quinta-feira, 11 de abril de 2013

Aula 4


INTERPRETAÇÃO BÍBLICA BÁSICA


1. Resumo Sobre Interpretação Bíblica

1.1 Hermenêutica e Exegese

Toda interpretação bíblica tem por princípio duas palavras-chave:

a. Hermenêutica [hêrmeneia; hêrmeneuô; hêrmeneutes]: princípios, teoria.

Definição do dicionário Houaiss:
1-    Ciência, técnica que tem por objeto a interpretação de textos religiosos ou filosóficos.
2-    Interpretação dos textos, do sentido das palavras.
3-    Teoria, ciência voltada à interpretação dos signos e de seu valor simbólico.

Etimologia: “arte de interpretar, relativo à interpretação, próprio para fazer compreender, arte de descobrir o sentido exato de um texto, interpretação do que é simbólico.”

No Novo Testamento temos o uso da palavra Hermeneuô em Lucas 24:27; 1 Coríntios 12:10; 1 Coríntios 14:28; Hebreus 7:2.

Roy B. Zuck define assim, hermenêutica:

“Hermenêutica é a arte e a ciência de interpretação. É ciência porque postula princípios seguros e imutáveis; é arte porque estabelece regras práticas e envolve uma tarefa.”

b. Exegese [exêgesis; exêgeomai]: exposição e explicação prática do texto.

Definição do dicionário Houaiss:
1-    Comentário ou dissertação que tem por objetivo esclarecer ou interpretar minuciosamente um texto ou uma palavra
2-    Interpretação de obra literária, artística etc.

Etimologia: “exposição de fatos históricos, interpretação, comentário, interpretação de um sonho, tradução, conduzir, guiar, dirigir, governar, conduzir passo a passo ou até o fim, expor em detalhe, explicar, interpretar, marchar na frente, conduzir, guiar.”

A palavra Exegese significa tirar o significado do texto bíblico e é contrária à Eisegese que é impor significado ao texto bíblico, ou, interpretação de um texto atribuindo-lhe idéias do próprio leitor. A exegese utiliza as ferramentas da hermenêutica.

“Hermenêutica é como um livro de receitas, com regras de como fazer um bolo; exegese é a preparação do bolo; exposição é a entrega do bolo para alguém comer.” (Roy B. Zuck)

1.2 Por Que Precisamos de Ferramentas para Interpretação?

1.2.1 O Perigo de Uma Interpretação Superficial

Infelizmente temos um grande problema que atinge a maioria dos cristãos dos dias de hoje: o desinteresse pelo conhecimento profundo da Bíblia. À semelhança daqueles que perseguiam Jesus e usavam textos aleatórios do Antigo Testamento para tentar enganar o Mestre, muitos hoje:

“...estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!” (Mateus 22.29)
Não podemos nos enganar, existe um grande abismo entre o sentido do texto bíblico original e nosso entendimento sobre esse texto em nossos dias. Não podemos ser ignorantes e achar que não há necessidade de dedicação, pesquisa e oração para entendimento adequado da Bíblia. Não podemos nos contentar com a aceitação cega de explicações da bíblia sem investigações sérias. Hoje, somos atacados por pregações e livros que trazem argumentos provindos de idéias que nada tem a ver com o propósito do texto, mas sim da vontade do pregador de passar uma mensagem segundo seu ponto de vista (Eisegese).

Vejamos um exemplo simples. Alguém tem a intenção de pregar sobre o tema: “A união e o encorajamento entre os cristãos”. Partindo desse tema vai à bíblia buscar textos para compor seu sermão. Depois de pesquisar extrai o seguinte versículo isolado para iniciar sua exposição:

Isaías 41.6: “cada um ajuda o outro e diz a seu irmão: "Seja forte!"”

O pregador poderia seguir tranquilamente com sua exposição sem ser questionado, pois, inicialmente, o texto parece ilustrar bem o argumento do palestrante. Entretanto, um estudioso da Palavra não aceitaria este texto como adequado ao argumento da pregação, pois lembraria que o contexto desta passagem tem um propósito muito diferente do que “A união e o encorajamento entre os cristãos”. A saber:

Isaías 41.5-7: “As ilhas viram isso e temem; os confins da terra tremem. Eles se aproximam e vêm à frente; cada um ajuda o outro e diz a seu irmão: "Seja forte!" O artesão encoraja o ourives, e aquele que alisa com o martelo incentiva o que bate na bigorna. Ele diz acerca da soldagem: "Está boa". E fixa o ídolo com prego para que não tombe.”

