sexta-feira, 22 de março de 2013

Aula 3


  
História da Igreja
   
1.    Introdução
A História pode ser definida como um acontecimento, um evento real, que acontece no tempo e espaço como resultado da ação humana. Este acontecimento só pode ser conhecido plenamente por Deus. Já a Informação a respeito de um acontecimento é um segundo significado da palavra História. A informação sobre o passado pode estar sob a forma de um documento ou objeto relacionado a um acontecimento e o historiador tem que levar em conta as ações de Deus no tempo e espaço para entender a História. Assim, a História pode ser definida como um relato interpretado do passado humano socialmente importante, baseado em dados organizados e reunidos pelo método científico a partir de fontes arqueológicas, literárias ou vivas. O historiador da Igreja deve ser tão imparcial na coleta de dados quanto o historiador secular, porém tratando o material com sua estrutura própria de interpretação.
A História da Igreja é o relato interpretado da origem, progresso e impacto do cristianismo sobre a sociedade humana, baseado em dados organizados e reunidos pelo método científico a partir de fontes arqueológicas, documentais ou vivas. É a história interpretada e organizada da redenção do homem e da terra.
Para produzir a História da Igreja, alguns elementos são importantes:
  • Elemento Científico: o historiador usa o trabalho científico do arqueólogo (que revela dados do passado do que escavou), usa técnicas de critica literária (para avaliar os documentos da história da igreja) e privilegia as fontes originais levantadas por arqueólogos, mostradas em documentos ou contadas por testemunhas oculares.
  • Elemento Filosófico: os historiadores se dividem em escolas de história e filosofias da história, conforme procuram o significado na história.
·         Elemento Artístico: o historiador deve procurar apresentação dos fatos históricos de maneira mais agradável possível ao leitor.
A História da Igreja mostra o Espírito de Deus em ação através da Igreja durante os séculos de sua existência e é também valiosa para explicação do presente através do conhecimento das raízes do passado (ver no Anexo 1 a cronologia da História da Igreja). As práticas litúrgicas diferentes entre as igrejas tornam-se mais palpáveis à luz da história do passado. Os problemas atuais da Igreja são geralmente iluminados pelo estudo do passado, pois existem padrões e paralelos na história. A reparação ou a prevenção de erros e costumes equívocos é outro valor do estudo do passado da Igreja. O presente é o produto do passado e a semente do futuro. O pouco conhecimento da Bíblia e da História da Igreja é a razão principal porque muitos enveredaram por falsas teologias e práticas erradas. A História da Igreja oferece edificação, inspiração e entusiasmo, estimulando a vida espiritual elevada. A história do homem não pode ser divorciada da história de sua vida religiosa, sendo a história da civilização ocidental incompleta sem a compreensão do papel da religião cristã no desenvolvimento desta civilização.
O objetivo deste módulo é compreender a igreja cristã atual através de um estudo cronológico, ressaltando os pontos que influenciaram as diversas posições teológicas e doutrinas na igreja atual. Para melhor compreensão, dividimos a História da Igreja em períodos cronológicos que nos auxiliam a guardar os fatos essenciais. São eles:
·         Igreja Antiga: Nascimento de Cristo até 476 d.C.
·         Igreja Medieval: de 476 d.C a 1453 d.C.
·         Igreja Moderna: 1453 d.C a 1789 d.C
·         Igreja Contemporânea: Revolução Francesa (1789) até os dias atuais
A Linha do Tempo abaixo fornece uma visão geral da História da Igreja e os principais acontecimentos e mudanças econômicas de cada período.

A compreensão sobre a História da Igreja pode nos ajudar a entender a riqueza do cristianismo e compreender a sua expansão desde Pentecostes até os dias de hoje. Reforçamos que consultem a biografia utilizada e citada ao final desta apostila, que muito os auxiliará a aprofundar nos temas descritos.

