História da Igreja
1.
Introdução
A História pode
ser definida como um acontecimento, um evento real, que acontece no tempo e
espaço como resultado da ação humana. Este acontecimento só pode ser conhecido
plenamente por Deus. Já a Informação a respeito de um acontecimento é um
segundo significado da palavra História. A informação sobre o passado pode
estar sob a forma de um documento ou objeto relacionado a um acontecimento e o
historiador tem que levar em conta as ações de Deus no tempo e espaço para
entender a História. Assim, a História pode ser definida como um relato
interpretado do passado humano socialmente importante, baseado em dados
organizados e reunidos pelo método científico a partir de fontes arqueológicas,
literárias ou vivas. O historiador da Igreja deve ser tão imparcial na coleta
de dados quanto o historiador secular, porém tratando o material com sua
estrutura própria de interpretação.
A História da
Igreja é o relato interpretado da origem, progresso e impacto do cristianismo
sobre a sociedade humana, baseado em dados organizados e reunidos pelo método
científico a partir de fontes arqueológicas, documentais ou vivas. É a história
interpretada e organizada da redenção do homem e da terra.
Para produzir a
História da Igreja, alguns elementos são importantes:
- Elemento
Científico: o historiador usa o trabalho científico do arqueólogo (que revela
dados do passado do que escavou), usa técnicas de critica literária (para
avaliar os documentos da história da igreja) e privilegia as fontes
originais levantadas por arqueólogos, mostradas em documentos ou contadas
por testemunhas oculares.
- Elemento
Filosófico: os historiadores se dividem em escolas de história e filosofias
da história, conforme procuram o significado na história.
·
Elemento Artístico: o historiador deve procurar apresentação dos
fatos históricos de maneira mais agradável possível ao leitor.
A História da
Igreja mostra o Espírito de Deus em ação através da Igreja durante os séculos
de sua existência e é também valiosa para explicação do presente através do
conhecimento das raízes do passado (ver no Anexo
1 a cronologia da História da Igreja). As práticas litúrgicas diferentes
entre as igrejas tornam-se mais palpáveis à luz da história do passado. Os
problemas atuais da Igreja são geralmente iluminados pelo estudo do passado,
pois existem padrões e paralelos na história. A reparação ou a prevenção de
erros e costumes equívocos é outro valor do estudo do passado da Igreja. O
presente é o produto do passado e a semente do futuro. O pouco conhecimento da
Bíblia e da História da Igreja é a razão principal porque muitos enveredaram
por falsas teologias e práticas erradas. A História da Igreja oferece
edificação, inspiração e entusiasmo, estimulando a vida espiritual elevada. A
história do homem não pode ser divorciada da história de sua vida religiosa,
sendo a história da civilização ocidental incompleta sem a compreensão do papel
da religião cristã no desenvolvimento desta civilização.
O objetivo deste
módulo é compreender a igreja cristã atual através de um estudo cronológico,
ressaltando os pontos que influenciaram as diversas posições teológicas e
doutrinas na igreja atual. Para melhor compreensão, dividimos a História da
Igreja em períodos cronológicos que nos auxiliam a guardar os fatos essenciais.
São eles:
·
Igreja Antiga: Nascimento de Cristo até 476 d.C.
·
Igreja Medieval: de 476 d.C a 1453 d.C.
·
Igreja Moderna: 1453 d.C a 1789 d.C
·
Igreja Contemporânea: Revolução Francesa (1789) até os dias atuais
A Linha do Tempo
abaixo fornece uma visão geral da História da Igreja e os principais
acontecimentos e mudanças econômicas de cada período.
A compreensão
sobre a História da Igreja pode nos ajudar a entender a riqueza do cristianismo
e compreender a sua expansão desde Pentecostes até os dias de hoje. Reforçamos
que consultem a biografia utilizada e citada ao final desta apostila, que muito
os auxiliará a aprofundar nos temas descritos.
2. A Igreja Antiga: Nascimento de Cristo até 476
d.C.
2.1
A Plenitude do Tempo
Em Gálatas 4.4,
Paulo esclarece que Jesus veio na plenitude do tempo para resgatar os que
estavam sob a lei: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho,
nascido de mulher, nascido sob a lei”. A referência “plenitude” tem o sentido
de tempo completo, com o mundo preparado para receber a mensagem de Jesus.
Fatores externos propiciaram que o evangelho se propagasse rápidamente:
- Política
Romana: por volta de 100 a.C Augusto unificou a Europa, Norte da Africa e
Oriente Médio sob o domínio romano. As estradas romanas espalhadas em todo
império facilitaram o tráfego das informações pelo mundo da época. A
instituição de uma “Paz Romana” (Pax Romana) forçada foi garantida pelas
legiões. Os judeus foram mais tolerados que os cristãos, pois apesar de
monoteístas, não tinham caráter expansionista, ao contrário dos cristãos.
- Contribuição
Intelectual Grega: Alexandre (séc. XV a.C) implantou a cultura
helenísta, com criação de centros para irradiação da cultura grega
(bibliotecas grandes, casamento interacial, etc.) e instituiu uma
linguagem única, o grego Koiné (popular).
- Contribuição
Judaica: os judeus tinham um monoteísmo ético e esperança messiânica, que
facilitou a compreensão da figura de Jesus.
Estes fatores
foram sendo moldados no período chamado de “interbíblico” (entre a Bíblia ou
entre os dois testamentos), com duração aproximada de 400 anos, que se inicia
entre o livro do profeta Malaquias (com a promessa do precursor do Messias em
Ml 4.4-6 e 3.1 até o nascimento de Cristo (com a citação em Mateus 3.1 sobre o
cumprimento da profecia de Malaquias), com períodos sequenciais Babilônico,
Persa, Grego, Macabeu e Romano. Nestes anos cessou a revelação bíblica, com
nenhum profeta levantando-se em nome de Deus.
A tribo de Judá
sobreviveu a todos estes períodos, pois no cativeiro babilônico puderam
continuar a adorar a Deus nas sinagogas e cessar a tendência a adoração de
ídolos apresentada pelos conquistadores posteriores. No período babilônico
continuaram com alguns serviços religiosos, tinham sacerdotes, jejuavam,
cultuavam a Deus, liam o Antigo Testamento e oravam na sinagoga. Ocupavam-se da
lavoura e pecuária, tornando-os bons negociantes, tanto que, quando os persas
deram liberdade aos judeus permitindo-os voltarem a sua terra, muitos
permaneceram na Babilônia, Egito, etc. São chamados judeus da diáspora (ou
dispersão). A primeira data para o cativeiro babilônico pode ter sido 605 a.C
e, em 536 a.C., sob a proteção de Ciro (persa) os judeus puderam voltar a
Jerusalém. No chamado “Período Grego” temos o tempo de dominação da Macedônia
no mundo de então, estendendo-se desde Felipe, passando por Alexandre, que
derrotou os persas e fundou Alexandria no Egito, após conquistar a Siria
(Fenícia) e Jerusalém. Alexandre levou a cultura e arte gregas aos vencidos,
com a adoção do grego como língua que se espalhou pelo império, de modo os
povos falavam duas línguas: sua língua natal e a grega. Isto deu certa
uniformidade ao mundo, facilitando o intercâmbio entre os povos e que foi
positivo para a pregação do Evangelho. O governo de Ptolomeu I (uma ds divisões
do império de Alexandre) encampou a Palestina e permitiu que os judeus
emigrassem para o Egito com terras mais férteis. Deu um bairro aos judeus e
permitiu-lhes ter um governo próprio. No período de seu filho (Ptolomeu II)
apareceu a Septuaginta (tradução do Antigo Testamento do hebraico para o
grego), provavelmente começada em Alexandria. Sob os persas e gregos, os judeus
gozaram de certa liberdade de culto e política, dando certa consciência de
soberania e resistência, demonstradas nas guerras macabéias (resistência dos
judeus aos conquistadores). Porém, os romanos, que já haviam conquistado o
território latino do ocidente e depois Cartago (no norte da África), sendo
insaciáveis em suas conquistas, planejando a conquista da bacia mediterrânea. O
poder romano em Israel, no período interbíblico que nos interessa, foi de 63
a.C a 4-6 a.C (provável ano do nascimento de Jesus). Foi desta maneira que Deus
preparou o mundo para receber a Jesus Cristo na plenitude do tempo (paz romana,
cultura grega, tradição religiosa da Judéia).
O Anexo 2 mostra o império romano e a
predominância das línguas latim e grego e cada região.
2.2
A Igreja de Jerusalém
Na
Igreja Primitiva o mundo romano era também um mundo grego, já que Roma
conquistou militarmente os gregos e os gregos conquistaram intelectualmente os
romanos. A migração dos judeus por todo império romano com as sinagogas
passando a representar sua presença nas principais cidades, temos a mensagem do
Evangelho dirigida inicialmente a Igreja de Jerusalém e esta se tornando o polo
de dispersão para os judeus da diáspora (dispersão pelo império romano) após o
Pentecostes.