O texto na verdade fala sobre produtores de imagens e ídolos que ajudam um aos outros a fazerem o que é abominável aos olhos do Senhor, sendo que o povo de Deus, Israel, não deveria se envolver com as atividades deles. Esse é um exemplo até engraçado, mas mostra um retrato triste do desinteresse dos cristãos pelo conhecimento bíblico sério. Esse desinteresse faz com que muitos sejam manipulados e guiados por idéias de homens sem escrúpulos que usam a bíblia em favor de suas idéias vãs, para chamar a atenção das pessoas e levar muitos a satisfazerem seus interesses. São esses que sujam a imagem dos cristãos na sociedade e desonram a Palavra de Deus frente aos que não conhecem a Jesus.

Mateus 15.7-14: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías acerca de vocês, dizendo: 'Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens. Jesus chamou para junto de si a multidão e disse: "Ouçam e entendam. O que entra pela boca não torna o homem 'impuro'; mas o que sai de sua boca, isto o torna 'impuro'. Então os discípulos se aproximaram dele e perguntaram: "Sabes que os fariseus ficaram ofendidos quando ouviram isso?" Ele respondeu: "Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada pelas raízes. Deixem-nos, eles são guias cegos Se um cego conduzir outro cego, ambos cairão num buraco".

1.2.2 O Abismo da Interpretação

LEITOR NO SÉCULO 21
TEXTO ORIGINAL
                                                                                                                
Tempo, Idioma, Cosmovisão, Literatura, Cultura, Geografia
 





Olhando a figura acima, pensemos se realmente levamos em consideração os fatores agrupados no “abismo” quando lemos a Bíblia. Todo texto bíblico foi escrito por alguém (Paulo, Salomão, Davi, João, Lucas, Isaías etc.), para ouvintes específicos, que se encontravam num contexto histórico e geográfico específico e com um objetivo específico. O conteúdo da Bíblia foi afetado e influenciado pelo meio cultural em que cada autor humano escreveu.

Algumas definições de “cultura” do dicionário Houaiss:

1-  Conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social.

2-  Forma ou etapa evolutiva das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais (de um lugar ou período específico); civilização

Sendo assim, a cultura é um conjunto de comportamentos, crenças, valores morais, espirituais e materiais característicos de uma sociedade. Mesmo dentro de um país, encontramos comportamentos diferentes nas suas diversas regiões. Nomes de comida, animais, roupas, jogos etc., recebem nomes diferentes. E não só isso, a maneira de se comunicar e as locuções usadas mudam bastante. Dentro desta idéia, algo que mais se distingue de uma cultura para outra é a maneira de viver, sendo que hábitos mudam completamente de acordo com a cosmovisão do povo.

“Dada a existência de um abismo cultural entre nossa era e os tempos bíblicos - e como o nosso objetivo na interpretação bíblica é descobrir o sentido original das Escrituras - é imperativo que nos familiarizemos com a cultura e os costumes de então.” (Roy B. Zuck)

a. O Abismo Cronológico da Bíblia: Os 5 primeiros livros de Moisés (Pentateuco) foram compostos aproximadamente 1.400 anos a.C.. Já o Apocalipse, último livro da bíblia, foi escrito por João 90 anos d.C. O livro de Jó, considerado o mais antigo da bíblia, pode ter sido escrito décadas antes do Gênesis. Sendo assim, há um imenso abismo temporal que nos separa dos autores bíblicos. Isso nos gera um grande desafio, que é voltar no tempo para, de alguma forma, nos “comunicarmos” com eles e entender o significado do que escreveram.

b. O Abismo Geográfico da Bíblia: Vivemos hoje no ocidente, na América já chamada de “o novo mundo”. Isso significa que estamos a milhares de quilômetros de distância dos locais onde a Bíblia foi composta. O contexto geográfico que vivemos determina grandemente nossa forma de enxergar o mundo, sendo que a cultura se adapta ao ambiente em que se desenvolve. Um exemplo simples está no Salmo 42, verso 1: “Como a corça anseia pelas águas correntes, minha alma anseia por ti Senhor.” Somente uma pessoa que já caminhou em um deserto poderia entender toda a força desta poesia. Até podemos compreender seu sentido, porém a intensidade da “sede” da corça pode não ser a mesma para nós e para alguém provindo dos desertos da Palestina.

c. O Abismo dos Costumes da Bíblia: É de vital importância conhecermos os costumes dos povos dos tempos bíblicos. Como disse Zuck, “quando abrimos a Bíblia é como se estivéssemos entrando num país estranho. Da mesma forma que ficamos confusos com a maneira de agir das pessoas de outros países, podemos ficar confusos com o que lemos na Bíblia. Assim, é importante sabermos o que os personagens bíblicos pensavam, em que acreditavam, o que diziam, faziam e produziam”.