2.    A Igreja Antiga: Nascimento de Cristo até 476 d.C.

2.1 A Plenitude do Tempo
Em Gálatas 4.4, Paulo esclarece que Jesus veio na plenitude do tempo para resgatar os que estavam sob a lei: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”. A referência “plenitude” tem o sentido de tempo completo, com o mundo preparado para receber a mensagem de Jesus. Fatores externos propiciaram que o evangelho se propagasse rápidamente:
  • Política Romana: por volta de 100 a.C Augusto unificou a Europa, Norte da Africa e Oriente Médio sob o domínio romano. As estradas romanas espalhadas em todo império facilitaram o tráfego das informações pelo mundo da época. A instituição de uma “Paz Romana” (Pax Romana) forçada foi garantida pelas legiões. Os judeus foram mais tolerados que os cristãos, pois apesar de monoteístas, não tinham caráter expansionista, ao contrário dos cristãos.
  • Contribuição Intelectual Grega: Alexandre (séc. XV a.C) implantou a cultura helenísta, com criação de centros para irradiação da cultura grega (bibliotecas grandes, casamento interacial, etc.) e instituiu uma linguagem única, o grego Koiné (popular).
  • Contribuição Judaica: os judeus tinham um monoteísmo ético e esperança messiânica, que facilitou a compreensão da figura de Jesus.
Estes fatores foram sendo moldados no período chamado de “interbíblico” (entre a Bíblia ou entre os dois testamentos), com duração aproximada de 400 anos, que se inicia entre o livro do profeta Malaquias (com a promessa do precursor do Messias em Ml 4.4-6 e 3.1 até o nascimento de Cristo (com a citação em Mateus 3.1 sobre o cumprimento da profecia de Malaquias), com períodos sequenciais Babilônico, Persa, Grego, Macabeu e Romano. Nestes anos cessou a revelação bíblica, com nenhum profeta levantando-se em nome de Deus.
A tribo de Judá sobreviveu a todos estes períodos, pois no cativeiro babilônico puderam continuar a adorar a Deus nas sinagogas e cessar a tendência a adoração de ídolos apresentada pelos conquistadores posteriores. No período babilônico continuaram com alguns serviços religiosos, tinham sacerdotes, jejuavam, cultuavam a Deus, liam o Antigo Testamento e oravam na sinagoga. Ocupavam-se da lavoura e pecuária, tornando-os bons negociantes, tanto que, quando os persas deram liberdade aos judeus permitindo-os voltarem a sua terra, muitos permaneceram na Babilônia, Egito, etc. São chamados judeus da diáspora (ou dispersão). A primeira data para o cativeiro babilônico pode ter sido 605 a.C e, em 536 a.C., sob a proteção de Ciro (persa) os judeus puderam voltar a Jerusalém. No chamado “Período Grego” temos o tempo de dominação da Macedônia no mundo de então, estendendo-se desde Felipe, passando por Alexandre, que derrotou os persas e fundou Alexandria no Egito, após conquistar a Siria (Fenícia) e Jerusalém. Alexandre levou a cultura e arte gregas aos vencidos, com a adoção do grego como língua que se espalhou pelo império, de modo os povos falavam duas línguas: sua língua natal e a grega. Isto deu certa uniformidade ao mundo, facilitando o intercâmbio entre os povos e que foi positivo para a pregação do Evangelho. O governo de Ptolomeu I (uma ds divisões do império de Alexandre) encampou a Palestina e permitiu que os judeus emigrassem para o Egito com terras mais férteis. Deu um bairro aos judeus e permitiu-lhes ter um governo próprio. No período de seu filho (Ptolomeu II) apareceu a Septuaginta (tradução do Antigo Testamento do hebraico para o grego), provavelmente começada em Alexandria. Sob os persas e gregos, os judeus gozaram de certa liberdade de culto e política, dando certa consciência de soberania e resistência, demonstradas nas guerras macabéias (resistência dos judeus aos conquistadores). Porém, os romanos, que já haviam conquistado o território latino do ocidente e depois Cartago (no norte da África), sendo insaciáveis em suas conquistas, planejando a conquista da bacia mediterrânea. O poder romano em Israel, no período interbíblico que nos interessa, foi de 63 a.C a 4-6 a.C (provável ano do nascimento de Jesus). Foi desta maneira que Deus preparou o mundo para receber a Jesus Cristo na plenitude do tempo (paz romana, cultura grega, tradição religiosa da Judéia).
O Anexo 2 mostra o império romano e a predominância das línguas latim e grego e cada região.
2.2 A Igreja de Jerusalém
Na Igreja Primitiva o mundo romano era também um mundo grego, já que Roma conquistou militarmente os gregos e os gregos conquistaram intelectualmente os romanos. A migração dos judeus por todo império romano com as sinagogas passando a representar sua presença nas principais cidades, temos a mensagem do Evangelho dirigida inicialmente a Igreja de Jerusalém e esta se tornando o polo de dispersão para os judeus da diáspora (dispersão pelo império romano) após o Pentecostes.
Conforme explanado no ítem anterior, as condições ambientais favoreceram o início da igreja. A presença do termo hebraico Qahal (Deuteronômio 23.1-3 e Ne 13.1) como assembléia ou convocação com ênfase religiosa, ou seja, uma convocação feita por Deus até a Ekklesia, como assembléia do Povo convocada para decidir ou deliberar sobre algum assunto (idéia de convocação é o objetivo da Igreja de Jesus Cristo). Assim, toma corpo a definição de Igreja como Igreja Local: como a reunião de pessoas nascidas de novo, regeneradas pelo Espírito do Senhor, batizadas em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, que se reunem em determinados lugares para adorar ao Deus vivo, e promover os fins do Reino de Deus na terra (Mt 16.18).
Mas em Atos 2, temos o nascimento da Igreja no tempo e espaço, a torre de Babel invertida. A descida do Espírito Santo em Pentecostes na reunião de todos no mesmo lugar teve como características o ruído como de um vento (Espírito Santo) em At 2.2, línguas como fachos de fogo (At 2.3) e línguas estranhas (At 2.4). Conforme At 1.8 o Batismo no Espirito Santo (At 1.5) tem como foco o recebimento de poder para testemunhar sobre Jesus e não sómente falar em línguas estranhas, que é um dom. Não é tão importante conhecer tempos ou épocas quando ocorrerá a restauração, mas com o recebimento de poder do Espirito Santo devermos ser veículos para o testemunho de Jesus a todos os povos.
No início da Igreja, em Atos 2.42-47, vemos que havia uma unidade inclusive de bens e também a esperança da vinda mais imediata de Jesus. Havia também diversidade, pois judeus helenistas (gregos) que vieram de diversas partes do império romano estavam juntos com judeus da Palestina. Com esta condição, em Atos 6 vemos certo conflito quando as viúvas dos judeus gregos sentiram preteridas, o que pode ter levado a escolha de judeus da dispersão como diáconos (um deles era prosélito ou gentio convertido ao judaísmo). Esta diversidade indicava todo um contexto para que os apóstolos saíssem para o mundo para a disseminação do Evangelho.
Pouco a pouco e a partir do enfoque do parágrafo anterior, a Igreja de Jerusalém passa a ser dirigida pela família de Cristo e os discípulos vão se espalhando pelo mundo levando o Evangelho. Em Gálatas 2.9, vemos um posicionamento estratégico importante da Igreja Primitiva, estabelecendo um governo da Igreja de Jerusalém com Tiago, Pedro e João, com a missão de levar o Evangelho para os judeus circuncidados e Paulo e Barnabé com a missão de levá-lo aos gentios. A erudição (transito com gregos, romanos e judeus) e o o livre acesso de Paulo pelo império como cidadão romano facilitaram a comunicação do Evangelho fora da Palestina.
2.3 A Igreja Apostólica e Seus Lideres
Pedro
Pedro surge como o personagem principal nos primeiros quinze capítulos de Atos. Em Pentecostes, que marca o início da Igreja, prega um sermão inspirado pelo Espirito Santo, que resulta em 3000 conversões. Pedro realizou milagres, desafiou as autoridades de Jerusalém e estabeleceu os diáconos permitindo aos apóstolos a pregação da Palavra. No Concílio de Jerusalém (49 d.C) em At 15.6 faz uma defesa brilhante em favor da não distinção entre gentios e judeus, o que permitiu o envio pela Igreja Primitiva de Paulo e Barnabé a Antioquia da Siria, igreja cuja independência fora respeitada e que também serviu para receber judeus após a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Não sabemos o fim da vida de Pedro, mas a melhor evidência é que tenha sido martirizado e morto nas perseguições do então imperador Nero por volta de 68 d.C. Não sabemos com certeza como morreu Pedro, mas João 21.18-19 mostra que sua morte teria o gênero de glorificar a Deus (crucificação ?).
João
É considerado um dos principais lideres da Igreja Apostólica e esteve junto com Pedro pregando Jesus como o Messias, exercendo a supervisão geral da igreja de Samaria (At 8.14-25) e dando ênfase ao Espírito Santo. Apocalipse foi escrito provavelmente no inicio da década de 90, no exílio em Patmos durante o período do imperador romano Domiciano, registrando ali as visões proféticas sobre a segunda vinda de Cristo e o final dos tempos. Existem indícios que João tenha sido libertado do exílio entre 96 e 98 d.C, com evidências de que tenha se fixado em Éfeso, morrendo de morte natural.  Provavelmente nesta cidade treinou os pais apostólicos que seriam lideres no segundo século, como Policarpo, Pápias e Inácio. Por esta mentoria, o próprio João considerava-se presbítero (abertura de 2 e 3 João). Seu evangelho tem relação de sómente 8% com os evangelhos sinóticos de Mateus, Marcos e Lucas, sendo o restante informações exclusivas (com relevância ao ensinamento sobre divindade de Jesus (Jo 1.1-18) e o grande “EU SOU” (Jo 8.58).
Paulo
Paulo era eclético e tomava como vantagem seu conhecimento de três grandes tradições: na religião era judeu, na cultura grego e na política romano. Pode ser que seu nome tenha sido dado em homenagem a Saul, primeiro rei de Israel, também benjamita. Era fariseu da escola de Jerusalém, dirigida por Gamaliel (At 22.3), tinha familiaridade com escritores gregos (At 17.28) e uso de argumentação grega (Rm 2.1 e 3.20). Como fariseu perseguiu aos que eram “do Caminho”, mas no caminho para Damasco teve um encontro com Jesus. Paulo foi separado por Jesus como o missionário dos gentios (At 22.21).  Sua facilidade de trânsito no império e sua erudição permitiam que se expressasse com públicos distintos. Em suas viagens, Paulo visitou a Ásia Menor, Grécia, Macedônia (que abriu o evangelho ao atual continente europeu) e provavelmente chegou até a Espanha. Provavelmente foi também vítima da perseguição ordenada por Nero e decapitado em 68 d.C.
Com a morte de Pedro, Paulo e João, a liderança passou a nova geração, chamada de pais apostólicos.
2.4 Patrística: Os Pais Apostólicos, os Apologistas, os Polemistas e os Teólogos
Os pais apostólicos ocuparam o espaço deixado pelos três principais lideres Pedro, Paulo e João e alguns foram discípulos de João, conforme relatado no ítem anterior (Policarpo, Pápias e Inácio). Os pais da igreja do segundo século podem ser divididos em 3 grupos:
  • Pais Apostólicos (devocional e edificação): 95-150 d.C
  • Apologistas e Polemistas (defesa da fé e ataque ao erro): 150-300 d.C
  • Teólogos (inicio da teologia sistemática): 300-600 d.C
Estes períodos abrangem o que chamamos de Patrística ou os estudos dos lideres e teólogos cristãos do II século até o VII século.
Pais Apostólicos
Os textos deixados pelos pais apostólicos foram os primeiros escritos pós-Novo Testamento e , tais como o Didaquê (ensino dos doze apóstolos, que provavelmente não foram escritos pelos 12 apóstolos), I e II Epístola de Clemente aos Coríntios (doutrinária), as 7 epístolas de Inácio a Antioquia (doutrinária) e Epístola de Policarpo de Esmirna (doutrinária). Focalizaremos abaixo os principais:
  • Clemente de Roma (30-100 d.C): era bispo ou presbítero de Roma e lidou com problemas na cidade de Corinto como divisão e amargura (a exemplo do que acontecia quando Paulo escreveu a esta igreja 40 anos antes). Exortou aos coríntios a exercer amor, paciência, humildade e obediência à liderança da igreja. Neste último ítem alertou que os presbíteros haviam recebido a autoridade dos apóstolos e estes de Cristo. Esta carta aos coríntios é muito importante por ser o mais antigo exemplar da literatura cristã fora o Novo Testamento.
  • Inácio (I e II séc. d.C): era bispo de Antioquia da Síria. Foi preso e martirizado pelos romanos por seu testemunho cristão. Durante sua viagem a Roma para ser martirizado recebeu visitantes das igrejas pelo caminho e escreveu cartas antes de sua morte. Na carta aos romanos apelou para que não tomassem providências para evitar seu martírio, pois queria tornar-se o “pão puro de Cristo” a ser triturado pelos dentes das bestas. Nas cartas (escritas por volta de 110 d.C) Inácio alerta sobre as heresias que ameaçavam a paz e unidade das igrejas. Enfatiza a obediência ao bispo como forma de manter a unidade e evitar a heresia.
  • Policarpo (70-155 d.C): foi discípulo direto de João e bispo de Esmirna. Escreveu uma carta aos filipenses, relembrando a carta escrita por Paulo. Foi martirizado em 155 d.C, tendo sido apunhalado e queimado em uma estaca. No julgamento negou-se a falar mal do Cristo a quem tinha servido. Foi uma testemunha valiosa da vida e obra da igreja do segundo século, pois recebeu informações diretas dos apóstolos, principalmente João. Exortou a uma vida virtuosa, às boas obras e a firmeza mesmo a preço de morte. Suas 60 citações do Novo Testamento atestam profundo conhecimento das epístolas de Paulo (citou 34 vezes) e outros livros do Novo Testamento. Não estava interessado em administração da igreja e sim fortalecer a vida diária prática dos cristãos.
Apologistas
A apologia defende um ponto de vista, no caso do cristianismo a fé no Senhor Jesus. Com a igreja entrando no segundo século, houve necessidade de dirimir os erros na interpretação das Escrituras. Estes erro incluiam em misturar o cristianismo com a filosofia grega, judaísmo e crenças orientais que atacavam as doutrinas cristãs sobre a pessoa de Jesus e suas obras. As críticas surgiam porque os cristãos recusavam-se a adorar o imperador e os deuses greco-romanos, acusações sobre a ceia do Senhor e a falta de entendimento do amor da igreja primitiva.
As principais heresias dentro e fora da igreja foram:
  • Ebionitas (70-135 d.C): não sabemos a etimologia da palavra nem o fundador desta heresia. Seus membros eram judaizantes e pregavam que Jesus era um homem comum adotado por Deus no batismo (adocionismo). Ensinavam que Jesus era o sucessor profético de Moisés e reformador do judaísmo e da lei. Seguiam a lei de Moisés.
  • Gnósticos: foi a maior das ameaças filosóficas, chegando a sua maior influência ao redor do ano 150. Paulo parece ter enfrentado uma forma incipiente de gnosticismo em sua carta aos colossenses. A tradição cristã associou a origem do gnosticismo a Simão Mago, a quem Pedro teve que repreender duramente (At 8.9). Tinham um conceito dualista da realidade, concebendo um mundo material mau e outro imaterial, bom. Para os gnósticos era inconcebível que um Deus bondoso pudesse ter criado o mundo material maligno. Afirmavam que uma “fagulha divina” ou emanação de Deus havia criado o universo físico. Diziam que Jesus não tinha um corpo físico e sim aparentemente físico. Para os gnósticos, Deus concedeu sómente a uma pequena elite este conhecimento (gnose). O gnosticismo não considerava a ressurreição do corpo, pois sómente a alma era boa e a salvação sómente espiritual.
  • Marcionismo (144 d.C): para Marcião existiam dois deuses: o Criador (Antigo Testamento, que era mau) e o Redentor (Novo Testamento, que era bom). Com esta teoria, Marcião desenvolveu seu próprio cânon das Escrituras e, por ser rico e influente, estabeleceu uma igreja rival em Roma, que durou por vários séculos.
Os apologistas dividiam-se em orientais e ocidentais:
Apologistas Orientais (comparação com religiões pagãs para mostrar a superioridade)
·         Justino Mártir (100-165 d.C): foi o principal apologista do séc. II. Era filho de pais pagãos e um filósofo em busca de uma filosofia que o satisfizesse. Não encontrou. Um dia um senhor o encaminhou a Bíblia como a verdadeira filosofia e ele encontrou a paz que buscava aos 33 anos. Abriu uma escola cristã em Roma, mas seu ministério foi itinerante buscando apresentar a posição filosófica superior do cristianismo. Condenou como heresia o conceito de Marcião sobre Deus e defendeu o Antigo Testamento como Palavra de Deus e o Novo Testamento como autoridade íntegra. Escreveu duas apologias ao governo romano com uma brilhante defesa do cristianismo como superior a qualquer religião ou filosofia pagãs. Defendeu junto aos judeus que Jesus era o Messias profetizado no Antigo Testamento. Em uma viagem a Roma em 165 d.C justino foi preso e se recusou a negar sua fé, sendo decapitado  com outros seis companheiros.
  • Atenágoras: foi professor em Atenas e se converteu pela leitura da Bíblia. Em 177 escreveu a obra “Súplica pelos Cristãos” refutando as acusações de ateísmo feitas contra os cristãos e demonstra que os deuses pagãos eram criação humana e culpados das imoralidades de seus seguidores.
Apologistas Orientais (maior ênfase à peculiaridade e finalidade do cristianismo)
·         Tertuliano (160 a 230 d.C): foi o principal apologista da Igreja Ocidental. Era advogado e conhecia o grego e o latim clássicos. No Apologeticum endereçado ao governador romano de sua província nega as acusações feitas aos cristãos, alegando serem eles leais cidadãos do império. Argumentava que a perseguição era um fracasso, pois os cristãos aumentavam quanto mais lhes perseguiam.
Polemistas
Os Polemistas não só defendiam a fé como os Apologistas, mas principalmente atacavam e acusavam as heresias cristãs, principalmente contra o gnosticismo. Os apologistas preocupavam-se com a segurança da Igreja, especialmente com a perseguição, com a paz interna e a pureza. Baseavam-se mais nas profecias do Antigo Testamento e utilizavam o Novo Testamento como fonte da doutrina cristã. Os principais polemistas foram:
  • Irineu de Lyon (130 a 200 d.C): nascido em Esmirna, sobreu influência do bispo Policarpo de Esmirna. Sua obra (Adversus Haereses – escrita entre 182 e 188) desenvolveu-se na literatura polêmica contra o gnosticismo pelo uso das Escrituras e pelo desenvolvimento de um corpo de tradição. Utilizou em seus argumentos os dois Testamentos, aludindo a quase todos os livros do Novo Testamento, exceto quatro. Considerava Cristo como o centro da Teologia e a base para continuidade entre a criação e a redenção. Foi martirizado por volta de 202 d.C.
  • Escola Alexandrina: na segunda metade do século II abriu-se uma escola em Alexandria para instruir os convertidos do paganismo ao cristianismo, cujo primeiro diretor foi Panteno. Dois nomes sobressaem em Alexandria e foram os sucessores de Panteno na escola de teologia cristã:
    • Clemente de Alexandria (155-225 d.C): dirigiu a escola de Alexandria entre 190 e 202 d.C. Aproximou a filosofia grega do cristianismo para que se compreendesse que o cristianismo era superior e definitivo, retratado em sua obra “Exortação aos Gentios”. Cristo é apresentado como verdadeiro mestre que deixou regras para a vida cristã.
    • Orígenes (185 a 264 d.C): aluno de Clemente foi seu sucessor na escola de Alexandria com apenas 18 anos, por sua competência. Ocupou o cargo até 231 d.C. Foi autor de 6000 pergaminhos. Sua obra “Hexapla” continha várias versões hebraicas e gregas do Antigo Testamento em colunas paralelas. Sua obra De Principiis (230 d.C) é considerada o primeiro grande tratado de Teologia Sistemática.
  • Escola Cartaginesa: a mente ocidental, que predominou nesta escola, estava mais interessada em problemas práticos da organização eclesiástica e da teologia, do que uma teologia do tipo especulativo que predominava em Alexandria. Dois nomes sobressaem em Cartago:
    • Tertuliano: escreveu sobre assuntos práticos e apologéticos. Propôs que os cristãos deveriam se separar dos divertimentos, da imoralidade e da idolatria, próprios do paganismo. Foi o fundador da teologia latina e o primeiro a estabelecer a doutrina teológica da Trindade.
    • Cipriano: nasceu no começo do séc. III, recebendo boa educação em retórica e direito. Converteu-se ao cristianismo em 246 d.C e cinco anos depois foi feito bispo de Cartago, permanecendo por nove anos até ser martirizado em 258 d.C. Era um grande administrador e organizador. Considerava Tertuliano seu mestre e fez uma clara distinção entre bispo e presbítero, colocando o bispo como centro da unidade na igreja e garantia contra a divisão da mesma.     

