INTERPRETAÇÃO BÍBLICA BÁSICA
1. Resumo Sobre Interpretação Bíblica
1.1 Hermenêutica e Exegese
Toda interpretação bíblica tem por princípio duas palavras-chave:
a. Hermenêutica [hêrmeneia; hêrmeneuô; hêrmeneutes]:
princípios, teoria.
Definição do dicionário
Houaiss:
1-
Ciência, técnica que tem
por objeto a interpretação de textos religiosos ou filosóficos.
2-
Interpretação dos textos,
do sentido das palavras.
3-
Teoria, ciência voltada à
interpretação dos signos e de seu valor simbólico.
Etimologia: “arte de
interpretar, relativo à interpretação, próprio para fazer compreender, arte de
descobrir o sentido exato de um texto, interpretação do que é simbólico.”
No Novo Testamento temos o uso da palavra Hermeneuô em Lucas 24:27; 1 Coríntios 12:10; 1 Coríntios 14:28;
Hebreus 7:2.
Roy B. Zuck define assim, hermenêutica:
“Hermenêutica é a arte e a ciência de interpretação. É ciência porque
postula princípios seguros e imutáveis; é arte porque estabelece regras
práticas e envolve uma tarefa.”
b. Exegese [exêgesis; exêgeomai]: exposição e explicação prática
do texto.
Definição do dicionário
Houaiss:
1-
Comentário ou dissertação
que tem por objetivo esclarecer ou interpretar minuciosamente um texto ou uma
palavra
2-
Interpretação de obra
literária, artística etc.
Etimologia: “exposição de
fatos históricos, interpretação, comentário, interpretação de um sonho,
tradução, conduzir, guiar, dirigir, governar, conduzir passo a passo ou até o
fim, expor em detalhe, explicar, interpretar, marchar na frente, conduzir,
guiar.”
A palavra Exegese significa tirar o significado do texto bíblico e é
contrária à Eisegese que é impor significado ao texto bíblico, ou, interpretação
de um texto atribuindo-lhe idéias do próprio leitor. A exegese utiliza as
ferramentas da hermenêutica.
“Hermenêutica é como um livro de receitas, com regras de como fazer um
bolo; exegese é a preparação do bolo; exposição é a entrega do bolo para alguém
comer.” (Roy B. Zuck)
1.2 Por Que Precisamos de Ferramentas para
Interpretação?
1.2.1 O Perigo de Uma Interpretação Superficial
Infelizmente temos um grande problema que atinge a maioria dos cristãos
dos dias de hoje: o desinteresse pelo conhecimento profundo da Bíblia. À
semelhança daqueles que perseguiam Jesus e usavam textos aleatórios do Antigo
Testamento para tentar enganar o Mestre, muitos hoje:
“...estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de
Deus!” (Mateus 22.29)
Não podemos nos enganar, existe um grande abismo entre o sentido do
texto bíblico original e nosso entendimento sobre esse texto em nossos dias.
Não podemos ser ignorantes e achar que não há necessidade de dedicação,
pesquisa e oração para entendimento adequado da Bíblia. Não podemos nos
contentar com a aceitação cega de explicações da bíblia sem investigações
sérias. Hoje, somos atacados por pregações e livros que trazem argumentos
provindos de idéias que nada tem a ver com o propósito do texto, mas sim da
vontade do pregador de passar uma mensagem segundo seu ponto de vista
(Eisegese).
Vejamos um exemplo simples. Alguém tem a intenção de pregar sobre o tema:
“A união e o encorajamento entre os cristãos”. Partindo desse tema vai à bíblia
buscar textos para compor seu sermão. Depois de pesquisar extrai o seguinte
versículo isolado para iniciar sua exposição:
Isaías 41.6: “cada um ajuda o outro e diz a seu irmão: "Seja
forte!"”
O pregador poderia seguir tranquilamente com sua exposição sem ser
questionado, pois, inicialmente, o texto parece ilustrar bem o argumento do
palestrante. Entretanto, um estudioso da Palavra não aceitaria este texto como
adequado ao argumento da pregação, pois lembraria que o contexto desta passagem
tem um propósito muito diferente do que “A união e o encorajamento entre os
cristãos”. A saber:
Isaías 41.5-7: “As ilhas viram isso e temem; os confins da terra tremem.
Eles se aproximam e vêm à frente; cada um ajuda o outro e diz a seu irmão:
"Seja forte!" O artesão encoraja o ourives, e aquele que alisa com o
martelo incentiva o que bate na bigorna. Ele diz acerca da soldagem: "Está
boa". E fixa o ídolo com prego para que não tombe.”