“A preocupação com o contexto força-nos a um distanciamento de nossas interpretações particulares e a voltar-nos para o mundo do autor” (Alan Johnson)

          Vejamos alguns exemplos extraídos do caítulo 4 livro “A Interpretação Bíblica” de Roy B. Zuck, Editora Vida Nova:

Política
Por que Boaz foi até a porta da cidade falar com os anciãos sobre o terreno de Noemi (Rt 4.1)? A porta da cidade era o lugar oficial para a realização de negócios e para o julgamento de casos no Antigo Testamento. (Dt 21.18-21; 22.13-15; Js 20,4; Jó 29.7)
Religião
Qual a razão de Deus ter lançado as 10 pragas sobre o Egito? Por que ele enviou justamente aquelas pragas em vez de outras? Com as pragas Deus estava atacando e expondo a incapacidade e falsidade dos deuses Egípcios relacionados a cada uma delas. Por exemplo, acreditava-se que o rio Nilo era protegido por vários deuses, porém, quando este virou sangue, os deuses foram julgados incapazes. Quando o gado morreu, a deusa Hátor, que tinha cabeça de vaca e o deus Ápis, o deus-touro, foram julgados falsos. (Êxodo capítulos 8 à 11)
Leis
Em Colossenses 1.15, a expressão “o primogênito de toda a criação” significa que Cristo não é eterno, mas que foi criado? Não, significa que ele é o Herdeiro de toda a criação (Hb 1.2), assim como era lei que o primogênito tivesse um lugar de honra e detivesse direitos especiais. A palavra para primogênito é prototokos e não pode ser usado para ser criado, no caso, para passar essa idéia deveria usar protoktisis.
Agricultura
Por que Jesus amaldiçoou a figueira se nem era época de figos? (Mc 11.12-14) Em Israel, as figueiras produziam pequenos botões em março e grandes folhas em abril. Esses botões eram frutos comestíveis. Jesus amaldiçoou a figueira na época da Páscoa (abril). Como a planta não apresentava botões, não daria frutos naquele ano. A maldição que Jesus lançou na figueira representava a falta de vitalidade espiritual de Israel (falta de botões), a despeito de sua aparente religiosidade (folhas verdes).
Arquitetura
Como Raabe poderia ter uma casa em cima de uma muralha (Js 2.15)? Jericó tinha muralhas duplas e o intervalo entre elas era cheio de terra, de forma que se poderia construir casas ali.
Vida Doméstica
Por que em Lucas 9.59, o homem disse que queria enterrar o pai antes de seguir a Jesus? Ele não quis dizer que o pai havia acabado de morrer, mas sim que se sentia obrigado a esperar o pai morrer, mesmo que levasse vários anos, provavelmente para receber a herança. O que seria uma relutância condenada por Jesus.
Geografia
Por que a carta para a igreja de Laodicéia, em Apocalipse 3.16, dizia que os membros daquela igreja eram “mornos”, nem “quentes”, nem “frios”? Essa afirmação reflete o fato de que aquela congregação local era como a água da cidade, em termos espirituais. A água de Laodicéia percorria dutos de 10 km de Hierápolis à Laodicéia, saído quente das termas de Hierápolis, mas, quando chegava a Laodicéia, já estava morna.
Organização Militar
Por que Paulo afirmou em 2Coríntios 2.14, que Deus “em Cristo sempre nos conduz em triunfo...”? No império Romano, quando um general retornava vitorioso de uma batalha, marchava a frente de seus soldados pelas ruas de sua cidade natal, com os prisioneiros atrás. De forma semelhante somos conduzidos por Jesus pelo fato de estarmos “em Cristo”. Essa idéia ocorre em Colossenses 2.15, quando Paulo apresenta Cristo expondo publicamente os inimigos ao desprezo, tendo triunfado sobre eles na cruz.
Estrutura Social
Por que nos tempos bíblicos as pessoas jogavam pó sobre as cabeças (Jó 2.12; Lm 2.10; Ez 27.30; Ap 18.19)? Elas demonstravam assim o enorme pesar que sentiam, era como se estivessem em uma sepultura, debaixo da terra, mostrando sua fraqueza e humilhação.