Teólogos e Concílios Cristãos
Com as mudanças teológicas ocorrendo na Igreja em 300 d.C, as discussões sobre a natureza da Trindade, a natureza de Jesus e a doutrina da Salvação direcionou a Igreja a sistematizar as crenças e conseguisse um consenso sobre o ensino das Escrituras. Neste período, é importante estudar a ocorrência de um fato que mudou a condição dos cristãos de perseguidos no império romano: a ascenção de Constantino.
Constantino e o Édito de Milão (313 d.C)
Os cristãos foram perseguidos por Nero sob acusação de serem anti-sociais, desleais ao imperador e ateus. Nero culpou os cristãos pelo grande incêndio que consumiu a maior parte de Roma. Em 250 d.C o imperador Décio decretou uma perseguição universal aos cristãos. Em 303 d.C outra perseguição foi decretada pelo imperador Diocleciano, onde as Escrituras foram queimadas e milhares de cristãos foram encarcerados e muitos martirizados.
Constantino, sucessor de Diocleciano, compreendeu que o Estado não podia destruir a Igreja pela força e o melhor seria usar a Igreja como uma aliada para salvar a cultura clássica. Este processo de acordo com a Igreja começou quando ele tomou o controle completo do Estado. Em uma batalha, em 313 d.C, quando os inimigos pareciam que o venceriam, Constantino teve uma visão de uma cruz no céu, com as palavras em latim: “com este sinal, vencerás”. Derrotou os inimigos na batalha da ponte Mílvia sobre o rio Tibre. A visão pode ter ocorrido, mas o favorecimento da Igreja foi um expediente do próprio Constantino, que continuou como sacerdote do paganismo e também lider cristão (atuou nas duas vertentes). Assim, com esta conversão pagã, a Igreja passou a ter os benefícios do Estado e uma grande multidão se converte. Transformou templos pagãos em Igrejas rápidamente e as pessoas passaram a ter uma nova religião. As igrejas passaram a ter pompa e incenso, porque o imperador vinha sempre até a igreja. Usavam as imagens de fatos da Bíblia e as adoravam. Em 313 d.C, garantiram a liberdade de culto pelo Édito de Milão (Constantino não foi o responsável pela oficialização do cristianismo, só colocou-o como uma religião permitida). Fundou em 330 d.C a cidade de Constantinopla e tornou-se o centro do poder político no oriente e o bispo de Roma. Constantino estabeleceu o domingo como o dia principal do calendário eclesiástico com culto cívico e religioso e também tornou a festa de natal uma prática regular no dia 25 de dezembro (dia do sol invicto) e não a data mais provável do nascimento de Jesus (talvez no mês de Agosto, tomando-se a provavel data do recenseamento de Jesus e sua apresentação no templo).
Os filhos de Constantino continuaram a política de favorecimento da Igreja, até que houve um retrocesso com a ascenção de Juliano ao trono imperial em 361 d.C (que era seguidor do Neoplatonismo). Ele retirou os privilégios da Igreja Cristã e restaurou a liberdade plena de culto. Mas seu reinado foi curto e os reis seguintes continuaram na prática de assegurar privilégios à Igreja, até que o cristianismo se tornasse a religião oficial e exclusiva do império em 380 d.C por Teodósio I. Qualquer pessoa que seguisse outra religião receberia punição do Estado.
A associação com o Estado trouxe a Igreja benefícios, mas também desvantagens. O governo, em troca de privilégios, da proteção e da ajuda que oferecia, achava-se no direito de interferir em assuntos espirituais e teológicos. A Igreja ganhou poder, mas se tornou uma perseguidora do paganismo do mesmo modo que as autoridades religiosas pagãs tinham agido em relação aos cristãos.
Período dos Teólogos
Os nomes de Atanásio e Agostinho sobressairam-se neste período de solidificação da teologia cristã.
  • Atanásio de Alexandria: era secretário pessoal de de Alexandre (bispo de Alexandria). Ensinou que as pessoas da Trindade eram co-iguais, co-essenciais e co-eternas e estabeleceu uma forte conexão entre as doutrinas da Trindade e da Salvação. Argumentou que Deus havia criado a humanidade à sua imagem, mas devido ao pecado a humanidade abandonou a Deus. Uma nova criação seria necessária e só Deus poderia ser o Salvador da humanidade decaída, não sendo possível um ser humano providenciar a redenção. Interligou a divindade de Jesus Cristo e a salvação da humanidade decaída.
  • Agostinho de Hipona (354 a 430 d.C): passou por outras religiões e tinha mãe cristã e pai pagão. Não gostava do cristianismo pelo grego pobre (koiné), pois apreciava o grego clássico. Converteu-se e se tornou o maior filósofo cristão. Tornou-se bispo de Hipona. Deixou mais de 100 livros, 500 sermões e 200 cartas, tratando de assuntos espirituais e práticos de um administrador eclesiástico. Escreveu a “Cidade de Deus”, considerado por muitos sua maior obra, sendo esta cidade formada pelos seres humanos e celestiais unidos no amor de Deus e interessados em Sua Glória. A Cidade da Terra é composta pelos seres que, amando apenas a si mesmos, procuram sua própria glória e seu próprio bem. Agostinho é visto pelos protestantes como um precursor das idéias da Reforma com sua ênfase sobre a salvação do pecado original e atual como resultado da graça de um Deus soberano que salva aqueles que elegeu. Porém também trouxe alguns erros para o pensamento cristão, como a doutrina do purgatório.
Concílios e as Principais Questões Teológicas até 451 d.C
Com o advento do período dos teólogos, questões teológicas de relevância, como a relação entre Cristo e o Pai, as naturezas de Cristo e a natureza humana. O Anexo 3 mostra as principais questões teológicas da Igreja neste período.
O método adotado pela Igreja para resolver as diferenças fundamentais de interpretação sobre o significado da Bíblia foi a realização de concílios ecumênicos ou universais, geralmente convocados ou presididos pelo imperador romano.
  • Tema Principal: A Natureza de Jesus Cristo
Concílio: Nicéia (325 d.C)
Controvérsia sobre o ensino do sacerdote Ário que, influenciado pelo racionalismo grego, argumentava pelo monoteísmo absoluto, negando a divindade de Jesus, pois Deus jamais se identificaria verdadeiramente com a humanidade. O imperador Constantino convocou o Concílio de Nicéia em 325 d.C, condenando abertamente Ário como herege e argumentando que Jesus era da mesma natureza do Pai.
  •  Tema Principal: A Humanidade de Cristo
Concílio: Constantinopla (381 d.C)
Tratou de vários assuntos, entre os quais o ensino de Apolinário, que negava a humanidade de Cristo, ensinando que a mente de cristo não era humana, só divina. O Concílio de Constantinopla condenou Apolinário por heresia porque sua opinião afetava a doutrina da salvação. O Concílio concluiu que Jesus precisava ser completamente humano e completamente divino.
  • Tema Principal: O homem e o Livre Arbítrio
Concílio: Éfeso (431 d.C)
O Concílio de Éfeso examinou o Pelagianismo, que ensinava que o homem tem o livre arbítrio e alguns conseguem viver sem pecado, contrário ao fato do homem não poder fazer nada sem a graça de Deus. Pelagio, bispo britânico, ensinava um sistema que negava o pecado original e a necessidade da graça divina para salvação e foi condenado pelo Concílio de Éfeso.
  • Tema Principal: A Natureza de Jesus Cristo
Concílio: Calcedônia (451 d.C)
Os mais de 400 lideres eclesiásticos deste concílio foram convocados para debater sobre as duas naturezas de Jesus (divina e humana). Neste concílio foi emitida uma declaração que proclamou Jesus como Deus e homem numa pessoa. Assim, a salvação está garantida a quem professa a fé em Jesus, porque seu sacrificio foi tanto do Deus Salvador quanto do homem identificado com a humanidade.
  