Conforme
explanado no ítem anterior, as condições ambientais favoreceram o início da
igreja. A presença do termo hebraico Qahal (Deuteronômio 23.1-3 e Ne 13.1) como assembléia ou convocação com ênfase
religiosa, ou seja, uma convocação feita por Deus até a Ekklesia, como assembléia
do Povo convocada para decidir ou deliberar sobre algum assunto (idéia de
convocação é o objetivo da Igreja de Jesus Cristo). Assim, toma corpo a definição
de Igreja como Igreja Local: como a reunião de pessoas nascidas de novo,
regeneradas pelo Espírito do Senhor, batizadas em nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo, que se reunem em determinados lugares para adorar ao Deus vivo,
e promover os fins do Reino de Deus na terra (Mt 16.18).
Mas em Atos 2, temos o nascimento da Igreja no tempo
e espaço, a torre de Babel invertida. A descida do Espírito Santo em
Pentecostes na reunião de todos no mesmo lugar teve como características o
ruído como de um vento (Espírito Santo) em At 2.2, línguas como fachos de fogo
(At 2.3) e línguas estranhas (At 2.4). Conforme At 1.8 o Batismo no Espirito
Santo (At 1.5) tem como foco o recebimento de poder para testemunhar sobre
Jesus e não sómente falar em línguas estranhas, que é um dom. Não é tão
importante conhecer tempos ou épocas quando ocorrerá a restauração, mas com o
recebimento de poder do Espirito Santo devermos ser veículos para o testemunho
de Jesus a todos os povos.
No início da Igreja, em Atos 2.42-47, vemos que
havia uma unidade inclusive de bens e também a esperança da vinda mais imediata
de Jesus. Havia também diversidade, pois judeus helenistas (gregos) que vieram
de diversas partes do império romano estavam juntos com judeus da Palestina.
Com esta condição, em Atos 6 vemos certo conflito quando as viúvas dos judeus
gregos sentiram preteridas, o que pode ter levado a escolha de judeus da
dispersão como diáconos (um deles era prosélito ou gentio convertido ao
judaísmo). Esta diversidade indicava todo um contexto para que os apóstolos
saíssem para o mundo para a disseminação do Evangelho.
Pouco a pouco e a partir do enfoque do parágrafo
anterior, a Igreja de Jerusalém passa a ser dirigida pela família de Cristo e
os discípulos vão se espalhando pelo mundo levando o Evangelho. Em Gálatas 2.9,
vemos um posicionamento estratégico importante da Igreja Primitiva,
estabelecendo um governo da Igreja de Jerusalém com Tiago, Pedro e João, com a
missão de levar o Evangelho para os judeus circuncidados e Paulo e Barnabé com
a missão de levá-lo aos gentios. A erudição (transito com gregos, romanos e
judeus) e o o livre acesso de Paulo pelo império como cidadão romano
facilitaram a comunicação do Evangelho fora da Palestina.
2.3
A Igreja Apostólica e Seus Lideres
Pedro
Pedro
surge como o personagem principal nos primeiros quinze capítulos de Atos. Em
Pentecostes, que marca o início da Igreja, prega um sermão inspirado pelo
Espirito Santo, que resulta em 3000 conversões. Pedro realizou milagres,
desafiou as autoridades de Jerusalém e estabeleceu os diáconos permitindo aos
apóstolos a pregação da Palavra. No Concílio de Jerusalém (49 d.C) em At 15.6
faz uma defesa brilhante em favor da não distinção entre gentios e judeus, o
que permitiu o envio pela Igreja Primitiva de Paulo e Barnabé a Antioquia da
Siria, igreja cuja independência fora respeitada e que também serviu para
receber judeus após a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Não sabemos o fim da
vida de Pedro, mas a melhor evidência é que tenha sido martirizado e morto nas
perseguições do então imperador Nero por volta de 68 d.C. Não sabemos com
certeza como morreu Pedro, mas João 21.18-19 mostra que sua morte teria o
gênero de glorificar a Deus (crucificação ?).
João
É
considerado um dos principais lideres da Igreja Apostólica e esteve junto com
Pedro pregando Jesus como o Messias, exercendo a supervisão geral da igreja de
Samaria (At 8.14-25) e dando ênfase ao Espírito Santo. Apocalipse foi escrito
provavelmente no inicio da década de 90, no exílio em Patmos durante o período
do imperador romano Domiciano, registrando ali as visões proféticas sobre a
segunda vinda de Cristo e o final dos tempos. Existem indícios que João tenha
sido libertado do exílio entre 96 e 98 d.C, com evidências de que tenha se
fixado em Éfeso, morrendo de morte natural.
Provavelmente nesta cidade treinou os pais apostólicos que seriam
lideres no segundo século, como Policarpo, Pápias e Inácio. Por esta mentoria,
o próprio João considerava-se presbítero (abertura de 2 e 3 João). Seu
evangelho tem relação de sómente 8% com os evangelhos sinóticos de Mateus,
Marcos e Lucas, sendo o restante informações exclusivas (com relevância ao
ensinamento sobre divindade de Jesus (Jo 1.1-18) e o grande “EU SOU” (Jo 8.58).
Paulo
Paulo
era eclético e tomava como vantagem seu conhecimento de três grandes tradições:
na religião era judeu, na cultura grego e na política romano. Pode ser que seu
nome tenha sido dado em homenagem a Saul, primeiro rei de Israel, também
benjamita. Era fariseu da escola de Jerusalém, dirigida por Gamaliel (At 22.3),
tinha familiaridade com escritores gregos (At 17.28) e uso de argumentação
grega (Rm 2.1 e 3.20). Como fariseu perseguiu aos que eram “do Caminho”, mas no
caminho para Damasco teve um encontro com Jesus. Paulo foi separado por Jesus
como o missionário dos gentios (At 22.21).
Sua facilidade de trânsito no império e sua erudição permitiam que se
expressasse com públicos distintos. Em suas viagens, Paulo visitou a Ásia
Menor, Grécia, Macedônia (que abriu o evangelho ao atual continente europeu) e
provavelmente chegou até a Espanha. Provavelmente foi também vítima da
perseguição ordenada por Nero e decapitado em 68 d.C.
Com a
morte de Pedro, Paulo e João, a liderança passou a nova geração, chamada de
pais apostólicos.
2.4
Patrística: Os Pais Apostólicos, os Apologistas, os Polemistas e os Teólogos
Os pais
apostólicos ocuparam o espaço deixado pelos três principais lideres Pedro, Paulo
e João e alguns foram discípulos de João, conforme relatado no ítem anterior
(Policarpo, Pápias e Inácio). Os pais da igreja do segundo século podem ser
divididos em 3 grupos:
- Pais
Apostólicos (devocional e edificação): 95-150 d.C
- Apologistas e
Polemistas (defesa da fé e ataque ao erro): 150-300 d.C
- Teólogos
(inicio da teologia sistemática): 300-600 d.C
Estes períodos
abrangem o que chamamos de Patrística ou os estudos dos lideres e teólogos
cristãos do II século até o VII século.
Pais
Apostólicos
Os textos deixados
pelos pais apostólicos foram os primeiros escritos pós-Novo Testamento e , tais
como o Didaquê (ensino dos doze apóstolos, que provavelmente não foram escritos
pelos 12 apóstolos), I e II Epístola de Clemente aos Coríntios (doutrinária), as
7 epístolas de Inácio a Antioquia (doutrinária) e Epístola de Policarpo de
Esmirna (doutrinária). Focalizaremos abaixo os principais:
- Clemente de
Roma (30-100 d.C): era bispo ou presbítero de Roma e lidou com
problemas na cidade de Corinto como divisão e amargura (a exemplo do que
acontecia quando Paulo escreveu a esta igreja 40 anos antes). Exortou aos
coríntios a exercer amor, paciência, humildade e obediência à liderança da
igreja. Neste último ítem alertou que os presbíteros haviam recebido a
autoridade dos apóstolos e estes de Cristo. Esta carta aos coríntios é
muito importante por ser o mais antigo exemplar da literatura cristã fora
o Novo Testamento.
- Inácio (I e
II séc. d.C): era bispo de Antioquia da Síria. Foi preso e
martirizado pelos romanos por seu testemunho cristão. Durante sua viagem a
Roma para ser martirizado recebeu visitantes das igrejas pelo caminho e
escreveu cartas antes de sua morte. Na carta aos romanos apelou para que
não tomassem providências para evitar seu martírio, pois queria tornar-se
o “pão puro de Cristo” a ser triturado pelos dentes das bestas. Nas cartas
(escritas por volta de 110 d.C) Inácio alerta sobre as heresias que
ameaçavam a paz e unidade das igrejas. Enfatiza a obediência ao bispo como
forma de manter a unidade e evitar a heresia.