O texto na verdade fala sobre produtores de imagens e ídolos que ajudam
um aos outros a fazerem o que é abominável aos olhos do Senhor, sendo que o
povo de Deus, Israel, não deveria se envolver com as atividades deles. Esse é
um exemplo até engraçado, mas mostra um retrato triste do desinteresse dos
cristãos pelo conhecimento bíblico sério. Esse desinteresse faz com que muitos
sejam manipulados e guiados por idéias de homens sem escrúpulos que usam a
bíblia em favor de suas idéias vãs, para chamar a atenção das pessoas e levar
muitos a satisfazerem seus interesses. São esses que sujam a imagem dos
cristãos na sociedade e desonram a Palavra de Deus frente aos que não conhecem
a Jesus.
Mateus 15.7-14: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías acerca de vocês,
dizendo: 'Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de
mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por
homens. Jesus chamou para junto de si a multidão e disse: "Ouçam e
entendam. O que entra pela boca não torna o homem 'impuro'; mas o que sai de
sua boca, isto o torna 'impuro'. Então os discípulos se aproximaram dele e
perguntaram: "Sabes que os fariseus ficaram ofendidos quando ouviram
isso?" Ele respondeu: "Toda planta que meu Pai celestial não plantou
será arrancada pelas raízes. Deixem-nos, eles são guias cegos Se um cego
conduzir outro cego, ambos cairão num buraco".
1.2.2 O Abismo da Interpretação
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LEITOR NO SÉCULO
21
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TEXTO ORIGINAL
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Tempo, Idioma, Cosmovisão, Literatura, Cultura, Geografia
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Olhando a figura acima, pensemos se realmente levamos em consideração os
fatores agrupados no “abismo” quando lemos a Bíblia. Todo texto bíblico foi
escrito por alguém (Paulo, Salomão, Davi, João, Lucas, Isaías etc.), para
ouvintes específicos, que se encontravam num contexto histórico e geográfico
específico e com um objetivo específico. O conteúdo da Bíblia foi afetado e
influenciado pelo meio cultural em que cada autor humano escreveu.
Algumas definições de
“cultura” do dicionário Houaiss:
1- Conjunto de padrões de comportamento, crenças,
conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social.
2- Forma ou etapa evolutiva das tradições e valores
intelectuais, morais, espirituais (de um lugar ou período específico);
civilização
Sendo assim, a cultura é um conjunto de comportamentos, crenças, valores
morais, espirituais e materiais característicos de uma sociedade. Mesmo dentro
de um país, encontramos comportamentos diferentes nas suas diversas regiões.
Nomes de comida, animais, roupas, jogos etc., recebem nomes diferentes. E não
só isso, a maneira de se comunicar e as locuções usadas mudam bastante. Dentro
desta idéia, algo que mais se distingue de uma cultura para outra é a maneira
de viver, sendo que hábitos mudam completamente de acordo com a cosmovisão do
povo.
“Dada a existência de um abismo cultural entre nossa era e os tempos
bíblicos - e como o nosso objetivo na interpretação bíblica é descobrir o
sentido original das Escrituras - é imperativo que nos familiarizemos com a
cultura e os costumes de então.” (Roy B. Zuck)
a. O Abismo Cronológico da
Bíblia: Os 5 primeiros livros de
Moisés (Pentateuco) foram compostos aproximadamente 1.400 anos a.C.. Já o
Apocalipse, último livro da bíblia, foi escrito por João 90 anos d.C. O livro
de Jó, considerado o mais antigo da bíblia, pode ter sido escrito décadas antes
do Gênesis. Sendo assim, há um imenso abismo temporal que nos separa dos
autores bíblicos. Isso nos gera um grande desafio, que é voltar no tempo para,
de alguma forma, nos “comunicarmos” com eles e entender o significado do que
escreveram.
b. O Abismo Geográfico da
Bíblia: Vivemos hoje no ocidente,
na América já chamada de “o novo mundo”. Isso significa que estamos a milhares
de quilômetros de distância dos locais onde a Bíblia foi composta. O contexto
geográfico que vivemos determina grandemente nossa forma de enxergar o mundo,
sendo que a cultura se adapta ao ambiente em que se desenvolve. Um exemplo
simples está no Salmo 42, verso 1: “Como a corça anseia pelas águas correntes,
minha alma anseia por ti Senhor.” Somente uma pessoa que já caminhou em um
deserto poderia entender toda a força desta poesia. Até podemos compreender seu
sentido, porém a intensidade da “sede” da corça pode não ser a mesma para nós e
para alguém provindo dos desertos da Palestina.
c. O Abismo dos Costumes da
Bíblia: É de vital importância
conhecermos os costumes dos povos dos tempos bíblicos. Como disse Zuck, “quando
abrimos a Bíblia é como se estivéssemos entrando num país estranho. Da mesma
forma que ficamos confusos com a maneira de agir das pessoas de outros países,
podemos ficar confusos com o que lemos na Bíblia. Assim, é importante sabermos
o que os personagens bíblicos pensavam, em que acreditavam, o que diziam,
faziam e produziam”.