3.    A Igreja Medieval: de 476 d.C a 1453 d.C.
A Idade Média inicia-se com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C, tomado pelos bárbaros, até a Queda de Constantinopla (Império Romano do Oriente) em 1453 d.C, cidade tomada dos cristãos pelos turcos.
Existem várias causas apontadas para a queda do Império Romano. Algumas infundadas, como:
  • A cristianização de Roma, tornado os romanos menos belicosos e as legiões desguarnecidas com o pacifismo cristão (esta causa não é verdadeira).
  • Perversão e corrupção do paganismo, porém também não é verdadeira, pois o paganismo era hierarquizado e organizado.
Porém, estão entre as causas principais da queda do império:
  • Enquanto Roma conquistava, tinha recursos e escravos, porém delimitou as fronteiras e não conseguiu mais escravos, contratando os bárbaros para as legiões.
  • O fenômeno de barbarização ou visão idealizada dos bárbaros, com casamentos mistos, presença nas legiões e o conhecimento dos bárbaros na manufatura de armas.
  • Inflação galopante e impostos altos oriundos dos grandes latifúndios com mão-de-obra escrava.
  • As invasões bárbaras, que ocorreram simultâneamente na Índia e na China, com representantes na Gália (Francos), Bretanha (Anglos), Saxões Alamanos (Alemanha), Lombardos (Itália), Ostrogodos (Espanha), etc. Houve um sincretismo com o paganismo árabe (prática da confissão pelo catolicismo era um costume árabe). O Anexo 4 mostra as invasões bárbaras e a ruptura do império após 476 d.C.
Com o esfacelamento do império romano houve um vácuo na Europa Ocidental. A Igreja Católica já como instituição ocupou o espaço para organizar a política, economia e sociedade. Ao mesmo tempo o islamismo expandiu-se pelo Mediterrâneo, originando o movimento das Cruzadas. A Igreja Católica crescia em influência e poder, mas tornou-se corrupta e ineficiente.