d. O Abismo dos Idiomas Bíblicos: Este talvez seja um dos principais motivos de dificuldade na interpretação bíblica atual. A bíblia foi escrita primordialmente em Hebraico e Grego, com alguns trechos em Aramaico. Essas línguas são extremamente distantes dos idiomas modernos e de nossa forma de falar e escrever. Os manuscritos originais do Antigo testamento foram escritos em hebraico somente com consoantes, sendo que ganharam vogais somente 900 d.C. Lendo somente consoantes um conjunto de letras poderia significar várias palavras. O exemplo usado por Zuck, representando em português o problema, é a sequencia de letras TCH. Podemos ler “TOCHA”, “TACHO”, “TACHA”. Isso representa um desafio aos intérpretes dos textos originais, pois uma frase poderia variar de significado de acordo com o contexto. Outro grande desafio no trabalho de interpretação é a análise gramatical.

Nos tempos antigos as palavras tinham significados diversos e muito distintos do que entendemos hoje, além de funções e relações muito diferentes. Hoje em dia temos várias versões diferentes em português. Com a descoberta de manuscritos antigos e de estudos, as versões vão sofrendo modificações. A principal versão em português, feita por João Ferreira de Almeida, já sofreu inúmeras alterações desde a sua primeira tradução (Corrigida, Atualizada, Bíblia Almeida Séc. 21, etc.) e muitas outras versões já surgiram (NVI, Bíblia de Jerusalém, Bíblia Viva, Bíblia na Linguagem de Hoje etc.). Fazer uma interpretação baseada apenas na tradução da Bíblia em português, sem nenhum outro critério de investigação, poderá resultar em uma grande chance de erro. Para transpormos o abismo do idioma, precisamos considerar o significado que as palavras tinham no tempo do autor, pois elas mudam de significado com o passar do tempo.

1.3 Nem Tudo é Alegoria

O que facilita uma interpretação bíblica livre da Eisegese, ou seja, da atribuição de significado pela lente do leitor, em vez da consideração da idéia que o texto quer passar, é a busca pela interpretação inicial mais literal possível, levando-se em consideração os “abismos” já mencionados. O problema é que a mentalidade brasileira, influenciada pela cultura grega, tem uma facilidade imensa para a alegorização excessiva dos textos bíblicos. Quem nunca ouviu a frase: “a bíblia tem várias interpretações, que podem ser verdade dependendo da pessoa que lê!” Isso parece super espiritual, porém é um erro gravíssimo. Com certeza existem algumas passagens bíblicas que podem ter mais de uma interpretação plausível, porém, a grande maioria dos textos não tem mais de uma possibilidade de interpretação.

A Bíblia é um livro rico em gêneros literários. Temos lei (Pentateuco), históricos (Juízes, Samuel, Reis etc.), narrativas, poesias (Salmos, Cantares, Lamentações), provérbios, profecias (Isaías, Jeremias etc.), evangelhos (Mateus, Lucas etc.), cartas (Romanos, Hebreus etc.) e apocalipse. Dentro de cada estilo, temos figuras de linguagens e textos literais, com idéias diretas. E isso precisa ser observado antes de fazer uma interpretação, pois nem tudo é figura de linguagem. Se não formos cuidadosos e analisarmos como figuras de linguagem frases que não são figuras, podemos cair no erro da alegorização e espiritualização demasiada dos textos, sem a compreensão dos contextos gerais e das idéias fundamentais das passagens. Para evitarmos este problema, vale conhecermos melhor sobre as figuras de linguagem usadas na Bíblia.

1.3.1 As Figuras de Linguagem

A figura de linguagem é uma forma de expressão em que as palavras usadas comunicam um sentido não literal. É uma representação legítima que pretende comunicar mais clara e graficamente uma idéia literal. As figuras dão vida a uma passagem. A Bíblia contém figuras de linguagem para ajudar a expressar determinadas idéias, mas isso não quer dizer que a Bíblia só é feita de figuras. Jesus usou várias figuras de linguagem, como veremos, para encorajar a reflexão e ajudar a tornar idéias abstratas aos ouvintes mais claras e tangíveis, porém, a maioria de seus mandamentos foram expressos de forma clara e direta.