“A preocupação com o contexto força-nos a um distanciamento de nossas
interpretações particulares e a voltar-nos para o mundo do autor” (Alan
Johnson)
Vejamos alguns exemplos extraídos do caítulo 4 livro “A
Interpretação Bíblica” de Roy B. Zuck, Editora Vida Nova:
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Política
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Por que Boaz foi até a
porta da cidade falar com os anciãos sobre o terreno de Noemi (Rt 4.1)? A
porta da cidade era o lugar oficial para a realização de negócios e para o
julgamento de casos no Antigo Testamento. (Dt 21.18-21; 22.13-15; Js 20,4; Jó
29.7)
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Religião
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Qual a razão de Deus ter
lançado as 10 pragas sobre o Egito? Por que ele enviou justamente aquelas pragas
em vez de outras? Com as pragas Deus estava atacando e expondo a incapacidade
e falsidade dos deuses Egípcios relacionados a cada uma delas. Por exemplo,
acreditava-se que o rio Nilo era protegido por vários deuses, porém, quando
este virou sangue, os deuses foram julgados incapazes. Quando o gado morreu,
a deusa Hátor, que tinha cabeça de vaca e o deus Ápis, o deus-touro, foram
julgados falsos. (Êxodo capítulos 8 à 11)
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Leis
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Em Colossenses 1.15, a
expressão “o primogênito de toda a criação” significa que Cristo não é
eterno, mas que foi criado? Não, significa que ele é o Herdeiro de toda a
criação (Hb 1.2), assim como era lei que o primogênito tivesse um lugar de
honra e detivesse direitos especiais. A palavra para primogênito é prototokos e não pode ser usado para
ser criado, no caso, para passar essa idéia deveria usar protoktisis.
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Agricultura
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Por que Jesus amaldiçoou
a figueira se nem era época de figos? (Mc 11.12-14) Em Israel, as figueiras
produziam pequenos botões em março e grandes folhas em abril. Esses botões
eram frutos comestíveis. Jesus amaldiçoou a figueira na época da Páscoa
(abril). Como a planta não apresentava botões, não daria frutos naquele ano.
A maldição que Jesus lançou na figueira representava a falta de vitalidade
espiritual de Israel (falta de botões), a despeito de sua aparente
religiosidade (folhas verdes).
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Arquitetura
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Como Raabe poderia ter uma casa em cima de uma muralha (Js 2.15)?
Jericó tinha muralhas duplas e o intervalo entre elas era cheio de terra, de
forma que se poderia construir casas ali.
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Vida Doméstica
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Por que em Lucas 9.59, o homem disse que queria enterrar o pai antes
de seguir a Jesus? Ele não quis dizer que o pai havia acabado de morrer, mas
sim que se sentia obrigado a esperar o pai morrer, mesmo que levasse vários
anos, provavelmente para receber a herança. O que seria uma relutância
condenada por Jesus.
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Geografia
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Por que a carta para a igreja de Laodicéia, em Apocalipse 3.16, dizia
que os membros daquela igreja eram “mornos”, nem “quentes”, nem “frios”? Essa
afirmação reflete o fato de que aquela congregação local era como a água da
cidade, em termos espirituais. A água de Laodicéia percorria dutos de 10 km
de Hierápolis à Laodicéia, saído quente das termas de Hierápolis, mas, quando
chegava a Laodicéia, já estava morna.
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Organização Militar
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Por que Paulo afirmou em 2Coríntios 2.14, que Deus “em Cristo sempre
nos conduz em triunfo...”? No império Romano, quando um general retornava
vitorioso de uma batalha, marchava a frente de seus soldados pelas ruas de
sua cidade natal, com os prisioneiros atrás. De forma semelhante somos
conduzidos por Jesus pelo fato de estarmos “em Cristo”. Essa idéia ocorre em
Colossenses 2.15, quando Paulo apresenta Cristo expondo publicamente os
inimigos ao desprezo, tendo triunfado sobre eles na cruz.
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Estrutura Social
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Por que nos tempos bíblicos as pessoas jogavam pó sobre as cabeças (Jó
2.12; Lm 2.10; Ez 27.30; Ap 18.19)? Elas demonstravam assim o enorme pesar
que sentiam, era como se estivessem em uma sepultura, debaixo da terra, mostrando
sua fraqueza e humilhação.
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d. O Abismo dos Idiomas
Bíblicos: Este talvez seja um dos
principais motivos de dificuldade na interpretação bíblica atual. A bíblia foi
escrita primordialmente em Hebraico e Grego, com alguns trechos em Aramaico.