3.1 O Papado
O termo papa (=papai ou =patriarca no oriente) é afetivo e dado aos bispos. Por contingências históricas tornou-se o termo usado para o lider máximo da Igreja Católica Romana. As contingências históricas incluem:
  • Haviam 5 cidades que representavam o cristianismo (Pentápolis): Roma (capital do ocidente), Constantinopla (capital do oriente – que depois tornaram-se ortodoxos), Jerusalém (escola teológica, mais simbólica), Antioquia (teologia e centro missionário) e Alexandria (teologia e mais filosófica).
  • Dentre as 5 cidades Roma sai na dianteira, pois tinha uma posição mais equilibrada e eclética e foi sendo respeitada como lider. Já Antioquia tinha uma interpretação das Escrituras mais próxima das igrejas protestantes atuais (gramático-histórica) e Alexandria com uma posição mais alegórica do que literal das Escrituras.
  • A queda de Roma com a invasão dos bárbaros esfacelou o império, porém estes povos foram se convertendo e apoiando a Igreja com fortalecimento dos papas. A influência papal começou a ser teológica e política.
Para a justificativa dos papas, a Igreja utilizou Teleologia (busca pelos fins ou propósito), buscando no passado uma justificativa para o fato atual do papado. Utilizou Mt 16.18 como o fundamento do papado, com a justificativa de que Pedro (o primeiro papa que morreu em Roma, onde foi instituída a Sé do Catolicismo) seria a pedra fundamental da Igreja e teria as chaves para ligar e desligar. Porém a pedra fundamental da igreja é Jesus Cristo e Pedro, como todo discípulo, exerce o poder de abrir a porta da salvação a judeus e gentios.
Gregório I (590 a 604 d.C) é considerado o primeiro papa, embora tenha recusado o título de papa, organizando todo o sistema de governo papal na idade média. Padronizou a liturgia e a teologia da Igreja Romana e seus escritos apoiaram inicialmente as doutrinas de veneração de Maria, o purgatório e oração aos santos mortos. Este papa fundamentou o catolicismo romano enviando missões às tribos germânicas e norte da Europa, principalmente Inglaterra para evangelizar os bárbaros. Pepino, o Breve (714 a 768 d.C), antigo rei dos francos concedeu ao papa uma grande extensão de terra no centro da Itália, transformando a Igreja em um poder político da Europa.
3.2 Missões nas Tribos Germânicas e Irlanda
O Império Romano foi sendo substituído, após as invasões bárbaras, por reinos germânicos independentes, que logo foram alcançados pelas missões da Igreja. O maior missionário foi Bonifácio (672 a 754 d.C), que buscou o apoio do bispo de Roma (papa) e do governador dos francos, levando milhares de pagãos germânicos a Cristo, plantando um grande número de igrejas. Trouxe instrução, disciplina e pureza ao clero, organizando a igreja e frisando a obediência, serviço e o alcance de outros povos (enviou voluntários a Inglaterra). Estabeleceu mosteiros pela Alemanha e, sendo monge beneditino, enfatizava a pobreza, castidade e obediência a Cristo. Os monges beneditinos faziam cópias das Escrituras e dos clássicos cristãos. Bonifácio conseguiu a proteção do rei dos francos, que culminaria em uma poderosa aliança entre a Igreja e o Estado.
Na Irlanda o trabalho missionário foi realizado por Patricio (389 a 461 d.C), após Roma abandonar a Bretanha, por considera-la de dificil defesa, sendo este vácuo preenchido pela Igreja. Patricio ganhou os lideres das tribos irlandesas, amenizando as guerras tribais e garantindo a proteção para o avanço do cristianismo na Irlanda.

3.3 O Islamismo
A Arábia pré-islâmica do deserto era composta por tribos pobres de beduínos nômades, com a economia baseada em pequenos rebanhos. Sua religião era o animismo (crenças em espíritos ou almas, gênios como Aladim), fetichismo (objetos com poderes mágicos) e politeísmo. Já a Arábia pré-islâmica do litoral era composta por cidades como Meca, que eram entrepostos comerciais e a economia baseada em agropecuária e agricultura desenvolvidas.
Maomé (570 a 632 d.C) era orfão e de familia pobre e, aos 15 anos, trabalhava no comércio de caravanas como lider. Teve contato com o Cristianismo, Judaísmo e o Zoroastrismo (monoteísta da Pérsia fundada por Zoroastro com concepções religiosas parecidas com o cristianismo e judaísmo). Nestas bases foi escrito o Alcorão, que interpreta Jesus como um profeta e Maomé como o profeta de Deus (revelado pelo anjo Gabriel).
Maomé encontrou em Meca resistência por pregar a fé em Alá e, no ano 622 d.C, fugiu (hégira) para Medina. O ano 622 d. C é considerado o ano zero para os muçulmanos. Reconquistou Meca em 630 d.C implantou o islamismo, chegando ao Oriente Médio, Norte da África e Europa (península ibérica, de onde são expulsos no séc. XV). A expansão é reduzida pelas divisões internas (xiitas e sunitas).

3.4 O Império Carolíngio, Carlos Magno e o Feudalismo
O império carolíngio teve como objetivo tentar novamente centralizar o Império, fragmentado pelas invasões bárbaras. Teve origem na dinastia merovíngia com Clóvis (466 a 511 d.C) que unificou os francos e se converteu, havendo uma aliança entre os francos e a Igreja. Porém os filhos de Clovis não tiveram a habilidade do pai e passaram o controle do Estado aos prefeitos do palácio, que iniciaram a dinastia carolíngia. Carlos Martelo (689 a 741) ocupou as funções de prefeito após se pai, Pepino de Heristal. Derrotou os muçulmanos na batalha de Tours em 732 d.C, detendo seu avanço para o Ocidente.
O filho de Carlos como prefeito do palácio foi Pepino, o Breve (714 a 758 d.C), tomando o título de rei carolíngio. Conforme já citado, tornou-se rei dos francos com a benção do papa, doando terras do centro da Itália (“Doação de Pepino”) e iniciando assim os Estados Papais. Constantino também havia feito no passado concessões e privilégios de terras ao bispo de Roma, conhecida como “Doação de Constantino”, como retribuição de cura e de sua conversão.
O filho de Pepino, o Breve, foi Carlos Magno (742 a 814 d.C), tornando-se o imperador do ocidente. Venceu os saxões  e conseguiu manter os islâmicos. Conquistou a Itália ao sul de Roma, quase toda a Alemanha e toda a atual França, tentando integrar novamente o império romano. O império de Carlos Magno foi marcado por progresso cultural e a posição papal junto aos governadores seguintes foi fortalecida pelo fato do papa Leão III ter coroado Carlos como imperador dos romanos. Carlos Magno estabeleceu a política de condados (condes), marcas (marqueses) e ducados (duques).
O declinio do império carolíngio pela fraqueza dos sucessores de Carlos Magno apressou o surgimento do feudalismo. O feudalismo surgiu pela incapacidade do governo central em exercer poder sob suas áreas de controle, havendo um declínio da vida urbana e do comércio, forçando o povo a voltar ao campo em busca da sobrevivência. O poder público vai para as mãos de particulares com posses sobre as terras, havendo uma organização mais horizontal que vertical e pouca mobilidade social. A influência do feudalismo na Igreja foi enorme, já que esta possuia uma grande porção de terras, doadas por homens penitentes em busca de justificação para uma vida de pecado. Estas doações ficaram nas mãos de abades e bispos, o que secularizou a Igreja e desviou a atenção dos interesses individuais para os mundanos.

3.5 Igreja Católica Oriental e Ocidental
Estes dois ramos da Igreja Católica estavam sujeitos a ambientes diferentes. Sem a interferência do imperadores após as invasões bárbaras, a Igreja Ocidental ganhou poder por estar organizada e conseguir lidar com o caos deixado pelas invasões. Já a Igreja Oriental sofreu interferência do chefe do império do oriente e estava lançando mão de recursos para lutar contra o islamismo.
A Igreja Católica Ocidental foi assumindo ideologias e doutrinas (ex.: celibato, data do natal, imagens), porém a Igreja Católica do Oriente não admitia estas doutrinas, com os papas excomunhando-se uns aos outros, separando-se entre ortodoxos e romanos ou Igreja Católica Romana e Igreja Ortodoxa Grega em 1054 d.C., tendo estas duas igrejas caminhado em direções distintas após este momento.