- Policarpo (70-155
d.C): foi discípulo direto de João e bispo de Esmirna. Escreveu uma
carta aos filipenses, relembrando a carta escrita por Paulo. Foi
martirizado em 155 d.C, tendo sido apunhalado e queimado em uma estaca. No
julgamento negou-se a falar mal do Cristo a quem tinha servido. Foi uma
testemunha valiosa da vida e obra da igreja do segundo século, pois
recebeu informações diretas dos apóstolos, principalmente João. Exortou a
uma vida virtuosa, às boas obras e a firmeza mesmo a preço de morte. Suas
60 citações do Novo Testamento atestam profundo conhecimento das epístolas
de Paulo (citou 34 vezes) e outros livros do Novo Testamento. Não estava
interessado em administração da igreja e sim fortalecer a vida diária
prática dos cristãos.
Apologistas
A apologia defende
um ponto de vista, no caso do cristianismo a fé no Senhor Jesus. Com a igreja
entrando no segundo século, houve necessidade de dirimir os erros na
interpretação das Escrituras. Estes erro incluiam em misturar o cristianismo
com a filosofia grega, judaísmo e crenças orientais que atacavam as doutrinas
cristãs sobre a pessoa de Jesus e suas obras. As críticas surgiam porque os
cristãos recusavam-se a adorar o imperador e os deuses greco-romanos, acusações
sobre a ceia do Senhor e a falta de entendimento do amor da igreja primitiva.
As principais
heresias dentro e fora da igreja foram:
- Ebionitas
(70-135 d.C): não sabemos a etimologia da palavra nem o
fundador desta heresia. Seus membros eram judaizantes e pregavam que Jesus
era um homem comum adotado por Deus no batismo (adocionismo). Ensinavam
que Jesus era o sucessor profético de Moisés e reformador do judaísmo e da
lei. Seguiam a lei de Moisés.
- Gnósticos: foi a maior
das ameaças filosóficas, chegando a sua maior influência ao redor do ano
150. Paulo parece ter enfrentado uma forma incipiente de gnosticismo em
sua carta aos colossenses. A tradição cristã associou a origem do
gnosticismo a Simão Mago, a quem Pedro teve que repreender duramente (At
8.9). Tinham um conceito dualista da realidade, concebendo um mundo
material mau e outro imaterial, bom. Para os gnósticos era inconcebível
que um Deus bondoso pudesse ter criado o mundo material maligno. Afirmavam
que uma “fagulha divina” ou emanação de Deus havia criado o universo físico.
Diziam que Jesus não tinha um corpo físico e sim aparentemente físico.
Para os gnósticos, Deus concedeu sómente a uma pequena elite este
conhecimento (gnose). O gnosticismo não considerava a ressurreição do
corpo, pois sómente a alma era boa e a salvação sómente espiritual.
- Marcionismo
(144 d.C): para Marcião existiam dois deuses: o Criador (Antigo Testamento,
que era mau) e o Redentor (Novo Testamento, que era bom). Com esta teoria,
Marcião desenvolveu seu próprio cânon das Escrituras e, por ser rico e
influente, estabeleceu uma igreja rival em Roma, que durou por vários
séculos.
Os apologistas
dividiam-se em orientais e ocidentais:
Apologistas
Orientais (comparação com religiões pagãs para mostrar a superioridade)
·
Justino Mártir (100-165 d.C): foi o principal
apologista do séc. II. Era filho de pais pagãos e um filósofo em busca de uma
filosofia que o satisfizesse. Não encontrou. Um dia um senhor o encaminhou a
Bíblia como a verdadeira filosofia e ele encontrou a paz que buscava aos 33
anos. Abriu uma escola cristã em Roma, mas seu ministério foi itinerante
buscando apresentar a posição filosófica superior do cristianismo. Condenou
como heresia o conceito de Marcião sobre Deus e defendeu o Antigo Testamento
como Palavra de Deus e o Novo Testamento como autoridade íntegra. Escreveu duas
apologias ao governo romano com uma brilhante defesa do cristianismo como
superior a qualquer religião ou filosofia pagãs. Defendeu junto aos judeus que
Jesus era o Messias profetizado no Antigo Testamento. Em uma viagem a Roma em
165 d.C justino foi preso e se recusou a negar sua fé, sendo decapitado com outros seis companheiros.
- Atenágoras: foi
professor em Atenas e se converteu pela leitura da Bíblia. Em 177 escreveu
a obra “Súplica pelos Cristãos” refutando as acusações de ateísmo feitas
contra os cristãos e demonstra que os deuses pagãos eram criação humana e
culpados das imoralidades de seus seguidores.
Apologistas
Orientais (maior ênfase à peculiaridade e finalidade do cristianismo)
·
Tertuliano (160 a 230 d.C): foi o principal
apologista da Igreja Ocidental. Era advogado e conhecia o grego e o latim
clássicos. No Apologeticum endereçado
ao governador romano de sua província nega as acusações feitas aos cristãos,
alegando serem eles leais cidadãos do império. Argumentava que a perseguição
era um fracasso, pois os cristãos aumentavam quanto mais lhes perseguiam.
Polemistas
Os Polemistas não
só defendiam a fé como os Apologistas, mas principalmente atacavam e acusavam
as heresias cristãs, principalmente contra o gnosticismo. Os apologistas
preocupavam-se com a segurança da Igreja, especialmente com a perseguição, com
a paz interna e a pureza. Baseavam-se mais nas profecias do Antigo Testamento e
utilizavam o Novo Testamento como fonte da doutrina cristã. Os principais polemistas
foram:
- Irineu de
Lyon (130 a 200 d.C): nascido em Esmirna, sobreu influência do bispo
Policarpo de Esmirna. Sua obra (Adversus Haereses – escrita entre 182 e
188) desenvolveu-se na literatura polêmica contra o gnosticismo pelo uso
das Escrituras e pelo desenvolvimento de um corpo de tradição. Utilizou em
seus argumentos os dois Testamentos, aludindo a quase todos os livros do
Novo Testamento, exceto quatro. Considerava Cristo como o centro da
Teologia e a base para continuidade entre a criação e a redenção. Foi
martirizado por volta de 202 d.C.
- Escola
Alexandrina: na segunda metade do século II abriu-se uma
escola em Alexandria para instruir os convertidos do paganismo ao
cristianismo, cujo primeiro diretor foi Panteno. Dois nomes sobressaem em
Alexandria e foram os sucessores de Panteno na escola de teologia cristã:
- Clemente de
Alexandria (155-225 d.C): dirigiu a escola de Alexandria entre
190 e 202 d.C. Aproximou a filosofia grega do cristianismo para que se
compreendesse que o cristianismo era superior e definitivo, retratado em
sua obra “Exortação aos Gentios”. Cristo é apresentado como verdadeiro
mestre que deixou regras para a vida cristã.
- Orígenes
(185 a 264 d.C): aluno de Clemente foi seu sucessor na escola
de Alexandria com apenas 18 anos, por sua competência. Ocupou o cargo até
231 d.C. Foi autor de 6000 pergaminhos. Sua obra “Hexapla” continha
várias versões hebraicas e gregas do Antigo Testamento em colunas
paralelas. Sua obra De Principiis (230 d.C) é considerada o primeiro
grande tratado de Teologia Sistemática.
- Escola
Cartaginesa: a mente ocidental, que predominou nesta escola,
estava mais interessada em problemas práticos da organização eclesiástica
e da teologia, do que uma teologia do tipo especulativo que predominava em
Alexandria. Dois nomes sobressaem em Cartago:
- Tertuliano: escreveu
sobre assuntos práticos e apologéticos. Propôs que os cristãos deveriam
se separar dos divertimentos, da imoralidade e da idolatria, próprios do
paganismo. Foi o fundador da teologia latina e o primeiro a estabelecer a
doutrina teológica da Trindade.
- Cipriano: nasceu no
começo do séc. III, recebendo boa educação em retórica e direito.
Converteu-se ao cristianismo em 246 d.C e cinco anos depois foi feito
bispo de Cartago, permanecendo por nove anos até ser martirizado em 258
d.C. Era um grande administrador e organizador. Considerava Tertuliano
seu mestre e fez uma clara distinção entre bispo e presbítero, colocando
o bispo como centro da unidade na igreja e garantia contra a divisão da
mesma.
Teólogos
e Concílios Cristãos
Com as mudanças
teológicas ocorrendo na Igreja em 300 d.C, as discussões sobre a natureza da
Trindade, a natureza de Jesus e a doutrina da Salvação direcionou a Igreja a
sistematizar as crenças e conseguisse um consenso sobre o ensino das
Escrituras. Neste período, é importante estudar a ocorrência de um fato que
mudou a condição dos cristãos de perseguidos no império romano: a ascenção de
Constantino.
Constantino e o
Édito de Milão (313 d.C)
Os cristãos foram
perseguidos por Nero sob acusação de serem anti-sociais, desleais ao imperador
e ateus. Nero culpou os cristãos pelo grande incêndio que consumiu a maior
parte de Roma. Em 250 d.C o imperador Décio decretou uma perseguição universal
aos cristãos. Em 303 d.C outra perseguição foi decretada pelo imperador
Diocleciano, onde as Escrituras foram queimadas e milhares de cristãos foram
encarcerados e muitos martirizados.