Essas línguas são extremamente distantes dos idiomas modernos e de nossa forma
de falar e escrever. Os manuscritos originais do Antigo testamento foram
escritos em hebraico somente com consoantes, sendo que ganharam vogais somente
900 d.C. Lendo somente consoantes um conjunto de letras poderia significar
várias palavras. O exemplo usado por Zuck, representando em português o
problema, é a sequencia de letras TCH. Podemos ler “TOCHA”, “TACHO”, “TACHA”.
Isso representa um desafio aos intérpretes dos textos originais, pois uma frase
poderia variar de significado de acordo com o contexto. Outro grande desafio no
trabalho de interpretação é a análise gramatical.
Nos tempos antigos as palavras tinham
significados diversos e muito distintos do que entendemos hoje, além de funções
e relações muito diferentes. Hoje em dia temos várias versões diferentes em
português. Com a descoberta de manuscritos antigos e de estudos, as versões vão
sofrendo modificações. A principal versão em português, feita por João Ferreira
de Almeida, já sofreu inúmeras alterações desde a sua primeira tradução
(Corrigida, Atualizada, Bíblia Almeida Séc. 21, etc.) e muitas outras versões
já surgiram (NVI, Bíblia de Jerusalém, Bíblia Viva, Bíblia na Linguagem de Hoje
etc.). Fazer uma interpretação baseada apenas na tradução da Bíblia em
português, sem nenhum outro critério de investigação, poderá resultar em uma
grande chance de erro. Para transpormos o abismo do idioma, precisamos
considerar o significado que as palavras tinham no tempo do autor, pois elas
mudam de significado com o passar do tempo.
1.3 Nem Tudo é Alegoria
O que facilita uma interpretação bíblica livre
da Eisegese, ou seja, da atribuição de significado pela lente do leitor, em vez
da consideração da idéia que o texto quer passar, é a busca pela interpretação inicial
mais literal possível, levando-se em consideração os “abismos” já mencionados.
O problema é que a mentalidade brasileira, influenciada pela cultura grega, tem
uma facilidade imensa para a alegorização excessiva dos textos bíblicos. Quem
nunca ouviu a frase: “a bíblia tem várias interpretações, que podem ser verdade
dependendo da pessoa que lê!” Isso parece super espiritual, porém é um erro
gravíssimo. Com certeza existem algumas passagens bíblicas que podem ter mais
de uma interpretação plausível, porém, a grande maioria dos textos não tem mais
de uma possibilidade de interpretação.
A Bíblia é um livro rico em gêneros literários.
Temos lei (Pentateuco), históricos (Juízes, Samuel, Reis etc.), narrativas,
poesias (Salmos, Cantares, Lamentações), provérbios, profecias (Isaías,
Jeremias etc.), evangelhos (Mateus, Lucas etc.), cartas (Romanos, Hebreus etc.)
e apocalipse. Dentro de cada estilo, temos figuras de linguagens e textos
literais, com idéias diretas. E isso precisa ser observado antes de fazer uma
interpretação, pois nem tudo é figura de linguagem. Se não formos cuidadosos e
analisarmos como figuras de linguagem frases que não são figuras, podemos cair
no erro da alegorização e espiritualização demasiada dos textos, sem a compreensão
dos contextos gerais e das idéias fundamentais das passagens. Para evitarmos
este problema, vale conhecermos melhor sobre as figuras de linguagem usadas na
Bíblia.
1.3.1 As Figuras de
Linguagem
A figura de linguagem é uma forma de expressão
em que as palavras usadas comunicam um sentido não literal. É uma representação
legítima que pretende comunicar mais clara e graficamente uma idéia literal. As
figuras dão vida a uma passagem. A Bíblia contém figuras de linguagem para
ajudar a expressar determinadas idéias, mas isso não quer dizer que a Bíblia só
é feita de figuras. Jesus usou várias figuras de linguagem, como veremos, para
encorajar a reflexão e ajudar a tornar idéias abstratas aos ouvintes mais
claras e tangíveis, porém, a maioria de seus mandamentos foram expressos de
forma clara e direta.
>> A seguir veremos
um quadro com algumas figuras de linguagem usadas na Bíblia:
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1. Metáfora
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É uma comparação em que um elemento é, imita
ou representa outro (sendo que os dois são essencialmente diferentes). A
comparação está implícita, sendo caracterizada pelos verbos “ser” e “estar”.
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Isaías 40.6; João 15.1; Mateus 5.13; João
10.9; João 14.5; Jeremias 50.6; Gênesis 49.9.
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2. Sinédoque
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É tomar parte pelo todo ou o todo pela parte,
o plural pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice-versa. Ela trata mais
de idéias e conceitos.