3.6 O Movimento Religioso/Militar das Cruzadas
Cruzadas foi um movimento religioso/militar que objetivou livrar Jerusalém dos turcos seljúcidas. Este povo era da própria região e permaneceram ali, impedindo a peregrinação cristã a Jerusalém. Na luta, o clero e os nobres formaram um pelotão e os pobres outro. Quem participasse das cruzadas receberia indulgência plena do papa. As causas das Cruzadas incluíam também o medo do final dos tempos (boatos apocalípticos) e  o aumento demográfico.
O movimento dividiu-se em Cruzadas Orientais, com o objetivo de ocupar Jerusalém e Cruzadas Ocidentais com o objetivo de combater os hereges. O papa Urbano II convoca a primeira cruzada em 1095 d.C.
Houve sete cruzadas principais, além de outras menores, com muitos guerreiros cristãos compondo os exércitos, mas sómente a primeira cruzada (1095 a 1099 d.C) foi bem sucedida. Na segunda cruzada, Saladino reconquista as terras para os muçulmanos. Na terceira cruzada, ou cruzada dos reis, não foi bem sucedida mas abalou a Saladino (lutou Ricardo Coração de Leão da Inglaterra). A quarta cruzada teve objetivos comerciais (abrir rotas para os mercadores de Veneza), provocando um abismo entre cristãos orientais e ocidentais. A quinta cruzada não teve objetivo de chegar a Jerusalém e sim ao Egito, mas foram vencidos. A sexta cruzada ganhou territórios como Belém e Jerusalém, mas acabou perdendo. Na sétima cruzada também não foi bem sucedida.
As Cruzadas tiveram impacto em vários aspectos na Europa cristã: no aspecto cultural traziam do oriente novos alimentos e roupas; no aspecto educacional traziam livros do mundo antigo preservados pelos muçulmanos; o comércio reviveu e a igreja ganhou mais riqueza, surgindo uma nova classe que tomava conta do ocidente, a classe média.

3.7 Precursores da Reforma (Pré-Reforma)
Antes da Reforma (como veremos no ítem 4), houve tentativas de parar o declínio do prestígio e poder do papa através de reformas de várias espécies. O papado era corrupto e extravagante e estava na França e não em Roma, levando grupos de reformadores (com Wycliffe, Hus e Savonarola), humanistas bíblicos e concílios reformadores a buscarem formas de produzir um reavivamento espiritual dentro da Igreja Católica Romana. O Anexo 5 mostra as heresias medievais e os precursores da Reforma, ou pré-Reforma.
Entre 1309 e 1439 a Igreja teve um declinio moral com as exigências de celibato (contrários à Bíblia), que provocaram casos de amor ilícito de sacerdotes com mulheres da congregação (às vezes gerando filhos). A vida de luxúria oriunda da feudalização da Igreja, com clérigos dedicando-se mais à vida secular do que espiritual. As rendas dos papas eram obtidas através das rendas de suas propriedades e outros pagamentos exigidos aos fiéis, além da corrupção e da fraude.
Os reformadores precursores da Reforma (cujo objetivo era fazer a Igreja voltar ao ideal do Novo Testamento) foram:
  • John Wycliffe (1328 a 1384 d.C): acreditava na Bíblia como autoridade final para o crente e que todo cristão deveria ter a oportunidade de lê-la. Como a versão da Bíblia disponível estava em latim (Vulgata Latina), Wycliffe e outros associados a traduziram para o inglês. Argumentou que Cristo, e não o papa, era o cabeça da Igreja.
  • João Huss (1373 a 1415 d.C): leu e adotou as idéias de Wycliffe. Propôs reformar a Igreja Romana na Boêmia, provocando a inimizade do papa. Como se recusasse a se retratar foi queimado na fogueira por ordem do Concílio.
  • Savoranola (1452 a 1498 d.C): estava interessado na reforma da Igreja em Florença. Foi monge dominicano, mas sua pregação contra a vida desregrada do papa provocou sua morte por enforcamento.

4.    A Igreja Moderna: 1453 d.C. a 1789 d.C
Na Idade Média a política estava centrada na figura do imperador e do papa (força centrípeta). Na Igreja Moderna, o contexto histórico e geográfico era o seguinte:
  • Queda de Constantinopla (1453): os muçulmanos invadiram o império até restar sómente Constantinopla, que foi tomada pelos turcos otomanos e seu nome foi mudado para Istambul. Com a queda, os russos se tornaram a principal força cristã do oriente, com os czares usando politicamente a Igreja Ortodoxa.
  • Invenção da Imprensa (1456): inventada no Ocidente por Johannes Gutenberg, sendo a primeira obra reproduzida a Bíblia na versão Vulgata com 200 cópias. Durante a Reforma, muitas Bíblias, folhetos e livretos foram distribuidos graças a Imprensa.
  • O Humanismo e a Renascença: o retorno aos valores clássicos greco-romanos (mitologia grega, na música a tragédia grega), o homem como medida de todas as coisas (humanismo) mas ainda criatura de Deus, conflitos religiosos contra os sacramentos, indulgências e relíquias. Os humanistas do norte voltaram à Bíblia nos originais e os humanistas do sul acentuaram o estudo da literatura clássica e das línguas da Grécia e de Roma. Renascença foi um período de reorientação cultural, trocando a compreensão corporativa, religiosa e medieval por uma visão individualista, secular e moderna.
  • Grandes Navegações e Expansão Colonial: navegadores portugueses, espanhóis e de outras nações realizaram viagens marítimas durante os séculos XV e XVI. Os pioneiros nos descobrimentos, Portugal e Espanha recorreram ao papa como mediador do Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo ao meio entre estas duas nações.
O Anexo 6 mostra um quadro-resumo dos reformadores, que iremos estudar a seguir.