>> A seguir veremos um quadro com algumas figuras de linguagem usadas na Bíblia:

1. Metáfora
É uma comparação em que um elemento é, imita ou representa outro (sendo que os dois são essencialmente diferentes). A comparação está implícita, sendo caracterizada pelos verbos “ser” e “estar”.
Isaías 40.6; João 15.1; Mateus 5.13; João 10.9; João 14.5; Jeremias 50.6; Gênesis 49.9.
2. Sinédoque
É tomar parte pelo todo ou o todo pela parte, o plural pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice-versa. Ela trata mais de idéias e conceitos.
Salmo 16.9; Atos 24.5; Gênesis 6.12; Romanos 1.16.
3. Metonímia
É o emprego de um nome por outro com o qual tem relação. É empregar a causa pelo efeito, ou o sinal ou símbolo pela realidade que indica o símbolo.
Lucas 16.29; João 13.8; 1João 1.7; 1Coríntios 10.21; Hebreus 13.4.
4. Prosopopéia
É a personificação das coisas inanimadas, atribuindo-lhes os feitos e ações de pessoas.
Isaías 55.12; Salmo 85.10-11
5. Ironia
É a expressão do contrário do que se quer dizer, porém sempre de tal modo que se faz ressaltar o sentido verdadeiro.
1Reis 18.27; Jó 12.2
6. Hipérbole
É um exagero para dar ênfase, representando uma coisa com muito maior ou menor grau do que em realidade é, para apresentá-la viva à imaginação
Números 13.33; Deuteronômio 1.28; João 21.25; Mateus 5.29,30
7. Alegoria
É uma ficção em que se admite um sentido literal, exigindo, todavia, uma interpretação figurada. São várias metáforas unidas.
João 6.51-65; Salmo 80.8-13
8. Fábula
Uma alegoria histórica.
2Reis 14.9
9. Enigma
Um tipo de alegoria, porém sua solução é difícil e abstrata.
Juízes 14.14
10. Tipo
Uma classe de metáfora que não consiste meramente em palavras, mas em fatos, pessoas ou objetos que designam fatos semelhantes, pessoas ou objetos no porvir. É prefigurativo.
João 3.14; Mateus 12.40
11. Símbolo
É uma espécie de tipo pelo qual se representa alguma coisa ou algum fato por meio de outra coisa ou fato similar que se considera a propósito para servir de semelhança ou representação. É ilustrativo.
Batismo; Ceia; Sacrifício; 2Reis 13.14-19
12. Parábola
É uma espécie de alegoria apresentada sob forma de uma narração, relatando fatos naturais ou acontecimentos possíveis, sempre com o objetivo de declarar ou ilustrar uma ou várias verdades importantes. É um símile ampliado.
Mateus 13.3-8; Lucas 18.10-14; João 15
13. Símile
É uma comparação expressa pelas palavras semelhante ou como. A ênfase recai sobre algum ponto de similaridade entre duas idéias, grupos, ações etc.
1Pedro 1.24; Salmo 1.3,4
14. Apóstrofe
É uma figura usada pelo orador no discurso. Consiste em interrompe-lo subitamente, para dirigir a palavra, ou invocar alguma pessoa ou coisa presente, ausente, real ou imaginária.
Jeremias 47.6; Salmo 114.5-8; Isaías 14.9-32; Deuteronômio 32.1
15. Antítese
Inclusão, na mesma frase, de duas palavras, ou dois pensamentos que fazem contraste um com o outro
Mateus 7.13-14; Mateus 7.17-18
16. Provérbio
É um dito comum, popular. Os provérbios do AT estão redigidos em maior parte de forma poética, consistentes em dois paralelismos, que geralmente são sinônimos, antitéticos ou simétricos.
Lucas 4.23; Marcos 6.4; 2Pedro 2.22; Livro de Provérbios
17. Paradoxo
Vem de para (contra) + doxa (opinião). Uma declaração oposta à opinião comum, que parece absurda, porém, quando estudada, torna-se correta e fundamentada.
Mateus 23.24; Mateus 19.24; 2Coríntios 12.10; Marcos 8.35
18.Personificação
É atribuir características humanas a coisas, idéias ou animais.
Gênesis 4.10; Números 22.30
19. Zoomorfismo
É atribuir características animais a homens ou a Deus.
Salmo 91.4
20. Antropopatismo
É atribuir sentimentos humanos a Deus.
Gênesis 6.6
21. Antropomorfismo
É atribuir características humanas a Deus.
Salmo 8.3; 2Crônicas 16.9
22. Eufemismo
É suavizar a expressão de uma idéia substituindo a palavra ou expressão própria por outra mais agradável, mais polida.
Atos 7.60; Gênesis 4.1; 1Tessalonicenses 4.13-15



2. Guia Prático de Exegese Básica

Nossa intenção nesta seção do estudo é elaborar um manual básico de exegese bíblica, levando em consideração as ferramentas que a hermenêutica nos fornece. Para os teólogos mais eruditos, a boa exegese sempre parte da leitura bíblica nas línguas originais (hebraico e grego). Entretanto, para este curso básico, tentaremos aproveitar ao máximo as ferramentas que supram a falta de maior conhecimento das línguas originais. É possível fazer uma interpretação sem o estudo prévio do grego e hebraico bíblico. Tomaremos como base alguns dos passos oferecidos no livro “Manual de Exegese Bíblica” de Douglas Stuart e Gordon D. Fee, Ed. Vida Nova.