Constantino,
sucessor de Diocleciano, compreendeu que o Estado não podia destruir a Igreja
pela força e o melhor seria usar a Igreja como uma aliada para salvar a cultura
clássica. Este processo de acordo com a Igreja começou quando ele tomou o
controle completo do Estado. Em uma batalha, em 313 d.C, quando os inimigos
pareciam que o venceriam, Constantino teve uma visão de uma cruz no céu, com as
palavras em latim: “com este sinal, vencerás”. Derrotou os inimigos na batalha
da ponte Mílvia sobre o rio Tibre. A visão pode ter ocorrido, mas o
favorecimento da Igreja foi um expediente do próprio Constantino, que continuou
como sacerdote do paganismo e também lider cristão (atuou nas duas vertentes).
Assim, com esta conversão pagã, a Igreja passou a ter os benefícios do Estado e
uma grande multidão se converte. Transformou templos pagãos em Igrejas
rápidamente e as pessoas passaram a ter uma nova religião. As igrejas passaram
a ter pompa e incenso, porque o imperador vinha sempre até a igreja. Usavam as
imagens de fatos da Bíblia e as adoravam. Em 313 d.C, garantiram a liberdade de
culto pelo Édito de Milão (Constantino não foi o responsável pela oficialização
do cristianismo, só colocou-o como uma religião permitida). Fundou em 330 d.C a
cidade de Constantinopla e tornou-se o centro do poder político no oriente e o
bispo de Roma. Constantino estabeleceu o domingo como o dia principal do
calendário eclesiástico com culto cívico e religioso e também tornou a festa de
natal uma prática regular no dia 25 de dezembro (dia do sol invicto) e não a
data mais provável do nascimento de Jesus (talvez no mês de Agosto, tomando-se
a provavel data do recenseamento de Jesus e sua apresentação no templo).
Os filhos de
Constantino continuaram a política de favorecimento da Igreja, até que houve um
retrocesso com a ascenção de Juliano ao trono imperial em 361 d.C (que era
seguidor do Neoplatonismo). Ele retirou os privilégios da Igreja Cristã e
restaurou a liberdade plena de culto. Mas seu reinado foi curto e os reis
seguintes continuaram na prática de assegurar privilégios à Igreja, até que o
cristianismo se tornasse a religião oficial e exclusiva do império em 380 d.C
por Teodósio I. Qualquer pessoa que seguisse outra religião receberia punição
do Estado.
A associação com o
Estado trouxe a Igreja benefícios, mas também desvantagens. O governo, em troca
de privilégios, da proteção e da ajuda que oferecia, achava-se no direito de
interferir em assuntos espirituais e teológicos. A Igreja ganhou poder, mas se
tornou uma perseguidora do paganismo do mesmo modo que as autoridades
religiosas pagãs tinham agido em relação aos cristãos.
Período dos
Teólogos
Os nomes de
Atanásio e Agostinho sobressairam-se neste período de solidificação da teologia
cristã.
- Atanásio de
Alexandria: era secretário pessoal de de Alexandre (bispo de Alexandria).
Ensinou que as pessoas da Trindade eram co-iguais, co-essenciais e co-eternas
e estabeleceu uma forte conexão entre as doutrinas da Trindade e da
Salvação. Argumentou que Deus havia criado a humanidade à sua imagem, mas
devido ao pecado a humanidade abandonou a Deus. Uma nova criação seria
necessária e só Deus poderia ser o Salvador da humanidade decaída, não
sendo possível um ser humano providenciar a redenção. Interligou a
divindade de Jesus Cristo e a salvação da humanidade decaída.
- Agostinho de
Hipona (354 a 430 d.C): passou por outras religiões e tinha mãe cristã
e pai pagão. Não gostava do cristianismo pelo grego pobre (koiné), pois
apreciava o grego clássico. Converteu-se e se tornou o maior filósofo
cristão. Tornou-se bispo de Hipona. Deixou mais de 100 livros, 500 sermões
e 200 cartas, tratando de assuntos espirituais e práticos de um
administrador eclesiástico. Escreveu a “Cidade de Deus”, considerado por
muitos sua maior obra, sendo esta cidade formada pelos seres humanos e
celestiais unidos no amor de Deus e interessados em Sua Glória. A Cidade
da Terra é composta pelos seres que, amando apenas a si mesmos, procuram
sua própria glória e seu próprio bem. Agostinho é visto pelos protestantes
como um precursor das idéias da Reforma com sua ênfase sobre a salvação do
pecado original e atual como resultado da graça de um Deus soberano que
salva aqueles que elegeu. Porém também trouxe alguns erros para o
pensamento cristão, como a doutrina do purgatório.
Concílios e as
Principais Questões Teológicas até 451 d.C
Com o advento do
período dos teólogos, questões teológicas de relevância, como a relação entre
Cristo e o Pai, as naturezas de Cristo e a natureza humana. O Anexo 3 mostra as principais questões
teológicas da Igreja neste período.
O método adotado
pela Igreja para resolver as diferenças fundamentais de interpretação sobre o
significado da Bíblia foi a realização de concílios ecumênicos ou universais,
geralmente convocados ou presididos pelo imperador romano.
- Tema
Principal: A Natureza de Jesus Cristo
Concílio: Nicéia (325 d.C)
Controvérsia
sobre o ensino do sacerdote Ário que, influenciado pelo racionalismo grego,
argumentava pelo monoteísmo absoluto, negando a divindade de Jesus, pois Deus
jamais se identificaria verdadeiramente com a humanidade. O imperador
Constantino convocou o Concílio de Nicéia em 325 d.C, condenando abertamente Ário
como herege e argumentando que Jesus era da mesma natureza do Pai.
- Tema Principal: A Humanidade de
Cristo
Concílio: Constantinopla
(381 d.C)
Tratou
de vários assuntos, entre os quais o ensino de Apolinário, que negava a
humanidade de Cristo, ensinando que a mente de cristo não era humana, só
divina. O Concílio de Constantinopla condenou Apolinário por heresia porque sua
opinião afetava a doutrina da salvação. O Concílio concluiu que Jesus precisava
ser completamente humano e completamente divino.
- Tema
Principal: O homem e o Livre Arbítrio
Concílio: Éfeso (431 d.C)
O
Concílio de Éfeso examinou o Pelagianismo, que ensinava que o homem tem o livre
arbítrio e alguns conseguem viver sem pecado, contrário ao fato do homem não
poder fazer nada sem a graça de Deus. Pelagio, bispo britânico, ensinava um
sistema que negava o pecado original e a necessidade da graça divina para
salvação e foi condenado pelo Concílio de Éfeso.
- Tema
Principal: A Natureza de Jesus Cristo
Concílio: Calcedônia (451
d.C)
Os
mais de 400 lideres eclesiásticos deste concílio foram convocados para debater
sobre as duas naturezas de Jesus (divina e humana). Neste concílio foi emitida
uma declaração que proclamou Jesus como Deus e homem numa pessoa. Assim, a
salvação está garantida a quem professa a fé em Jesus, porque seu sacrificio
foi tanto do Deus Salvador quanto do homem identificado com a humanidade.
3. A Igreja Medieval: de 476 d.C a 1453 d.C.
A Idade Média
inicia-se com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C, tomado pelos
bárbaros, até a Queda de Constantinopla (Império Romano do Oriente) em 1453
d.C, cidade tomada dos cristãos pelos turcos.
Existem várias
causas apontadas para a queda do Império Romano. Algumas infundadas, como:
- A
cristianização de Roma, tornado os romanos menos belicosos e as legiões
desguarnecidas com o pacifismo cristão (esta causa não é verdadeira).
- Perversão e
corrupção do paganismo, porém também não é verdadeira, pois o paganismo
era hierarquizado e organizado.
Porém, estão entre
as causas principais da queda do império:
- Enquanto Roma
conquistava, tinha recursos e escravos, porém delimitou as fronteiras e
não conseguiu mais escravos, contratando os bárbaros para as legiões.
- O fenômeno de
barbarização ou visão idealizada dos bárbaros, com casamentos mistos,
presença nas legiões e o conhecimento dos bárbaros na manufatura de armas.
- Inflação
galopante e impostos altos oriundos dos grandes latifúndios com
mão-de-obra escrava.
- As invasões
bárbaras, que ocorreram simultâneamente na Índia e na China, com
representantes na Gália (Francos), Bretanha (Anglos), Saxões Alamanos
(Alemanha), Lombardos (Itália), Ostrogodos (Espanha), etc. Houve um
sincretismo com o paganismo árabe (prática da confissão pelo catolicismo
era um costume árabe). O Anexo 4
mostra as invasões bárbaras e a ruptura do império após 476 d.C.