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Salmo 16.9; Atos 24.5; Gênesis 6.12; Romanos
1.16.
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3. Metonímia
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É o emprego de um nome por outro com o qual
tem relação. É empregar a causa pelo efeito, ou o sinal ou símbolo pela
realidade que indica o símbolo.
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Lucas 16.29; João 13.8; 1João 1.7; 1Coríntios
10.21; Hebreus 13.4.
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4. Prosopopéia
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É a personificação das coisas inanimadas,
atribuindo-lhes os feitos e ações de pessoas.
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Isaías 55.12; Salmo 85.10-11
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5. Ironia
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É a expressão do contrário do que se quer
dizer, porém sempre de tal modo que se faz ressaltar o sentido verdadeiro.
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1Reis 18.27; Jó 12.2
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6. Hipérbole
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É um exagero para dar ênfase, representando
uma coisa com muito maior ou menor grau do que em realidade é, para
apresentá-la viva à imaginação
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Números 13.33; Deuteronômio 1.28; João 21.25;
Mateus 5.29,30
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7. Alegoria
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É uma ficção em que se admite um sentido
literal, exigindo, todavia, uma interpretação figurada. São várias metáforas
unidas.
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João 6.51-65; Salmo 80.8-13
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8. Fábula
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Uma alegoria histórica.
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2Reis 14.9
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9. Enigma
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Um tipo de alegoria, porém sua solução é
difícil e abstrata.
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Juízes 14.14
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10. Tipo
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Uma classe de metáfora que não consiste
meramente em palavras, mas em fatos, pessoas ou objetos que designam fatos
semelhantes, pessoas ou objetos no porvir. É prefigurativo.
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João 3.14; Mateus 12.40
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11. Símbolo
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É uma espécie de tipo pelo qual se representa
alguma coisa ou algum fato por meio de outra coisa ou fato similar que se
considera a propósito para servir de semelhança ou representação. É
ilustrativo.
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Batismo; Ceia; Sacrifício; 2Reis 13.14-19
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12. Parábola
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É uma espécie de alegoria apresentada sob
forma de uma narração, relatando fatos naturais ou acontecimentos possíveis,
sempre com o objetivo de declarar ou ilustrar uma ou várias verdades
importantes. É um símile ampliado.
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Mateus 13.3-8; Lucas 18.10-14; João 15
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13. Símile
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É uma comparação expressa pelas palavras
semelhante ou como. A ênfase recai sobre algum ponto de similaridade entre
duas idéias, grupos, ações etc.
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1Pedro 1.24; Salmo 1.3,4
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14. Apóstrofe
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É uma figura usada pelo orador no discurso.
Consiste em interrompe-lo subitamente, para dirigir a palavra, ou invocar
alguma pessoa ou coisa presente, ausente, real ou imaginária.
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Jeremias 47.6; Salmo 114.5-8; Isaías 14.9-32;
Deuteronômio 32.1
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15. Antítese
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Inclusão, na mesma frase, de duas palavras, ou
dois pensamentos que fazem contraste um com o outro
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Mateus 7.13-14; Mateus 7.17-18
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16. Provérbio
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É um dito comum, popular. Os provérbios do AT
estão redigidos em maior parte de forma poética, consistentes em dois
paralelismos, que geralmente são sinônimos, antitéticos ou simétricos.
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Lucas 4.23; Marcos 6.4; 2Pedro 2.22; Livro de
Provérbios
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17. Paradoxo
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Vem de para
(contra) + doxa (opinião). Uma
declaração oposta à opinião comum, que parece absurda, porém, quando
estudada, torna-se correta e fundamentada.
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Mateus 23.24; Mateus 19.24; 2Coríntios 12.10;
Marcos 8.35
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18.Personificação
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É atribuir características humanas a coisas,
idéias ou animais.
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Gênesis 4.10; Números 22.30
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19. Zoomorfismo
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É atribuir características animais a homens ou
a Deus.
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Salmo 91.4
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20. Antropopatismo
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É atribuir sentimentos humanos a Deus.
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Gênesis 6.6
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21. Antropomorfismo
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É atribuir características humanas a Deus.
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Salmo 8.3; 2Crônicas 16.9
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22. Eufemismo
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É suavizar a expressão de uma idéia
substituindo a palavra ou expressão própria por outra mais agradável, mais
polida.
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Atos 7.60; Gênesis 4.1; 1Tessalonicenses
4.13-15
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2. Guia Prático de Exegese Básica
Nossa intenção nesta seção do estudo é elaborar
um manual básico de exegese bíblica, levando em consideração as ferramentas que
a hermenêutica nos fornece. Para os teólogos mais eruditos, a boa exegese
sempre parte da leitura bíblica nas línguas originais (hebraico e grego).