2.1 Introdução

“A chave para a boa exegese é a habilidade de fazer perguntas certas para o texto a fim de captar o significado pretendido pelo autor.” (Gordon D. Fee)
         
          Existem duas categorias básicas de perguntas que devemos fazer para o texto: “O que foi que o autor quis dizer no texto?” e “Por que o autor disse isso?”
         
          Pensando primeiro no “por que”, temos que entender o contexto do que foi escrito. Normalmente o contexto depende totalmente de questões históricas, sociológicas, culturais, a ocasião específica do documento e questões literárias (o motivo de algo ter sido dito em determinado ponto na argumentação ou narrativa).

          Pensando especificamente no “que o autor quis dizer”, entramos em pontos como a determinação das palavras na língua original do autor, o significado de suas palavras, o relacionamento gramatical entre suas palavras e o relacionamento das palavras do autor com o contexto histórico-cultural (“por que”) dos seus leitores.

2.2 A Importância da Revelação de Deus
Revelação é o processo espiritual pelo qual Deus desvenda aos homens o seu caráter e o seu plano eterno. Além dos aspectos científicos da interpretação bíblica, verdadeiros cristãos devem levar em consideração a revelação de Deus à medida que for desenvolvendo sua exegese. Um grande privilégio que temos em nossas vidas é a existência das Escrituras para que conheçamos a Deus. A forma mais preciosa da auto-revelação de Deus é a Palavra escrita, que exprime para nós quem Deus é. Há muitas afirmações na bíblia que declaram que todas as palavras das Escrituras são palavras de Deus, mesmo que tenham sido escritas por homens.
No Novo Testamento, várias passagens indicam que todos os escritos do Antigo Testamento são vistos como a Palavra de Deus. O texto de 2Timóteo 3.16 diz: “toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para correção e para instrução na justiça”. A palavra grega referente à expressão “inspirada por Deus” (theopneustos) deve ser entendida como uma metáfora da palavra falada de Deus transformada em escritura, como se, ao ler, Deus fosse falando diretamente conosco.
Uma indicação da qualidade dos escritos do AT como palavra de Deus encontra-se em 2Pedro 1.21, onde, no verso 19, o autor diz que nenhuma dessas profecias veio “por vontade de Deus” e, antes, “homens falaram da parte de Deus movido pelo Espírito Santo”. Pedro não estava negando a personalidade humana da composição das escrituras, antes queria dizer que a fonte definitiva de toda profecia nunca foi a decisão de um homem, mas a ação do espírito no profeta. Os escritos do NT também são chamados de escrituras juntamente aos do AT, como observamos em 2Pedro 3.16, onde Pedro mostra que as cartas de Paulo também são classificadas como escrituras divinamente reconhecidas. Também, em I Timóteo 5.18, Paulo cita palavras de Jesus e as chama escritura.
2.3 Passos Básicos para Uma Interpretação Bíblica Coerente

Passo 1. Estudo do Contexto Histórico Geral

  1. Faça algumas perguntas-chave: Quem é o autor? Quem são os destinatários? Qual é o relacionamento entre ambos? Onde os destinatários vivem? Quais são suas circunstâncias no momento? Que situação histórica levou à composição do documento? Qual é o propósito do autor? Qual é o tema geral ou preocupação do autor?

  1. Pesquise em materiais secundários: Manuais bíblicos, Bíblias de estudo, Dicionários Bíblicos, Livros de Arqueologia Bíblica, Introduções ao Antigo Testamento, Introduções ao Novo Testamento, Comentários bíblicos, Léxicos etc. são fontes indispensáveis de pesquisa. Pergunte aos professores sobre indicação de bons livros e editoras.

  1. Leia o livro todo de uma só vez tentando responder às perguntas-chave e fazendo um esboço. Não há o que substitua esse passo, pois não há exegese de um versículo isolado do contexto geral. Você precisa ter uma noção do todo antes de analisar uma parte.