Com o
esfacelamento do império romano houve um vácuo na Europa Ocidental. A Igreja
Católica já como instituição ocupou o espaço para organizar a política,
economia e sociedade. Ao mesmo tempo o islamismo expandiu-se pelo Mediterrâneo,
originando o movimento das Cruzadas. A Igreja Católica crescia em influência e
poder, mas tornou-se corrupta e ineficiente.
3.1
O Papado
O termo papa
(=papai ou =patriarca no oriente) é afetivo e dado aos bispos. Por
contingências históricas tornou-se o termo usado para o lider máximo da Igreja
Católica Romana. As contingências históricas incluem:
- Haviam 5
cidades que representavam o cristianismo (Pentápolis): Roma (capital do
ocidente), Constantinopla (capital do oriente – que depois tornaram-se
ortodoxos), Jerusalém (escola teológica, mais simbólica), Antioquia
(teologia e centro missionário) e Alexandria (teologia e mais filosófica).
- Dentre as 5
cidades Roma sai na dianteira, pois tinha uma posição mais equilibrada e
eclética e foi sendo respeitada como lider. Já Antioquia tinha uma
interpretação das Escrituras mais próxima das igrejas protestantes atuais
(gramático-histórica) e Alexandria com uma posição mais alegórica do que
literal das Escrituras.
- A queda de Roma
com a invasão dos bárbaros esfacelou o império, porém estes povos foram se
convertendo e apoiando a Igreja com fortalecimento dos papas. A influência
papal começou a ser teológica e política.
Para a
justificativa dos papas, a Igreja utilizou Teleologia (busca pelos fins ou
propósito), buscando no passado uma justificativa para o fato atual do papado.
Utilizou Mt 16.18 como o fundamento do papado, com a justificativa de que Pedro
(o primeiro papa que morreu em Roma, onde foi instituída a Sé do Catolicismo) seria
a pedra fundamental da Igreja e teria as chaves para ligar e desligar. Porém a
pedra fundamental da igreja é Jesus Cristo e Pedro, como todo discípulo, exerce
o poder de abrir a porta da salvação a judeus e gentios.
Gregório I (590 a
604 d.C) é considerado o primeiro papa, embora tenha recusado o título de papa,
organizando todo o sistema de governo papal na idade média. Padronizou a
liturgia e a teologia da Igreja Romana e seus escritos apoiaram inicialmente as
doutrinas de veneração de Maria, o purgatório e oração aos santos mortos. Este
papa fundamentou o catolicismo romano enviando missões às tribos germânicas e
norte da Europa, principalmente Inglaterra para evangelizar os bárbaros.
Pepino, o Breve (714 a 768 d.C), antigo rei dos francos concedeu ao papa uma
grande extensão de terra no centro da Itália, transformando a Igreja em um
poder político da Europa.
3.2
Missões nas Tribos Germânicas e Irlanda
O Império Romano
foi sendo substituído, após as invasões bárbaras, por reinos germânicos independentes,
que logo foram alcançados pelas missões da Igreja. O maior missionário foi
Bonifácio (672 a 754 d.C), que buscou o apoio do bispo de Roma (papa) e do
governador dos francos, levando milhares de pagãos germânicos a Cristo,
plantando um grande número de igrejas. Trouxe instrução, disciplina e pureza ao
clero, organizando a igreja e frisando a obediência, serviço e o alcance de
outros povos (enviou voluntários a Inglaterra). Estabeleceu mosteiros pela
Alemanha e, sendo monge beneditino, enfatizava a pobreza, castidade e
obediência a Cristo. Os monges beneditinos faziam cópias das Escrituras e dos
clássicos cristãos. Bonifácio conseguiu a proteção do rei dos francos, que
culminaria em uma poderosa aliança entre a Igreja e o Estado.
Na Irlanda o
trabalho missionário foi realizado por Patricio (389 a 461 d.C), após Roma
abandonar a Bretanha, por considera-la de dificil defesa, sendo este vácuo
preenchido pela Igreja. Patricio ganhou os lideres das tribos irlandesas,
amenizando as guerras tribais e garantindo a proteção para o avanço do
cristianismo na Irlanda.
3.3
O Islamismo
A Arábia
pré-islâmica do deserto era composta por tribos pobres de beduínos nômades, com
a economia baseada em pequenos rebanhos. Sua religião era o animismo (crenças
em espíritos ou almas, gênios como Aladim), fetichismo (objetos com poderes
mágicos) e politeísmo. Já a Arábia pré-islâmica do litoral era composta por
cidades como Meca, que eram entrepostos comerciais e a economia baseada em
agropecuária e agricultura desenvolvidas.
Maomé (570 a 632
d.C) era orfão e de familia pobre e, aos 15 anos, trabalhava no comércio de
caravanas como lider. Teve contato com o Cristianismo, Judaísmo e o
Zoroastrismo (monoteísta da Pérsia fundada por Zoroastro com concepções
religiosas parecidas com o cristianismo e judaísmo). Nestas bases foi escrito o
Alcorão, que interpreta Jesus como um profeta e Maomé como o profeta de Deus
(revelado pelo anjo Gabriel).
Maomé encontrou em
Meca resistência por pregar a fé em Alá e, no ano 622 d.C, fugiu (hégira) para
Medina. O ano 622 d. C é considerado o ano zero para os muçulmanos.
Reconquistou Meca em 630 d.C implantou o islamismo, chegando ao Oriente Médio,
Norte da África e Europa (península ibérica, de onde são expulsos no séc. XV).
A expansão é reduzida pelas divisões internas (xiitas e sunitas).
3.4
O Império Carolíngio, Carlos Magno e o Feudalismo
O império
carolíngio teve como objetivo tentar novamente centralizar o Império,
fragmentado pelas invasões bárbaras. Teve origem na dinastia merovíngia com
Clóvis (466 a 511 d.C) que unificou os francos e se converteu, havendo uma
aliança entre os francos e a Igreja. Porém os filhos de Clovis não tiveram a
habilidade do pai e passaram o controle do Estado aos prefeitos do palácio, que
iniciaram a dinastia carolíngia. Carlos Martelo (689 a 741) ocupou as funções
de prefeito após se pai, Pepino de Heristal. Derrotou os muçulmanos na batalha
de Tours em 732 d.C, detendo seu avanço para o Ocidente.
O filho de Carlos
como prefeito do palácio foi Pepino, o Breve (714 a 758 d.C), tomando o título
de rei carolíngio. Conforme já citado, tornou-se rei dos francos com a benção
do papa, doando terras do centro da Itália (“Doação de Pepino”) e iniciando
assim os Estados Papais. Constantino também havia feito no passado concessões e
privilégios de terras ao bispo de Roma, conhecida como “Doação de Constantino”,
como retribuição de cura e de sua conversão.
O filho de Pepino,
o Breve, foi Carlos Magno (742 a 814 d.C), tornando-se o imperador do ocidente.
Venceu os saxões e conseguiu manter os
islâmicos. Conquistou a Itália ao sul de Roma, quase toda a Alemanha e toda a
atual França, tentando integrar novamente o império romano. O império de Carlos
Magno foi marcado por progresso cultural e a posição papal junto aos
governadores seguintes foi fortalecida pelo fato do papa Leão III ter coroado
Carlos como imperador dos romanos. Carlos Magno estabeleceu a política de
condados (condes), marcas (marqueses) e ducados (duques).
O declinio do
império carolíngio pela fraqueza dos sucessores de Carlos Magno apressou o
surgimento do feudalismo. O feudalismo surgiu pela incapacidade do governo
central em exercer poder sob suas áreas de controle, havendo um declínio da
vida urbana e do comércio, forçando o povo a voltar ao campo em busca da sobrevivência.
O poder público vai para as mãos de particulares com posses sobre as terras,
havendo uma organização mais horizontal que vertical e pouca mobilidade social.
A influência do feudalismo na Igreja foi enorme, já que esta possuia uma grande
porção de terras, doadas por homens penitentes em busca de justificação para
uma vida de pecado. Estas doações ficaram nas mãos de abades e bispos, o que
secularizou a Igreja e desviou a atenção dos interesses individuais para os
mundanos.
3.5
Igreja Católica Oriental e Ocidental
Estes dois ramos
da Igreja Católica estavam sujeitos a ambientes diferentes. Sem a interferência
do imperadores após as invasões bárbaras, a Igreja Ocidental ganhou poder por
estar organizada e conseguir lidar com o caos deixado pelas invasões. Já a
Igreja Oriental sofreu interferência do chefe do império do oriente e estava
lançando mão de recursos para lutar contra o islamismo.
A Igreja Católica
Ocidental foi assumindo ideologias e doutrinas (ex.: celibato, data do natal,
imagens), porém a Igreja Católica do Oriente não admitia estas doutrinas, com
os papas excomunhando-se uns aos outros, separando-se entre ortodoxos e romanos
ou Igreja Católica Romana e Igreja Ortodoxa Grega em 1054 d.C., tendo estas
duas igrejas caminhado em direções distintas após este momento.