Entretanto, para este curso básico, tentaremos aproveitar ao máximo as
ferramentas que supram a falta de maior conhecimento das línguas originais. É
possível fazer uma interpretação sem o estudo prévio do grego e hebraico
bíblico. Tomaremos como base alguns dos passos oferecidos no livro “Manual de
Exegese Bíblica” de Douglas Stuart e Gordon D. Fee, Ed. Vida Nova.
2.1 Introdução
“A chave para a boa exegese é a habilidade de fazer perguntas certas
para o texto a fim de captar o significado pretendido pelo autor.” (Gordon D.
Fee)
Existem
duas categorias básicas de perguntas que devemos fazer para o texto: “O que foi
que o autor quis dizer no texto?” e “Por que o autor disse isso?”
Pensando
primeiro no “por que”, temos que entender o contexto do que foi escrito. Normalmente
o contexto depende totalmente de questões históricas, sociológicas, culturais,
a ocasião específica do documento e questões literárias (o motivo de algo ter
sido dito em determinado ponto na argumentação ou narrativa).
Pensando
especificamente no “que o autor quis dizer”, entramos em pontos como a
determinação das palavras na língua original do autor, o significado de suas
palavras, o relacionamento gramatical entre suas palavras e o relacionamento
das palavras do autor com o contexto histórico-cultural (“por que”) dos seus
leitores.
2.2 A Importância da Revelação de Deus
Revelação é o
processo espiritual pelo qual Deus desvenda aos homens o seu caráter e o seu
plano eterno. Além dos aspectos científicos da interpretação bíblica,
verdadeiros cristãos devem levar em consideração a revelação de Deus à medida
que for desenvolvendo sua exegese. Um grande privilégio que temos em nossas
vidas é a existência das Escrituras para que conheçamos a Deus. A forma mais
preciosa da auto-revelação de Deus é a Palavra escrita, que exprime para nós
quem Deus é. Há muitas afirmações na bíblia que declaram que todas as palavras
das Escrituras são palavras de Deus, mesmo que tenham sido escritas por homens.
No Novo
Testamento, várias passagens indicam que todos os escritos do Antigo Testamento
são vistos como a Palavra de Deus. O texto de 2Timóteo 3.16 diz: “toda
Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para
correção e para instrução na justiça”. A palavra grega referente à expressão “inspirada
por Deus” (theopneustos) deve ser
entendida como uma metáfora da palavra falada de Deus transformada em
escritura, como se, ao ler, Deus fosse falando diretamente conosco.
Uma indicação
da qualidade dos escritos do AT como palavra de Deus encontra-se em 2Pedro
1.21, onde, no verso 19, o autor diz que nenhuma dessas profecias veio “por
vontade de Deus” e, antes, “homens falaram da parte de Deus movido pelo
Espírito Santo”. Pedro não estava negando a personalidade humana da composição
das escrituras, antes queria dizer que a fonte definitiva de toda profecia
nunca foi a decisão de um homem, mas a ação do espírito no profeta. Os escritos
do NT também são chamados de escrituras juntamente aos do AT, como observamos
em 2Pedro 3.16, onde Pedro mostra que as cartas de Paulo também são
classificadas como escrituras divinamente reconhecidas. Também, em I Timóteo
5.18, Paulo cita palavras de Jesus e as chama escritura.
2.3 Passos Básicos para Uma Interpretação
Bíblica Coerente
Passo 1. Estudo do Contexto Histórico Geral
- Faça algumas perguntas-chave: Quem é o autor? Quem são os destinatários? Qual
é o relacionamento entre ambos? Onde os destinatários vivem? Quais são
suas circunstâncias no momento? Que situação histórica levou à composição
do documento? Qual é o propósito do autor? Qual é o tema geral ou
preocupação do autor?
- Pesquise em materiais secundários: Manuais bíblicos, Bíblias de estudo,
Dicionários Bíblicos, Livros de Arqueologia Bíblica, Introduções ao Antigo
Testamento, Introduções ao Novo Testamento, Comentários bíblicos, Léxicos
etc. são fontes indispensáveis de pesquisa. Pergunte aos professores sobre
indicação de bons livros e editoras.
- Leia o livro todo de uma
só vez tentando responder às perguntas-chave e fazendo um esboço. Não há o que substitua
esse passo, pois não há exegese de um versículo isolado do contexto geral.
Você precisa ter uma noção do todo antes de analisar uma parte.
-
Durante sua leitura procure
descobrir tudo o que puder. Faça perguntas ao texto e procure notar sempre
questões, palavras ou idéias que são repetidas frequentemente.