-         Durante sua leitura procure descobrir tudo o que puder. Faça perguntas ao texto e procure notar sempre questões, palavras ou idéias que são repetidas frequentemente.

-         Se possível faça um esboço anotado de todo o livro ou capítulo para que se sinta à vontade com o todo da passagem analisada.


 

Exemplo de Contextualização Básica: Livro de Jeremias

Autor: Profeta Jeremias, com ajuda de seu secretário, Baruque. Jeremias era um sacerdote de Anatote a quem Deus incumbiu a função profética e o impediu de casar e ter filhos, uma vez que a mensagem de Jeremias era do juízo de Deus contra Judá, que aniquilaria a geração seguinte onde se encontrariam os filhos de Jeremias. Por ser um profeta com uma mensagem controversa de juízo divino e domínio dos inimigos sobre Judá, Jeremias era solitário, porém tinha um secretário, chamado Baruque, que anotava suas palavras.

Data: O ministério profético de Jeremias começou em 626 a.C. e terminou em algum momento após 586 a.C. Seu ministério foi antecedido por Sofonias. Habacuque e Obadias eram da mesma época, sendo que Ezequiel viveu nos últimos dias do ministério de Jeremias, já exilado na Babilônia.

Conteúdo do livro: Relato do ministério profético de Jeremias, cuja descrição pessoal é a mais detalhada dos profetas do AT. Jeremias começou a profetizar em Judá no reinado de Josias (640-609 a.C.) e continuou nos reinados de Jeoacaz (609), Jeoaquim (609-598), Joaquim (598-597) e Zedequias (597-586). Foi um período duro e cheio de pressões para a terra de Judá. Os países menores da Ásia sempre sofreram pelas lutas de poder entre gigantes como Egito, Assíria e Babilônia, sendo que Jeremias viveu em um período desses, quando a Babilônia era o grande dominador. Ao mesmo tempo, o povo de Judá vivia no ápice de uma história de pecado e abandono da Lei do Senhor. Jeremias foi chamado para a tarefa ingrata de proclamar destruição do Reino de Judá, totalmente corrompido, logo após o reinado longo e pecaminoso do rei Manassés. Ele combatia duramente os falsos profetas que falavam de vitória de Judá sobre a Babilônia, obscurecidos pelo orgulho. Jeremias dizia que o povo deveria se render para sofrer menos.


Exemplo de Esboço: Jeremias 28.1-17

1.  O Debate profético (Jr 28.1-11)

          1.1 Hananias - profeta de Gibeão (Js 9.1-15)

          1.2 Profecia de Hananias:
            1.2.1 Fórmula profética - autoridade (28.2)
            1.2.2 Quebra do domínio (jugo) da Babilônia (28.2,4)
            1.2.3 Retorno dos utensílios do Templo (28.3)
            1.2.4 Retorno do rei legítimo (Joaquim) e dos primeiros exilados (597 a.C.) (28.4)

          1.3 Réplica de Jeremias (28.6-9)
            1.3.1 “Amém” - Resposta positiva ou irônica? (28.6)
            1.3.2 Verdadeiro profeta: profetiza ruína - (28.7s.)
            1.3.3 Quem profetiza “Shalom”: sob suspeita (28.9)

          1.4 Tréplica de Hananias (28.10s.)
            1.4.1 Ação simbólica: quebra do jugo (28.10)
            1.4.2 Profetiza rebelião contra Bab. (28.11) [Obs.: 70 anos de Jr em 25.11; 29.10]

2. A Resposta Divina (28. 12-17)

          2.1 Réplica de Jr:
            2.1.1 Bab.: Jugo de ferro x jugo de madeira (28.13)
            2.1.2 Bab. = instrumento de disciplina (28.14)
            2.1.3 Hananias: “não enviado”, falso prof. (28.15)
            2.1.4 Hananias: castigo de Deus “enviado” à morte (28.16-17)



Passo 2. Confirme os limites da passagem.

  1. Verifique se você escolheu para a exegese uma unidade genuína e completa. Na maioria das bíblias os limites das passagens são delimitados por títulos dentro dos capítulos, mas não se engane, pois algumas passagens se estendem por mais de um capítulo, ou começam na metade de um, terminando na metade do próximo. Mesmo que você faça a exegese de uma só frase, ela deve ter um lugar no seu próprio parágrafo.

  1. Domine completamente a passagem em estudo.

-         Faça uma lista provisória de todas as dificuldades de interpretação e dúvidas que você tenha, tentando sempre relacionar com o que foi escrito anteriormente ou posteriormente dentro do livro todo que você já leu.