3.6
O Movimento Religioso/Militar das Cruzadas
Cruzadas foi um movimento
religioso/militar que objetivou livrar Jerusalém dos turcos seljúcidas. Este
povo era da própria região e permaneceram ali, impedindo a peregrinação cristã
a Jerusalém. Na luta, o clero e os nobres formaram um pelotão e os pobres
outro. Quem participasse das cruzadas receberia indulgência plena do papa. As
causas das Cruzadas incluíam também o medo do final dos tempos (boatos
apocalípticos) e o aumento demográfico.
O movimento
dividiu-se em Cruzadas Orientais, com o objetivo de ocupar Jerusalém e Cruzadas
Ocidentais com o objetivo de combater os hereges. O papa Urbano II convoca a
primeira cruzada em 1095 d.C.
Houve sete
cruzadas principais, além de outras menores, com muitos guerreiros cristãos
compondo os exércitos, mas sómente a primeira cruzada (1095 a 1099 d.C) foi bem
sucedida. Na segunda cruzada, Saladino reconquista as terras para os
muçulmanos. Na terceira cruzada, ou cruzada dos reis, não foi bem sucedida mas
abalou a Saladino (lutou Ricardo Coração de Leão da Inglaterra). A quarta
cruzada teve objetivos comerciais (abrir rotas para os mercadores de Veneza),
provocando um abismo entre cristãos orientais e ocidentais. A quinta cruzada
não teve objetivo de chegar a Jerusalém e sim ao Egito, mas foram vencidos. A
sexta cruzada ganhou territórios como Belém e Jerusalém, mas acabou perdendo.
Na sétima cruzada também não foi bem sucedida.
As Cruzadas
tiveram impacto em vários aspectos na Europa cristã: no aspecto cultural
traziam do oriente novos alimentos e roupas; no aspecto educacional traziam
livros do mundo antigo preservados pelos muçulmanos; o comércio reviveu e a
igreja ganhou mais riqueza, surgindo uma nova classe que tomava conta do
ocidente, a classe média.
3.7
Precursores da Reforma (Pré-Reforma)
Antes da Reforma
(como veremos no ítem 4), houve tentativas de parar o declínio do prestígio e
poder do papa através de reformas de várias espécies. O papado era corrupto e
extravagante e estava na França e não em Roma, levando grupos de reformadores
(com Wycliffe, Hus e Savonarola), humanistas bíblicos e concílios reformadores
a buscarem formas de produzir um reavivamento espiritual dentro da Igreja
Católica Romana. O Anexo 5 mostra as
heresias medievais e os precursores da Reforma, ou pré-Reforma.
Entre 1309 e 1439
a Igreja teve um declinio moral com as exigências de celibato (contrários à
Bíblia), que provocaram casos de amor ilícito de sacerdotes com mulheres da
congregação (às vezes gerando filhos). A vida de luxúria oriunda da
feudalização da Igreja, com clérigos dedicando-se mais à vida secular do que
espiritual. As rendas dos papas eram obtidas através das rendas de suas
propriedades e outros pagamentos exigidos aos fiéis, além da corrupção e da
fraude.
Os reformadores
precursores da Reforma (cujo objetivo era fazer a Igreja voltar ao ideal do
Novo Testamento) foram:
- John Wycliffe
(1328 a 1384 d.C): acreditava na Bíblia como autoridade final para o
crente e que todo cristão deveria ter a oportunidade de lê-la. Como a
versão da Bíblia disponível estava em latim (Vulgata Latina), Wycliffe e
outros associados a traduziram para o inglês. Argumentou que Cristo, e não
o papa, era o cabeça da Igreja.
- João Huss
(1373 a 1415 d.C): leu e adotou as idéias de Wycliffe. Propôs reformar a
Igreja Romana na Boêmia, provocando a inimizade do papa. Como se recusasse
a se retratar foi queimado na fogueira por ordem do Concílio.
- Savoranola
(1452 a 1498 d.C): estava interessado na reforma da Igreja em Florença.
Foi monge dominicano, mas sua pregação contra a vida desregrada do papa
provocou sua morte por enforcamento.
4. A Igreja Moderna: 1453 d.C. a 1789 d.C
Na Idade Média a
política estava centrada na figura do imperador e do papa (força centrípeta). Na
Igreja Moderna, o contexto histórico e geográfico era o seguinte:
- Queda de
Constantinopla (1453): os muçulmanos invadiram o império até restar
sómente Constantinopla, que foi tomada pelos turcos otomanos e seu nome
foi mudado para Istambul. Com a queda, os russos se tornaram a principal
força cristã do oriente, com os czares usando politicamente a Igreja
Ortodoxa.
- Invenção da
Imprensa (1456): inventada no Ocidente por Johannes Gutenberg,
sendo a primeira obra reproduzida a Bíblia na versão Vulgata com 200
cópias. Durante a Reforma, muitas Bíblias, folhetos e livretos foram
distribuidos graças a Imprensa.
- O Humanismo e
a Renascença: o retorno aos valores clássicos greco-romanos
(mitologia grega, na música a tragédia grega), o homem como medida de
todas as coisas (humanismo) mas ainda criatura de Deus, conflitos
religiosos contra os sacramentos, indulgências e relíquias. Os humanistas
do norte voltaram à Bíblia nos originais e os humanistas do sul acentuaram
o estudo da literatura clássica e das línguas da Grécia e de Roma.
Renascença foi um período de reorientação cultural, trocando a compreensão
corporativa, religiosa e medieval por uma visão individualista, secular e
moderna.
- Grandes
Navegações e Expansão Colonial: navegadores portugueses, espanhóis e de
outras nações realizaram viagens marítimas durante os séculos XV e XVI. Os
pioneiros nos descobrimentos, Portugal e Espanha recorreram ao papa como
mediador do Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo ao meio entre
estas duas nações.
O Anexo 6 mostra um quadro-resumo dos
reformadores, que iremos estudar a seguir.
4.1
Reforma Luterana (Alemanha)
Marinho Lutero nasceu
em 1483 em uma rica família de mineiros de cobre na Alemanha (Eisleben).
Formou-se em Direito e, após uma tempestade em 1505, pediu ajuda a uma santa
católica para livrá-lo e ele se tornaria monge. Juntou-se a um claustro
agostiniano e fez votos de castidade e pobreza. Ordenado padre estava inquieto
com seus pecados e nem atos de
penitência (punia seu corpo) não acalmaram sua alma, considerando Deus como seu
juiz e não Salvador. Para que se acalmasse foi ordenado que estudasse as
Escrituras, sendo enviado a Universidade de Wittenberg onde completou seu
doutorado em teologia em 1512. Entre 1517 e 1519 encontrou a paz que procurava
através do livro de Romanos (Rm 1.17), quando entendeu que a justificação não
se dava pelas obras, mas sim pela fé. A Igreja vendia indulgências, que eram
pequenos pedaços de pergaminho, que garantiam o perdão dos pecados mediante
pagamento e também um confessor particular. Os sermões de Lutero condenavam as
indulgências e, em 31 de outubro de 1517, Lutero pregou 95 teses na porta da
capela do castelo de Wittenberg para que fossem debatidas, argumentando que as
indulgências não poderiam remover a culpa.
Entre os anos de
1517 a 1521 Lutero endureceu a oposição à Igreja e foi excomungado pelo papa
Leão X, mas queimou publicamente a bula papal. Rejeitava a transubstanciação na
ceia do Senhor e refrisou que a justificação provinha apenas pela fé e não
pelas obras. O novo imperador do Sacro Império Romano, Carlos V, ordenou que
ele respondesse às acusações na Dieta Imperial de Worms. Lutero reiterou sua
posição afirmando que sua consciência estava presa à Palavra de Deus.
Lutero foi
“sequestrado” por seus amigos e levado ao castelo de Wartburg, onde traduziu o
Novo Testamento do grego para o alemão. Neste ínterim, houve revolta na
Alemanha contra a Igreja Católica Romana, com remoção de estátuas religiosas e
expulsão de sacerdotes das Igrejas. Após um ano no castelo de Wartburg, Lutero
voltou a Wittenberg onde ensinou e pregou até o fim da vida. Casou-se em 1525
com uma ex-freira, Catarina Von Bora, com quem teve seis filhos. Modificou
melodias e cânticos antigos e transformou-os em hinos.
4.2
Reforma na Suíça (Zwínglio e Calvino)
Urich Zwínglio
nasceu em Wildhauss na Suíça em 1484, estudou em Viena (Austria) e Basiléia
(Suiça). Chegou a fé em 1516 por meio de pesquisa teológica. Em 1523 liderava a
Reforma de Zurique e convenceu o conselho da cidade a permitir o casamento do
clero, a abolição da missa, retirada de imagens e estátuas e o fechamento de
mosteiros. Casou-se com Anna Reinhart em 1522 e rompeu radicalmente com Roma.