4.1 Reforma Luterana (Alemanha)
Marinho Lutero nasceu em 1483 em uma rica família de mineiros de cobre na Alemanha (Eisleben). Formou-se em Direito e, após uma tempestade em 1505, pediu ajuda a uma santa católica para livrá-lo e ele se tornaria monge. Juntou-se a um claustro agostiniano e fez votos de castidade e pobreza. Ordenado padre estava inquieto com  seus pecados e nem atos de penitência (punia seu corpo) não acalmaram sua alma, considerando Deus como seu juiz e não Salvador. Para que se acalmasse foi ordenado que estudasse as Escrituras, sendo enviado a Universidade de Wittenberg onde completou seu doutorado em teologia em 1512. Entre 1517 e 1519 encontrou a paz que procurava através do livro de Romanos (Rm 1.17), quando entendeu que a justificação não se dava pelas obras, mas sim pela fé. A Igreja vendia indulgências, que eram pequenos pedaços de pergaminho, que garantiam o perdão dos pecados mediante pagamento e também um confessor particular. Os sermões de Lutero condenavam as indulgências e, em 31 de outubro de 1517, Lutero pregou 95 teses na porta da capela do castelo de Wittenberg para que fossem debatidas, argumentando que as indulgências não poderiam remover a culpa.
Entre os anos de 1517 a 1521 Lutero endureceu a oposição à Igreja e foi excomungado pelo papa Leão X, mas queimou publicamente a bula papal. Rejeitava a transubstanciação na ceia do Senhor e refrisou que a justificação provinha apenas pela fé e não pelas obras. O novo imperador do Sacro Império Romano, Carlos V, ordenou que ele respondesse às acusações na Dieta Imperial de Worms. Lutero reiterou sua posição afirmando que sua consciência estava presa à Palavra de Deus.
Lutero foi “sequestrado” por seus amigos e levado ao castelo de Wartburg, onde traduziu o Novo Testamento do grego para o alemão. Neste ínterim, houve revolta na Alemanha contra a Igreja Católica Romana, com remoção de estátuas religiosas e expulsão de sacerdotes das Igrejas. Após um ano no castelo de Wartburg, Lutero voltou a Wittenberg onde ensinou e pregou até o fim da vida. Casou-se em 1525 com uma ex-freira, Catarina Von Bora, com quem teve seis filhos. Modificou melodias e cânticos antigos e transformou-os em hinos.
4.2 Reforma na Suíça (Zwínglio e Calvino)
Urich Zwínglio nasceu em Wildhauss na Suíça em 1484, estudou em Viena (Austria) e Basiléia (Suiça). Chegou a fé em 1516 por meio de pesquisa teológica. Em 1523 liderava a Reforma de Zurique e convenceu o conselho da cidade a permitir o casamento do clero, a abolição da missa, retirada de imagens e estátuas e o fechamento de mosteiros. Casou-se com Anna Reinhart em 1522 e rompeu radicalmente com Roma.
Houve conflito com os luteranos sobre a ceia do Senhor. Os luteranos não criam na transubstanciação, mas na consubstanciação (Jesus estava presente em, com e sob os elementos), e os seguidores de Zwinglio concluíram que os elementos que representavam o corpo de Jesus eram simplesmente um memorial. A reforma de Zwinglio foi política (Estado e Igreja reforçando-se um ao outro na obra de Deus), dividindo a Suíça em cantões (estados) católicos e protestantes. Morreu na batalha de Cappel (1531) como capelão das forças de Zurique, quando lutavam contra cinco cantões católicos.
Com a morte de Zwinglio, Calvino (1509 a 1564) preencheu a liderança da Reforma suiça. Nasceu na França (1509) e estudou Teologia na Universidade de Paris e Direito na Universidade de Orleans. Em 1520 uniu-se à causa protestante, fugindo de seus perseguidores pela França Suiça e Itália quando escreveu “As Institutas da Religião Cristã” contendo quatro livros de 80 capítulos, transformando-se na teologia sistemática da Reforma.
Calvino foi para Genebra, onde estabeleceu uma academia para treinamento de jovens da cidade, além do cuidado aos pobres e idosos. A expansão do Calvinismo pelo mundo ocidental ocorreu por Genebra estar estratégicamente localizada e abrigar refugiados protestantes que se reuniam na cidade. O calvinismo é encontrado hoje na Igreja Presbiteriana e alguns grupos batistas.
4.3 Os Anabatistas
Este grupo enfatizava o batismo dos crentes em oposição ao batismo infantil (anabatista significa “batizar de novo”), que era praticado pela Igreja Católica e por grupos protestantes. Os grupos anabatistas mais respeitáveis foram os irmãos suíços, os menonitas e os amish. Concordavam com os ensinamentos das Escrituras como Trindade, justificação pela fé e expiação. Defendiam a Igreja unida por laços fraternos em vez da Igreja estatal, que deveria estar separada do Estado. Os cristãos deveriam viver em comunidade e compartilhar posses materiais, defendiam o pacifismo.
Pode-se considerar Conrad Grebel e Felix Manz como fundadores do movimento anabatista. Eles eram discípulos de Zwinglio e o criticaram por seu relacionamento com o conselho da cidade. Foram assim multados, aprisionados e martirizados pelas autoridades suíças.
4.4 Reforma na Inglaterra
Na Inglaterra, a obra de Wycliffe preparou o caminho para a Reforma inglesa, além de William Tyndale (1494 a 1536) e Miles Coverdale (1488 a 1568) produziram traduções da Bíblia precisas e disponíveis. Mas o rompimento com Roma se deu através do rei inglês Henrique VIII.
Devido ao fato do papa em Roma recusar-se a conceder a anulação do casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão (Henrique VIII já tinha um caso e um filho com Ana Bolena), este rompeu com Roma, removeu a Inglaterra da jurisdição do papa, confiscou terras da Igreja Católica Romana e se autoproclamou chefe da Igreja na Inglaterra (hoje Igreja Anglicana). Este fato gerou conflitos entre protestantes e católicos que lutavam pelo controle. A filha de Henrique VIII, Elisabete I, optou pelo caminho do meio, tornando a Igreja Anglicana protestante na teologia e católica nos rituais.
Os puritanos foram críticos de Elisabete I e desejavam a purificação da Igreja Anglicana, completando a Reforma na Inglaterra. Foram expulsos da Igreja Anglicana e muitos imigraram para a America do Norte.
4.5 Reforma na Escócia
A Escócia tinha lealdade tanto com a Inglaterra como com a França. Os católicos que controlavam a Escócia, temendo um avanço da Reforma, apelaram para a França. A marinha francesa combateu os protestantes e levou de St. Andrews para a França muitos deles, entre estes estava John Knox (1514 a 1572), que se recusou a converter-se à doutrina católica, transformando-se em um revolucionário pela causa de Cristo.
Foi liberto e partiu para a Inglaterra unindo-se aos reformistas sob a aprovação do rei Eduardo VI, que o admirava. Este rei morreu em 1553 e assumiu Maria Tudor (católica e conhecida por “Maria, a sanguinária) se tornasse rainha e perseguidora dos protestantes. Knox fugiu para a Alemanha e pastoreou uma igreja em Frankfurt. Desenvolveu um relacionamento próximo a João Calvino e outros reformadores e pastoreou em Genebra, ajudando a produzir a Biblia de Genebra, uma das primeiras voltada ao estudo contendo notas, mapas e orações. Retornou a Escócia, que estava à beira da guerra civil, em 1559 para liderar a causa protestante. A guerra terminou em 1560 e o Tratado de Edimburgo, que reconheceu o presbiterianismo.
4.6 A Contra-Reforma
A Contra-Reforma foi a reação ostensiva da Igreja Católica frente ao Protestantismo. Um dos instrumentos usados foi a Inquisição ou Tribunal do Santo Oficio, ficando a cargo dos Dominicanos (Domini Cani=Cães do Senhor). Havia um corpo de inquisitores, advogados de defesa e acusação, soldados, escrivães, carcereiros e a ação se dava através de multas, confisco dos bens dos hereges, torturas e o auto de fé (ato “misericordioso” para purificar através da queima da fogueira).
A presença dos jesuítas foi marcante na Contra-Reforma. Fundada por Inácio de Loyola (1491 a 1556), a Compania de Jesus seguia o modelo militar com a missão de educar, lutar contra as heresias e serem missionários. Conquistaram o controle de partes da Alemanha e Europa Central para a Igreja Católica Romana. Utilizavam o Index de Livros Proibidos (lista de livros que os católicos eram proibidos de ler) e a Inquisição (que foi bem-sucedida na erradicação da ameaça protestante na Itália, Espanha, Portugal e Bélgica). O papa Paulo III reconheceu os jesuítas como ordem eclesiástica em 1540 e convocou o Concílio de Trento em 1545.
O Concílio de Trento foi a resposta católica definitiva ao protestantismo, que considerava o resultado da ambição, avareza e cobiça dos bispos católicos. Nos seminários estudava-se Tomás de Aquino, principal teólogo católico. Em resposta aos luteranos, aboliu a venda de indulgências, relacionou as obrigações do clero e ordenou a reestruturação dos bispos na Igreja. Rejeitou a justificação apenas pela fé e promoveu a necessidade de obras meritórias como necessidade para salvação. Confirmou os sete sacramentos concessores de graça: batismo, crisma, comunhão, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio como necessários à santificação. Reconfirmou a transubstanciação e a natureza sacrificial da missa. Declarou que apenas a Biblia Vulgata Latina era aceitável para uso na Igreja (incluía os livros apócrifos) e manteve a afirmação de que a tradição da Igreja possuia a mesma autoridade das Escrituras.
A Guerra dos 30 anos (1618 a 1648) foi a última de uma série de guerras religiosas no continente europeu. A Paz de Westfália pôs fim à guerra em 1648 após longas negociações. O tratado reconheceu o calvinismo, o luteranismo e o catolicismo como religiões legais e permitiu que cada governante determinasse a religião de seu domínio. O Anexo 7 mostra um quadro resumo da Contra-Reforma.

5.    Igreja Contemporânea: 1789 d.C até os dias atuais
Para fecharmos o estudo da História da Igreja, abordaremos a Igreja Contemporânea à luz da evolução histórica dos períodos anteriores:
  • Idade Antiga: no sistema escravista, o exército colocava escravos na agricultura, cobrava impostos e fechava o ciclo escravizando novamente.
  • Idade Média: o cenário político estava nas mãos da nobreza e o rei era uma figura mais simbólica (feudalismo).
  • Idade Moderna: poder político nas mãos dos reis absolutistas com apoio financeiro da burguesia. Formação dos Estados Absolutistas (nações como Portugal, Espanha, França e Inglaterra). 
  • Idade Contemporânea: poder político e econômico nas mãos da burguesia e alienação entre o governo e o povo.
Alguns marcos importantes na Idade Contemporânea:
  • Revolução Francesa em 1789 (povo contra o governo): rei absolutista que controlava tudo, inclusive a religião; o povo não podia votar e os oposicionistas eram presos na Bastilha, espécie de prisão. A queda da Bastilha foi o inicio do processo revolucionário.
  • Concepção de esquerda (mais a favor do povo) e direita (mais a favor da burguesia).
  • Declaração dos Direitos Humanos (igualdade, fraternidade e liberdade).
  • Voltaire e Russeau (separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário).
  • Napoleão Bonaparte: objetivo de levar a Revolução Francesa para todos os países da Europa com objetivos imperialistas.

5.1 Puritanismo
Movimento em prol da reforma completa na Igreja da Reforma. Iniciou-se no reinado de Elisabete I da Inglaterra (1558) e continuou por mais de um século como uma grande força religiosa da Inglaterra e Estados Unidos. Os separatistas buscavam a reforma da Igreja Anglicana e formaram as igrejas Presbiterianas, Congregacionais e Quackers. Os independentes eram congregacionais.
As convicções do Puritanismo incluíam a salvação vindo diretamente de Deus, a Bíblia como guia indispensável da vida e a Igreja deve refletir o ensino das Escrituras. John Bunyan, foi o autor puritano do livro “O peregrino” (alerta aos perigos enfrentados na vida religiosa por aqueles que seguem os ensinamentos bíblicos e buscam alcançar a coroa da Vida Eterna).