-         Leia toda a passagem em várias traduções e anote principais diferenças (ex. Almeida Corrigida, Almeida Atualizada, Almeida Séc. 21, NVI, Bíblia na Linguagem de Hoje etc.) Veja quais diferenças são apenas sinônimos ou questões de gosto do tradutor e quais diferenças realmente mudam o sentido da passagem

  1. Analise a estrutura das frases e as relações sintáticas. É fundamental que desde o início da exegese você tenha uma boa noção do fluxo do argumento (ou narrativa) e que reconheça as estruturas básicas e a sintaxe de cada frase. Para fazer isso bem, não existe nada melhor do que escrever toda a passagem de forma estruturada.
-         Faça um fluxograma das frases com anotações sobre o fluxo do argumento. Também faça um diagrama de frases para facilitar o entendimento das complexidades gramaticais. Este é o esboço exegético.

 

EXEMPLO:
Colossenses 3: 1 Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. 2 Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. 3  Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. 4 Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Fluxograma de Frases da Passagem
Fluxo do Argumento
Portanto,
Ligação com passagem anterior
...já que vocês ressuscitaram com Cristo,
Base das Exortações
...procurem as coisas que são do alto,
Exortação 1
...onde Cristo está assentado à direita de Deus.
Expansão da Exortação 1
Mantenham o pensamento nas coisas do alto,
Exortação 2
...e não nas coisas terrenas.
Contraste da Exortação 2
Pois vocês morreram,
Razão 1 das Exortações
...e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus.
Especificação da Razão 1
Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado,
Base da Conclusão
...então vocês também serão manifestados com ele em glória.
Conclusão


Passo 3. Determine a idéia central da passagem

a.  O que é a Idéia Central? Pensamento ou conceito organizador da passagem, que não necessariamente é o tema da passagem. Por exemplo: Em Mt 7.15-23 o tema da passagem é “falsos mestres, frutos maus-bons, hipocrisia” e a Idéia Central é “características do falso mestre”. Outro exemplo: em Gn 3 o tema do capítulo é “processo da tentação, astúcia do mal, fraqueza do ser humano” e a Idéia Central é “alienação de Deus”. A idéia central normalmente é apresentada como uma sentença representando a idéia básica do texto.

 

EXEMPLO:
Mateus 28: 18 Então, Jesus aproximou-se deles e disse: "Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. 19 Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos".

-         Possibilidade de Idéia Central do texto: A Missão, segundo Jesus Cristo, tem como base sua autoridade absoluta, consiste em reproduzir o que somos: discípulos; não tem prazo de validade antes da consumação; tem como garantia a presença do comissionador.

-         Esboço exegético: Afirmação Básica: Foi-me dada toda autoridade... Exortação: Vão e façam discípulos... Consequência: Eu estou com vocês...
Passo 4. Considere os contextos bíblicos e teológicos mais amplos

  1. Reúna todas as suas descobertas e ligue com o contexto mais amplo. Comece a focalizar na ligação, ou “mensagem”, de sua passagem, você logo desejará encaixar tudo isso nos contextos bíblicos e teológicos mais amplos.

-         Comece a perguntar: Como a passagem funciona dogmaticamente na seção, no livro, na divisão, no Testamento, na Bíblia? Como ela e seus elementos se comparam com outras passagens que tratam dos mesmos tipos de questões? Que outros elementos nas escrituras a ajudam a se tornar compreensível? O que se perderia, ou como a mensagem do contexto (capítulo, livro, Bíblia) seria incompleta se essa passagem não existisse? O que a passagem contém que contribui para a solução de questões doutrinárias, ou que fortalece soluções oferecidas em outros lugares da Bíblia?

  1. Investigue o que outros disseram sobre a passagem. Embora você tenha consultado comentários, gramáticas e outros tipos de livros no processo de completar os passos anteriores, agora deve trabalhar em uma investigação mais sistemática da literatura secundária que possa se aplicar à sua exegese. Para que a exegese seja um trabalho seu e não uma compilação mecânica das perspectivas de outros, só tome esse passo mais aprofundadamente no final do trabalho.


 


Bibliografia:

Barker, Kenneth – Bíblia de Estudo NVI – Editora Vida

Fee, Gordon D.; Stuart, Douglas – Manual de Exegese Bíblica – Ed Vida Nova

Fee, Gordon D.; Stuart, Douglas – Entende o Que Lês? – Ed Vida Nova

Zuck, Roy B. - A Interpretação Bíblica – Ed. Vida Nova

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