Houve conflito com
os luteranos sobre a ceia do Senhor. Os luteranos não criam na
transubstanciação, mas na consubstanciação (Jesus estava presente em, com e sob
os elementos), e os seguidores de Zwinglio concluíram que os elementos que
representavam o corpo de Jesus eram simplesmente um memorial. A reforma de
Zwinglio foi política (Estado e Igreja reforçando-se um ao outro na obra de
Deus), dividindo a Suíça em cantões (estados) católicos e protestantes. Morreu
na batalha de Cappel (1531) como capelão das forças de Zurique, quando lutavam
contra cinco cantões católicos.
Com a morte de
Zwinglio, Calvino (1509 a 1564) preencheu a liderança da Reforma suiça. Nasceu
na França (1509) e estudou Teologia na Universidade de Paris e Direito na
Universidade de Orleans. Em 1520 uniu-se à causa protestante, fugindo de seus
perseguidores pela França Suiça e Itália quando escreveu “As Institutas da
Religião Cristã” contendo quatro livros de 80 capítulos, transformando-se na
teologia sistemática da Reforma.
Calvino foi para
Genebra, onde estabeleceu uma academia para treinamento de jovens da cidade,
além do cuidado aos pobres e idosos. A expansão do Calvinismo pelo mundo
ocidental ocorreu por Genebra estar estratégicamente localizada e abrigar
refugiados protestantes que se reuniam na cidade. O calvinismo é encontrado
hoje na Igreja Presbiteriana e alguns grupos batistas.
4.3
Os Anabatistas
Este grupo
enfatizava o batismo dos crentes em oposição ao batismo infantil (anabatista
significa “batizar de novo”), que era praticado pela Igreja Católica e por
grupos protestantes. Os grupos anabatistas mais respeitáveis foram os irmãos
suíços, os menonitas e os amish. Concordavam com os ensinamentos das Escrituras
como Trindade, justificação pela fé e expiação. Defendiam a Igreja unida por
laços fraternos em vez da Igreja estatal, que deveria estar separada do Estado.
Os cristãos deveriam viver em comunidade e compartilhar posses materiais,
defendiam o pacifismo.
Pode-se considerar
Conrad Grebel e Felix Manz como fundadores do movimento anabatista. Eles eram
discípulos de Zwinglio e o criticaram por seu relacionamento com o conselho da
cidade. Foram assim multados, aprisionados e martirizados pelas autoridades
suíças.
4.4
Reforma na Inglaterra
Na Inglaterra, a
obra de Wycliffe preparou o caminho para a Reforma inglesa, além de William
Tyndale (1494 a 1536) e Miles Coverdale (1488 a 1568) produziram traduções da
Bíblia precisas e disponíveis. Mas o rompimento com Roma se deu através do rei
inglês Henrique VIII.
Devido ao fato do
papa em Roma recusar-se a conceder a anulação do casamento de Henrique VIII com
Catarina de Aragão (Henrique VIII já tinha um caso e um filho com Ana Bolena),
este rompeu com Roma, removeu a Inglaterra da jurisdição do papa, confiscou
terras da Igreja Católica Romana e se autoproclamou chefe da Igreja na
Inglaterra (hoje Igreja Anglicana). Este fato gerou conflitos entre protestantes
e católicos que lutavam pelo controle. A filha de Henrique VIII, Elisabete I,
optou pelo caminho do meio, tornando a Igreja Anglicana protestante na teologia
e católica nos rituais.
Os puritanos foram
críticos de Elisabete I e desejavam a purificação da Igreja Anglicana,
completando a Reforma na Inglaterra. Foram expulsos da Igreja Anglicana e
muitos imigraram para a America do Norte.
4.5
Reforma na Escócia
A Escócia tinha
lealdade tanto com a Inglaterra como com a França. Os católicos que controlavam
a Escócia, temendo um avanço da Reforma, apelaram para a França. A marinha
francesa combateu os protestantes e levou de St. Andrews para a França muitos
deles, entre estes estava John Knox (1514 a 1572), que se recusou a
converter-se à doutrina católica, transformando-se em um revolucionário pela
causa de Cristo.
Foi liberto e
partiu para a Inglaterra unindo-se aos reformistas sob a aprovação do rei
Eduardo VI, que o admirava. Este rei morreu em 1553 e assumiu Maria Tudor
(católica e conhecida por “Maria, a sanguinária) se tornasse rainha e
perseguidora dos protestantes. Knox fugiu para a Alemanha e pastoreou uma
igreja em Frankfurt. Desenvolveu um relacionamento próximo a João Calvino e
outros reformadores e pastoreou em Genebra, ajudando a produzir a Biblia de
Genebra, uma das primeiras voltada ao estudo contendo notas, mapas e orações.
Retornou a Escócia, que estava à beira da guerra civil, em 1559 para liderar a
causa protestante. A guerra terminou em 1560 e o Tratado de Edimburgo, que
reconheceu o presbiterianismo.
4.6
A Contra-Reforma
A Contra-Reforma
foi a reação ostensiva da Igreja Católica frente ao Protestantismo. Um dos
instrumentos usados foi a Inquisição ou Tribunal do Santo Oficio, ficando a
cargo dos Dominicanos (Domini Cani=Cães do Senhor). Havia um corpo de
inquisitores, advogados de defesa e acusação, soldados, escrivães, carcereiros
e a ação se dava através de multas, confisco dos bens dos hereges, torturas e o
auto de fé (ato “misericordioso” para purificar através da queima da fogueira).
A presença dos
jesuítas foi marcante na Contra-Reforma. Fundada por Inácio de Loyola (1491 a
1556), a Compania de Jesus seguia o modelo militar com a missão de educar,
lutar contra as heresias e serem missionários. Conquistaram o controle de
partes da Alemanha e Europa Central para a Igreja Católica Romana. Utilizavam o
Index de Livros Proibidos (lista de livros que os católicos eram proibidos de
ler) e a Inquisição (que foi bem-sucedida na erradicação da ameaça protestante
na Itália, Espanha, Portugal e Bélgica). O papa Paulo III reconheceu os
jesuítas como ordem eclesiástica em 1540 e convocou o Concílio de Trento em
1545.
O Concílio de
Trento foi a resposta católica definitiva ao protestantismo, que considerava o
resultado da ambição, avareza e cobiça dos bispos católicos. Nos seminários
estudava-se Tomás de Aquino, principal teólogo católico. Em resposta aos
luteranos, aboliu a venda de indulgências, relacionou as obrigações do clero e
ordenou a reestruturação dos bispos na Igreja. Rejeitou a justificação apenas
pela fé e promoveu a necessidade de obras meritórias como necessidade para
salvação. Confirmou os sete sacramentos concessores de graça: batismo, crisma,
comunhão, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio como necessários à
santificação. Reconfirmou a transubstanciação e a natureza sacrificial da
missa. Declarou que apenas a Biblia Vulgata Latina era aceitável para uso na
Igreja (incluía os livros apócrifos) e manteve a afirmação de que a tradição da
Igreja possuia a mesma autoridade das Escrituras.
A Guerra dos 30
anos (1618 a 1648) foi a última de uma série de guerras religiosas no
continente europeu. A Paz de Westfália pôs fim à guerra em 1648 após longas
negociações. O tratado reconheceu o calvinismo, o luteranismo e o catolicismo
como religiões legais e permitiu que cada governante determinasse a religião de
seu domínio. O Anexo 7 mostra um
quadro resumo da Contra-Reforma.
5. Igreja Contemporânea: 1789 d.C até os dias
atuais
Para fecharmos o
estudo da História da Igreja, abordaremos a Igreja Contemporânea à luz da
evolução histórica dos períodos anteriores:
- Idade Antiga: no sistema
escravista, o exército colocava escravos na agricultura, cobrava impostos
e fechava o ciclo escravizando novamente.
- Idade Média: o cenário
político estava nas mãos da nobreza e o rei era uma figura mais simbólica
(feudalismo).
- Idade Moderna: poder
político nas mãos dos reis absolutistas com apoio financeiro da burguesia.
Formação dos Estados Absolutistas (nações como Portugal, Espanha, França e
Inglaterra).
- Idade
Contemporânea: poder político e econômico nas mãos da
burguesia e alienação entre o governo e o povo.
Alguns marcos
importantes na Idade Contemporânea:
- Revolução
Francesa em 1789 (povo contra o governo): rei absolutista que controlava
tudo, inclusive a religião; o povo não podia votar e os oposicionistas
eram presos na Bastilha, espécie de prisão. A queda da Bastilha foi o
inicio do processo revolucionário.
- Concepção de
esquerda (mais a favor do povo) e direita (mais a favor da burguesia).
- Declaração
dos Direitos Humanos (igualdade, fraternidade e liberdade).
- Voltaire e
Russeau (separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário).
- Napoleão
Bonaparte: objetivo de levar a Revolução Francesa para todos os países da
Europa com objetivos imperialistas.