-
Se possível faça um esboço
anotado de todo o livro ou capítulo para que se sinta à vontade com o todo da
passagem analisada.
Exemplo
de Contextualização Básica: Livro de Jeremias
Autor: Profeta Jeremias, com ajuda de seu secretário,
Baruque. Jeremias era um sacerdote de Anatote a quem Deus incumbiu a função
profética e o impediu de casar e ter filhos, uma vez que a mensagem de Jeremias
era do juízo de Deus contra Judá, que aniquilaria a geração seguinte onde se
encontrariam os filhos de Jeremias. Por ser um profeta com uma mensagem
controversa de juízo divino e domínio dos inimigos sobre Judá, Jeremias era
solitário, porém tinha um secretário, chamado Baruque, que anotava suas
palavras.
Data: O ministério profético de Jeremias começou em
626 a.C. e terminou em algum momento após 586 a.C. Seu ministério foi
antecedido por Sofonias. Habacuque e Obadias eram da mesma época, sendo que
Ezequiel viveu nos últimos dias do ministério de Jeremias, já exilado na
Babilônia.
Conteúdo
do livro: Relato do ministério
profético de Jeremias, cuja descrição pessoal é a mais detalhada dos profetas
do AT. Jeremias começou a profetizar em Judá no reinado de Josias (640-609
a.C.) e continuou nos reinados de Jeoacaz (609), Jeoaquim (609-598), Joaquim
(598-597) e Zedequias (597-586). Foi um período duro e cheio de pressões para a
terra de Judá. Os países menores da Ásia sempre sofreram pelas lutas de poder
entre gigantes como Egito, Assíria e Babilônia, sendo que Jeremias viveu em um
período desses, quando a Babilônia era o grande dominador. Ao mesmo tempo, o
povo de Judá vivia no ápice de uma história de pecado e abandono da Lei do
Senhor. Jeremias foi chamado para a tarefa ingrata de proclamar destruição do
Reino de Judá, totalmente corrompido, logo após o reinado longo e pecaminoso do
rei Manassés. Ele combatia duramente os falsos profetas que falavam de vitória
de Judá sobre a Babilônia, obscurecidos pelo orgulho. Jeremias dizia que o povo
deveria se render para sofrer menos.
1. O
Debate profético (Jr 28.1-11)
1.1
Hananias - profeta de Gibeão (Js 9.1-15)
1.2
Profecia de Hananias:
1.2.1
Fórmula profética - autoridade (28.2)
1.2.2
Quebra do domínio (jugo) da Babilônia (28.2,4)
1.2.3 Retorno dos utensílios do Templo (28.3)
1.2.4
Retorno do rei legítimo (Joaquim) e dos primeiros exilados (597 a.C.) (28.4)
1.3
Réplica de Jeremias (28.6-9)
1.3.1
“Amém” - Resposta positiva ou irônica? (28.6)
1.3.2
Verdadeiro profeta: profetiza ruína - (28.7s.)
1.3.3
Quem profetiza “Shalom”: sob suspeita (28.9)
1.4
Tréplica de Hananias (28.10s.)
1.4.1
Ação simbólica: quebra do jugo (28.10)
1.4.2
Profetiza rebelião contra Bab. (28.11) [Obs.: 70 anos de Jr em 25.11; 29.10]
2. A Resposta Divina (28. 12-17)
2.1
Réplica de Jr:
2.1.1
Bab.: Jugo de ferro x jugo de madeira (28.13)
2.1.2
Bab. = instrumento de disciplina (28.14)
2.1.3
Hananias: “não enviado”, falso prof. (28.15)
2.1.4
Hananias: castigo de Deus “enviado” à morte (28.16-17)
Passo 2. Confirme os limites da passagem.
- Verifique se você escolheu
para a exegese uma unidade genuína e completa. Na maioria das bíblias os
limites das passagens são delimitados por títulos dentro dos capítulos,
mas não se engane, pois algumas passagens se estendem por mais de um
capítulo, ou começam na metade de um, terminando na metade do próximo.
Mesmo que você faça a exegese de uma só frase, ela deve ter um lugar no
seu próprio parágrafo.
- Domine completamente a
passagem em estudo.
-
Faça uma lista provisória
de todas as dificuldades de interpretação e dúvidas que você tenha, tentando
sempre relacionar com o que foi escrito anteriormente ou posteriormente dentro
do livro todo que você já leu.
-
Leia toda a passagem em
várias traduções e anote principais diferenças (ex. Almeida Corrigida, Almeida
Atualizada, Almeida Séc. 21, NVI, Bíblia na Linguagem de Hoje etc.) Veja quais
diferenças são apenas sinônimos ou questões de gosto do tradutor e quais
diferenças realmente mudam o sentido da passagem
- Analise a estrutura das
frases e as relações sintáticas. É fundamental que desde o início da exegese você
tenha uma boa noção do fluxo do argumento (ou narrativa) e que reconheça
as estruturas básicas e a sintaxe de cada frase. Para fazer isso bem, não
existe nada melhor do que escrever toda a passagem de forma estruturada.
