panteísmo e o teísmo.
De certa forma já explicamos o conceito do panteísmo em capítulo anterior
deste trabalho. Recapitulando, um membro de religião panteísta (seja budista,
hinduísta, espírita, nova era etc.), acredita que Deus não é o autor do
Universo, mas Ele mesmo é o Universo, que sempre existiu, como tudo o que nele
está, inclusive o homem, que é Deus.
Por outro lado, uma ateísta
é alguém que acredita em nenhum tipo de Deus. Ou seja, um ateu (marxista,
existencialista, positivista, humanista etc.) acredita que Deus não criou o
Universo, mas sim, que o Universo sempre existiu e Deus não existe. Em oposição
lógica total ao ateísmo está o teísmo, que se divide em três visões religiosas
muito conhecidas: o judaísmo, o islamismo e todas as ramificações do
cristianismo (católicos, ortodoxos e protestantes). O teísta é aquele que
acredita basicamente que Deus existe, que Ele é um ser pessoal e é criador do
Universo.
3.2. Aplicação
do Conceito da Trindade a Pessoas de Diferentes Visões Religiosas
É muito interessante que possamos lembrar de aplicações, sempre baseadas
na verdade bíblica, sobre a doutrina da Trindade na vida do ser humano. Como
Gudem diz com propriedade, "como Deus em si mesmo tem tanto unidade como
diversidade, não é de surpreender que unidade e diversidade se reflitam nos
relacionamentos humanos que Ele estabeleceu."[17]
Pensando no homem, isso se reflete na existência de dois sexos, de diferentes
raças, de relacionamentos, da família, de diferentes talentos etc.
Tudo isso está diretamente relacionado às cosmovisões apresentadas. Por
exemplo, um ateu crê que o homem e os relacionamentos humanos são produtos do
acaso, ou seja, tendo o Universo sempre existido, o decorrer dos fatos culminou
no resultado que hoje há no espaço. Mas, se assim é, qual a razão de tanta
harmonia, de tanta perfeição, qual a razão do sublime e do belo? Qual seria a
razão de amarmos nossa família já que tudo é determinado, já que o homem é um
mero resultado do acaso no Universo?
Por outro lado, o panteísta acredita que a perfeição se atinge com a
unidade total com o divino, esse é o conceito do nirvana, a união final
com Deus, onde não mais conseguiremos diferenciar nós mesmos do Universo. Ou
seja, só haverá perfeição quando nos tornarmos uma coisa só, uma só
"mistura", com o Universo, e não existirá individualidade. Dessa
forma, o viver em comunidade ou em família, onde cada um tem uma personalidade,
não deveria nos gerar felicidade, pois é algo que nos afasta da perfeição
divina final. Ainda, os diferentes talentos seriam ruins, assim como sermos
sujeitos a diversos sentimentos, como a alegria ou a tristeza, pois tudo não
passa de ilusão desse mundo imperfeito.
Por fim, um teísta não cristão acredita que o conceito da Trindade
diverge do fato da crença em um só Deus. Mesmo assim, é surpreendente a
quantidade de pessoas de diferentes nações, raças, ideologias, condições
sociais, níveis intelectuais, formações familiares etc, que integram as igrejas
cristãs e servem a seu Deus em unidade. Pessoas unidas em um só propósito,
mesmo que seus panoramas socioculturais divirjam. Ricos sentados junto a
pobres, doutores andando com analfabetos, negros de mãos dadas com brancos,
médicos trabalhando em conjunto com pedreiros, famílias árabes cantando em coro
com famílias israelenses, crianças servindo a sociedade ao lado de velhos,
enfim, algo que seria muito coerente à realidade de um só Deus subsistindo em
três Pessoas com a mesma natureza.
[1]
Grudem, Wayne: Manual de doutrinas cristãs: teologia sistemática ao alcance de
todos (São Paulo, Ed. Vida, 2005, pg. 109).
[2] Todas as referências bíblicas deste trabalho
foram extraídas da Nova Versão Internacional - NVI (São Paulo, Ed. Vida, 2001).
[3]
Todas as referências ao grego e ao hebraico bíblico foram retiradas do Léxico
Grego e Hebraico de Strong (em português) da Bíblia On Line 3.0 (São Paulo,
Sociedade Bíblica do Brasil, 2002).
[4] Erickson,
Millard J.: Introdução à teologia sistemática (São Paulo, Ed. Vida Nova, 1997,
pg. 131).
[5]
Existem ainda muitas outras referências respeitáveis e importantes sobre a
doutrina da Trindade encontradas no AT, porém, não serão apresentadas por não
serem o foco do trabalho.
[6]
Ibid., pg. 132.
[7] Não
se deve entender a pluralidade divina espelhada na criação no sentido do sexo
(macho ou fêmea), mas sim, no sentido da existência do Pai, Filho e Espírito
Santo em um só Deus, ou seja, apenas a pluralidade é levada em questão, não os
diferentes sexos.
[9]
Erickson, Millard J.: Introdução à teologia sistemática (São Paulo, Ed. Vida
Nova, 1997, pg. 133).
[10]
Willard, Dallas: A conspiração divina - o verdadeiro sentido do discipulado
cristão (São Paulo, Ed. Mundo Cristão, 2001, pg. 13).
[11]
Erickson, Millard J.: Introdução à teologia sistemática (São Paulo, Ed. Vida
Nova, 1997, pg. 138).
[12]
Braaten, Carl E. / Jenson, Robert W., Editores: Dogmática Cristã (Rio Grande do
Sul, Ed. Sinodal, 1987, vol. 1, pg. 125).
[13]
Grudem, Wayne: Manual de doutrinas cristãs: teologia sistemática ao alcance de
todos (São Paulo, Ed. Vida, 2005, pg. 112).
[14] Não
exploraremos profundamente o tema por não ser o intuito deste trabalho,
bastando as menções aplicadas.
[15]
Ibid, pg. 115.
[16]
Geisler, Norman L. / Turek, Frank: Não tenho fé suficiente para ser ateu (São
Paulo, Ed. Vida, 2006, pg. 22)
[17]
Grudem, Wayne: Manual de doutrinas cristãs: teologia sistemática ao alcance de
todos (São Paulo, Ed. Vida, 2005, pg. 127).
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