5.1 Puritanismo
Movimento em prol
da reforma completa na Igreja da Reforma. Iniciou-se no reinado de Elisabete I
da Inglaterra (1558) e continuou por mais de um século como uma grande força
religiosa da Inglaterra e Estados Unidos. Os separatistas buscavam a reforma da
Igreja Anglicana e formaram as igrejas Presbiterianas, Congregacionais e
Quackers. Os independentes eram congregacionais.
As convicções do
Puritanismo incluíam a salvação vindo diretamente de Deus, a Bíblia como guia
indispensável da vida e a Igreja deve refletir o ensino das Escrituras. John
Bunyan, foi o autor puritano do livro “O peregrino” (alerta aos perigos enfrentados na vida religiosa
por aqueles que seguem os ensinamentos bíblicos e buscam alcançar a coroa da
Vida Eterna).
5.2 Movimento Metodista
Foi fundado por
John Wesley (1703 a 1791) surgiu a
partir da Igreja Anglicana. Membro do Clube Santo da Universidade de Oxford,
Wesley passava por dificuldades quanto à santidade pessoal. Sómente quando teve
contato com pietistas morávios é que teve um encontro com o Senhor. Wesley
dedicou sua vida a pregar o Evangelho pela Inglaterra e pelos centros
industriais, onde o metodismo cresceu rápidamente. Permitiu o trabalho de
mulheres e pregadores leigos para espalhar a mensagem da salvação.
5.3 Batistas
Existem algumas
teorias a respeito da origem dos batistas (uma originária da sucessão de João
Batista, outra dos Anabatistas do período da Reforma), mas a maioria aceita a
dissidência de puritanos ingleses no séc. XVII com origem nos congregacionais.
Os primeiros lideres (John Smith e Thomas Helwys) eram congregacionais e os
batistas iniciaram após a ida destes lideres a Holanda (1608). Em 1609
organizaram a Igreja Batista e houve aproximação com um grupo menonita
(anabatista). Em 1642 os batistas particulares batizavam por imersão. Em 1644
houve a Confissão Batista de Londres.
5.4 Pentecostalismo
O lider inicial do Pentecostalismo foi Charles Fox Parham, pregador
metodista do Instituto bíblico em Topeka, Kansas (1900). A marca distintiva do
Movimento Pentecostal é o falar em línguas (glossolalia) como evidência bíblica
do batismo no Espírito Santo. Um evento marcante ocorre em um culto de vigília
em 31-12-1900, quando a aluna Agnes Ozman fala em línguas e o fenômeno se
repete com outros estudantes. O movimento cresce e Parham o difunde nos EUA com
os nomes de Fé Apostólica ou Fé Pentecostal. Ocorre o avivamento no país de
Gales e escola bíblica em Houston, Texas (1905).
Um dos seguidores de Parham foi William J. Seymour, aluno de Parham em
Houston (sendo negro, tinha de assistir às aulas do lado de fora da sala).
Seymour tinha 30 anos, era filho de escravos, possuía pouca cultura e foi
convidado para falar em uma igreja batista de Los Angeles. Mudou-se para a casa
de um zelador (Edward Lee) de um banco local e começou a pregar na casa de
outro zelador na Rua Bonnie Era. Lee e Seymour foram batizado no Espírito
Santo. Este buscou um local para uma igreja e encontrou na Rua Azuza, 312 em LA. A “Missão da Fé
Apostólica” era um local simples, mas dali a verdade pentecostal se espalhou
pelo mundo. Multidões apertaram-se na Rua Azuza com 3 cultos/dia, 7 dias/semana
por mais de 3 anos. Muitos pioneiros pentecostais receberam o batismo no
Espírito Santo adorando nas pranchas das caixas de madeira no altar da Rua
Azuza. Seymour morreu em 28/09/1922 com 52 anos.
5.5 Protestantes no Brasil
A entrada do
protestantismo no Brasil não foi homogênea e pode ser resumida nos seguintes tipos:
- Protestantismo de Imigração:
ü
Anglicanos: O primeiro
capelão anglicano, Robert C. Crane, chegou em 1816. A primeira capela foi
inaugurada no Rio de Janeiro em 26-05-1822; seguiram-se outras nas principais
cidades costeiras. Outros estrangeiros protestantes: americanos, suecos,
dinamarqueses, escoceses, franceses e especialmente alemães e suíços de
tradição luterana e reformada.
ü
Alemães Luteranos: iniciaram em Nova Friburgo em maio de 1824
com um grupo de 324 imigrantes acompanhados do seu pastor, Friedrich Oswald
Sauerbronn (1784-1864).
ü
Comunidade Protestante Alemã-Francesa do Rio de
Janeiro: fundada em junho de 1827 pelo cônsul da Prússia Wilhelm von Theremin
com Luteranos e calvinistas.
- Protestantismo de Missão:
ü
Igreja Metodista Episcopal: foi a primeira
denominação a iniciar atividades missionárias junto aos brasileiros (1835-41).
Fundaram no Rio de Janeiro a primeira escola dominical do Brasil.
ü
Igreja Presbiteriana: as primeiras igrejas foram no Rio de Janeiro
(1862), São Paulo e Brotas (1865). A Escola Americana foi criada em 1870 e o
Sínodo do Brasil surgiu em 1888.
ü
Igreja Metodista Episcopal (sul dos EUA): o primeiro
missionário aos brasileiros chegou em 1876 e dois anos depois organizou a primeira
igreja no Rio de Janeiro.
ü
Igreja Batista: os primeiros missionários, Thomas Jefferson
Bowen e sua esposa (1859-61) não foram bem sucedidos. Em 1871, os imigrantes de
Santa Bárbara organizaram duas igrejas. Os primeiros missionários junto aos
brasileiros foram William B. Bagby, Zachary C. Taylor e suas esposas (chegados
em 1881-82). O primeiro membro e pastor batista brasileiro foi o ex-padre
Antonio Teixeira de Albuquerque, que já estivera ligado aos metodistas. Em 1882
o grupo fundou a primeira igreja em Salvador, Bahia. A Convenção Batista
Brasileira foi criada em 1907.
ü
Igreja Protestante Episcopal: última das denominações
históricas a iniciar trabalho missionário no Brasil. O trabalho permanente teve
início em 1890 e fixaram-se em Porto Alegre.
- Pentecostalismo:
ü
Congregação Cristã no Brasil: fundada pelo
italiano Luigi Francescon (1866-1964). Radicado em Chicago, foi membro da
Igreja Presbiteriana Italiana e aderiu ao pentecostalismo em 1907. Em 1910
(março-setembro) visitou o Brasil e iniciou as primeiras igrejas em Santo
Antonio da Platina (PR) e São Paulo, entre imigrantes italianos.
ü
Assembléia de Deus: fundada pelos suecos Daniel Berg (1885-1963)
e Gunnar Vingren (1879-1933). Batistas de origem, abraçaram o pentecostalismo em
1909. Sentindo-se chamados para trabalhar no Brasil, chegaram a Belém em
novembro de 1910.
ü
Igreja do Evangelho Quadrangular: fundada a primeira
IEQ do Brasil em novembro de 1951 (São João da Boa Vista). A igreja enfatiza
quatro aspectos do ministério de Cristo: aquele que salva, batiza com o
Espírito Santo, cura e virá outra vez. As mulheres podem exercer o ministério
pastoral.
ü
Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo: fundada por
Manoel de Mello, um evangelista da Assembléia de Deus. Organizou em 1956 a
campanha "O Brasil para Cristo," da qual surgiu a igreja.
ü
Igreja Deus é Amor: fundada por David Miranda, converteu-se numa
pequena igreja pentecostal e em 1962 fundou sua igreja em Vila Maria. Em 1979,
foi adquirida a "sede mundial" na Baixada do Glicério, o maior templo
evangélico do Brasil (dez mil pessoas).
ü
Igreja Universal do Reino de Deus: fundada por Edir
Macedo. De origem católica, ingressou na Igreja de Nova Vida na adolescência.
Deixou essa igreja para fundar a sua própria, inicialmente denominada Igreja da
Bênção. Em 1978 surgiu o nome IURD e o primeiro programa de rádio.
ü Convenção Batista
Nacional: Até 1950 quando algum batista era batizado no ES ia para Assembléia de
Deus e às vezes não era aproveitado (não havia outra Igreja para ir). Foi
necessário uma Renovação Espiritual para as igrejas tradicionais
(Inovação=quando inicia-se algo novo e Renovação=quando aproveita-se o que já
existia e recupera-se). Pr. Rego do Nascimento foi batizado no ES e ele iniciou
a Renovação Espiritual juntamente com o Pr. Enéas Tognini, que fundou a
Convenção Batista Nacional e foi um dos fundadores da Sociedade Bíblica do
Brasil.
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Protestantismo Brasileiro: Estudo de Eclesiologia e História Social. 3ed. São
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TOGNINI, Enéas. O Período
Interbíblico. 7ed. São Paulo: Louvores do Coração, 1992.
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