5.2 Movimento Metodista
Foi fundado por John Wesley (1703  a 1791) surgiu a partir da Igreja Anglicana. Membro do Clube Santo da Universidade de Oxford, Wesley passava por dificuldades quanto à santidade pessoal. Sómente quando teve contato com pietistas morávios é que teve um encontro com o Senhor. Wesley dedicou sua vida a pregar o Evangelho pela Inglaterra e pelos centros industriais, onde o metodismo cresceu rápidamente. Permitiu o trabalho de mulheres e pregadores leigos para espalhar a mensagem da salvação.

5.3 Batistas
Existem algumas teorias a respeito da origem dos batistas (uma originária da sucessão de João Batista, outra dos Anabatistas do período da Reforma), mas a maioria aceita a dissidência de puritanos ingleses no séc. XVII com origem nos congregacionais. Os primeiros lideres (John Smith e Thomas Helwys) eram congregacionais e os batistas iniciaram após a ida destes lideres a Holanda (1608). Em 1609 organizaram a Igreja Batista e houve aproximação com um grupo menonita (anabatista). Em 1642 os batistas particulares batizavam por imersão. Em 1644 houve a Confissão Batista de Londres.

5.4 Pentecostalismo
O lider inicial do Pentecostalismo foi Charles Fox Parham, pregador metodista do Instituto bíblico em Topeka, Kansas (1900). A marca distintiva do Movimento Pentecostal é o falar em línguas (glossolalia) como evidência bíblica do batismo no Espírito Santo. Um evento marcante ocorre em um culto de vigília em 31-12-1900, quando a aluna Agnes Ozman fala em línguas e o fenômeno se repete com outros estudantes. O movimento cresce e Parham o difunde nos EUA com os nomes de Fé Apostólica ou Fé Pentecostal. Ocorre o avivamento no país de Gales e escola bíblica em Houston, Texas (1905).
Um dos seguidores de Parham foi William J. Seymour, aluno de Parham em Houston (sendo negro, tinha de assistir às aulas do lado de fora da sala). Seymour tinha 30 anos, era filho de escravos, possuía pouca cultura e foi convidado para falar em uma igreja batista de Los Angeles. Mudou-se para a casa de um zelador (Edward Lee) de um banco local e começou a pregar na casa de outro zelador na Rua Bonnie Era. Lee e Seymour foram batizado no Espírito Santo. Este buscou um local para uma igreja e encontrou na Rua Azuza, 312 em LA. A “Missão da Fé Apostólica” era um local simples, mas dali a verdade pentecostal se espalhou pelo mundo. Multidões apertaram-se na Rua Azuza com 3 cultos/dia, 7 dias/semana por mais de 3 anos. Muitos pioneiros pentecostais receberam o batismo no Espírito Santo adorando nas pranchas das caixas de madeira no altar da Rua Azuza. Seymour morreu em 28/09/1922 com 52 anos.

5.5  Protestantes no Brasil
A entrada do protestantismo no Brasil não foi homogênea e pode ser resumida nos seguintes tipos:
  • Protestantismo de Imigração:
ü  Anglicanos: O primeiro capelão anglicano, Robert C. Crane, chegou em 1816. A primeira capela foi inaugurada no Rio de Janeiro em 26-05-1822; seguiram-se outras nas principais cidades costeiras. Outros estrangeiros protestantes: americanos, suecos, dinamarqueses, escoceses, franceses e especialmente alemães e suíços de tradição luterana e reformada.
ü  Alemães Luteranos: iniciaram em Nova Friburgo em maio de 1824 com um grupo de 324 imigrantes acompanhados do seu pastor, Friedrich Oswald Sauerbronn (1784-1864).
ü  Comunidade Protestante Alemã-Francesa do Rio de Janeiro: fundada em junho de 1827 pelo cônsul da Prússia Wilhelm von Theremin com Luteranos e calvinistas.
  • Protestantismo de Missão:
ü  Igreja Metodista Episcopal: foi a primeira denominação a iniciar atividades missionárias junto aos brasileiros (1835-41). Fundaram no Rio de Janeiro a primeira escola dominical do Brasil.
ü  Igreja Presbiteriana: as primeiras igrejas foram no Rio de Janeiro (1862), São Paulo e Brotas (1865). A Escola Americana foi criada em 1870 e o Sínodo do Brasil surgiu em 1888.
ü  Igreja Metodista Episcopal (sul dos EUA): o primeiro missionário aos brasileiros chegou em 1876 e dois anos depois organizou a primeira igreja no Rio de Janeiro.
ü  Igreja Batista: os primeiros missionários, Thomas Jefferson Bowen e sua esposa (1859-61) não foram bem sucedidos. Em 1871, os imigrantes de Santa Bárbara organizaram duas igrejas. Os primeiros missionários junto aos brasileiros foram William B. Bagby, Zachary C. Taylor e suas esposas (chegados em 1881-82). O primeiro membro e pastor batista brasileiro foi o ex-padre Antonio Teixeira de Albuquerque, que já estivera ligado aos metodistas. Em 1882 o grupo fundou a primeira igreja em Salvador, Bahia. A Convenção Batista Brasileira foi criada em 1907.
ü  Igreja Protestante Episcopal: última das denominações históricas a iniciar trabalho missionário no Brasil. O trabalho permanente teve início em 1890 e fixaram-se em Porto Alegre.
  • Pentecostalismo:
ü  Congregação Cristã no Brasil: fundada pelo italiano Luigi Francescon (1866-1964). Radicado em Chicago, foi membro da Igreja Presbiteriana Italiana e aderiu ao pentecostalismo em 1907. Em 1910 (março-setembro) visitou o Brasil e iniciou as primeiras igrejas em Santo Antonio da Platina (PR) e São Paulo, entre imigrantes italianos.
ü  Assembléia de Deus: fundada pelos suecos Daniel Berg (1885-1963) e Gunnar Vingren (1879-1933). Batistas de origem, abraçaram o pentecostalismo em 1909. Sentindo-se chamados para trabalhar no Brasil, chegaram a Belém em novembro de 1910.
ü  Igreja do Evangelho Quadrangular: fundada a primeira IEQ do Brasil em novembro de 1951 (São João da Boa Vista). A igreja enfatiza quatro aspectos do ministério de Cristo: aquele que salva, batiza com o Espírito Santo, cura e virá outra vez. As mulheres podem exercer o ministério pastoral.
ü  Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo: fundada por Manoel de Mello, um evangelista da Assembléia de Deus. Organizou em 1956 a campanha "O Brasil para Cristo," da qual surgiu a igreja.
ü  Igreja Deus é Amor: fundada por David Miranda, converteu-se numa pequena igreja pentecostal e em 1962 fundou sua igreja em Vila Maria. Em 1979, foi adquirida a "sede mundial" na Baixada do Glicério, o maior templo evangélico do Brasil (dez mil pessoas).
ü  Igreja Universal do Reino de Deus: fundada por Edir Macedo. De origem católica, ingressou na Igreja de Nova Vida na adolescência. Deixou essa igreja para fundar a sua própria, inicialmente denominada Igreja da Bênção. Em 1978 surgiu o nome IURD e o primeiro programa de rádio.
ü  Convenção Batista Nacional: Até 1950 quando algum batista era batizado no ES ia para Assembléia de Deus e às vezes não era aproveitado (não havia outra Igreja para ir). Foi necessário uma Renovação Espiritual para as igrejas tradicionais (Inovação=quando inicia-se algo novo e Renovação=quando aproveita-se o que já existia e recupera-se). Pr. Rego do Nascimento foi batizado no ES e ele iniciou a Renovação Espiritual juntamente com o Pr. Enéas Tognini, que fundou a Convenção Batista Nacional e foi um dos fundadores da Sociedade Bíblica do Brasil.



Bibliografia

BETTENSON, Henry. Documentos da Igreja Cristã. São Paulo: Aste, 2001.
CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos: Uma História da Igreja Cristã. 2ed. São Paulo: Vida Nova, 1990.
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GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo – Vols. 1 a 10. São Paulo: Vida Nova, 1995.
HALL,  Christopher A. Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja. Viçosa: Ultimato, 2000.
LANE, Tony. Pensamento Cristão – Vols. 1 e 2. 3ed. São Paulo: Abba Press, 2003.
LEONARD, ÉMILE G. O Protestantismo Brasileiro: Estudo de Eclesiologia e História Social. 3ed. São Paulo: Aste, 2002.
NOLL, Mark A. Momentos Decisivos na História do Cristianismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2000.
OLIVEIRA, Raimundo F. História da Igreja: Dos Primórdios à Atualidade. 2ed. São Paulo: Campinas: EETAD, 1992.
TOGNINI, Enéas. O Período Interbíblico. 7ed. São Paulo: Louvores do Coração, 1992.
WALKER, W. História da Igreja Cristã – Vols. 1 e 2. São Paulo: ASTE, 1967.

  

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