-
Faça um fluxograma das
frases com anotações sobre o fluxo do argumento. Também faça um diagrama de
frases para facilitar o entendimento das complexidades gramaticais. Este é o
esboço exegético.
EXEMPLO:
Colossenses 3: 1 Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo,
procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de
Deus. 2 Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. 3
Pois vocês morreram, e agora a sua vida
está escondida com Cristo em Deus. 4 Quando Cristo, que é a sua vida, for
manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.
|
Fluxograma de Frases da Passagem
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Fluxo do Argumento
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Portanto,
|
Ligação com passagem anterior
|
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...já que vocês
ressuscitaram com Cristo,
|
Base das Exortações
|
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...procurem as coisas que
são do alto,
|
Exortação 1
|
|
...onde Cristo está
assentado à direita de Deus.
|
Expansão da Exortação 1
|
|
Mantenham o pensamento
nas coisas do alto,
|
Exortação 2
|
|
...e não nas coisas
terrenas.
|
Contraste da Exortação 2
|
|
Pois vocês morreram,
|
Razão 1 das Exortações
|
|
...e agora a sua vida
está escondida com Cristo em Deus.
|
Especificação da Razão 1
|
|
Quando Cristo, que é a
sua vida, for manifestado,
|
Base da Conclusão
|
|
...então vocês também
serão manifestados com ele em glória.
|
Conclusão
|
Passo 3. Determine a idéia central da passagem
a. O
que é a Idéia Central? Pensamento
ou conceito organizador da passagem, que não necessariamente é o tema da
passagem. Por exemplo: Em Mt 7.15-23 o tema da passagem é “falsos mestres,
frutos maus-bons, hipocrisia” e a Idéia Central é “características do falso
mestre”. Outro exemplo: em Gn 3 o tema do capítulo é “processo da tentação,
astúcia do mal, fraqueza do ser humano” e a Idéia Central é “alienação de Deus”.
A idéia central normalmente é apresentada como uma sentença representando a idéia
básica do texto.
EXEMPLO:
Mateus 28: 18 Então, Jesus aproximou-se deles e disse: "Foi-me dada
toda a autoridade nos céus e na terra. 19 Portanto, vão e façam discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20
ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com
vocês, até o fim dos tempos".
-
Possibilidade de Idéia Central do texto: A Missão, segundo Jesus Cristo, tem como base
sua autoridade absoluta, consiste em reproduzir o que somos: discípulos; não
tem prazo de validade antes da consumação; tem como garantia a presença do
comissionador.
-
Esboço exegético: Afirmação Básica: Foi-me dada toda autoridade...
Exortação: Vão e façam discípulos... Consequência: Eu estou com vocês...
Passo 4. Considere os contextos bíblicos e teológicos
mais amplos
- Reúna todas as suas descobertas e ligue com o contexto mais amplo. Comece a focalizar na ligação, ou “mensagem”,
de sua passagem, você logo desejará encaixar tudo isso nos contextos
bíblicos e teológicos mais amplos.
-
Comece a perguntar: Como a passagem funciona dogmaticamente na
seção, no livro, na divisão, no Testamento, na Bíblia? Como ela e seus elementos
se comparam com outras passagens que tratam dos mesmos tipos de questões? Que
outros elementos nas escrituras a ajudam a se tornar compreensível? O que se
perderia, ou como a mensagem do contexto (capítulo, livro, Bíblia) seria
incompleta se essa passagem não existisse? O que a passagem contém que
contribui para a solução de questões doutrinárias, ou que fortalece soluções
oferecidas em outros lugares da Bíblia?
- Investigue o que outros disseram sobre a passagem. Embora você tenha consultado comentários,
gramáticas e outros tipos de livros no processo de completar os passos
anteriores, agora deve trabalhar em uma investigação mais sistemática da
literatura secundária que possa se aplicar à sua exegese. Para que a
exegese seja um trabalho seu e não uma compilação mecânica das
perspectivas de outros, só tome esse passo mais aprofundadamente no final
do trabalho.
Bibliografia:
Barker,
Kenneth – Bíblia de Estudo NVI – Editora Vida
Fee,
Gordon D.; Stuart, Douglas – Manual de Exegese Bíblica – Ed Vida Nova
Fee,
Gordon D.; Stuart, Douglas – Entende o Que Lês? – Ed Vida Nova
Zuck,
Roy B. - A Interpretação Bíblica – Ed. Vida Nova
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