Autoridade
Espiritual
Washington
A. Ferreira
“Pregamos
o evangelho a fim de colocarmos os
homens sob autoridade de Deus, mas como podemos estabelecer a autoridade de
Deus na terra se nós mesmos ainda não a conhecemos?[1]
A auto-revelação divina e a autoridade
bíblica
Há um senso comum de autoridade, diante do qual o nível
hierárquico de um indivíduo ou instituição, determina o exercício de seu poder.
No decorrer deste estudo tentaremos alargar um pouco mais este conceito, a
partir da constatação de que não há autoridade que não proceda de Deus.
Não nos parece razoável, iniciarmos com a afirmação de que
Deus é a fonte de toda autoridade, sem reconhecer que fundamentalmente, cremos
naquilo que cremos, não porque seres humanos o inventaram, mas porque o próprio
Deus o revelou. Como consequência, existe uma autoridade nesta revelação que
nunca poderá ser destruída.
Se reconhecemos que a mente humana é tanto finita quanto
decaída, bem como jamais compreende nem crê sem a obra graciosa do Espírito
Santo, como conhecer a autoridade de Deus?
– A Bíblia é a auto-revelação de Deus, a autobiografia
divina.
Na Bíblia, o assunto e o objeto são idênticos, pois nela
Deus fala a respeito de Deus. Ele torna seu ser conhecido em sua rica
diversidade, como o Criador do Universo
e tudo o que nele há.
Na Bíblia, Deus nos dá revelações de si mesmo, as quais nos
levam à adoração; promessas de salvação, que estimulam nossa fé; e mandamentos
que expressam seu desejo, os quais demandam nossa obediência. Este é o
significado do discipulado cristão dos quais destacados três ingredientes
essenciais, quais sejam: a adoração, a fé e a obediência. Os três são
inspirados pela Palavra de Deus.
A Palavra de Deus foi designada para nos tornar cristãos, e
não cientistas, e para nos levar à vida eterna por meio da fé em Jesus Cristo. Deus
não revelou sua verdade com o intuito de nos deixar livres para escolher
acreditar nela ou não, para obedecer ou não a essa verdade. A revelação carrega
consigo a responsabilidade; e quanto mais clara a revelação, maior a
responsabilidade; para crer nela e obedecer.
Vivemos em uma época de muito subjetivismo, na qual o
existencialismo tenta forçar uma interpretação “relativa” do que é verdadeiro ou falso.
Utiliza-se de critérios puramente subjetivos por meio dos quais avalia o que é
“autêntico” e, mais precisamente, o que se parece autêntico dentro de uma
interpretação pessoal.
Mas para nós cristãos, impõe-se admitir que Deus falou
histórica e objetivamente; sua Palavra culminou em Cristo e no testemunho
apostólico sobre ele; e as Escrituras são exatamente a Palavra de Deus escrita
para nosso aprendizado. Nossas tradições,
nossa opiniões e nossas experiências, todas elas devem, portanto, submeter-se
ao independente e objetivo teste da verdade bíblica.
A compreensão bíblica da Palavra de Deus não se reduz apenas
ao entendimento de que ele a profere, mas que ele age por meio dela. Suas
palavras não são meras falas; também são ações. Isso fica claro na Criação, que
foi afetada pelas palavras de ordem dadas por Deus: “...disse Deus... E assim
foi...”; “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo surgiu” (Gn 1:6-7;
Sl 33:9).
Não pode haver dúvidas ao se afirmar onde reside a suprema
autoridade, pois Deus a entregou ao Senhor Jesus, ressurreto e exaltado. Jesus
disse: “Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra” (Mt. 28:18). É nossa
convicção de que Cristo exerce sua autoridade por meio de seu Espírito,
mediante sua Palavra.
A primeira e mais importante razão porque devemos acreditar na
inspiração divina e na autoridade das Escrituras não é o que as igrejas
ensinam, ou os autores afirmam, ou ainda o que os leitores sentem, mas aquilo
que Jesus mesmo disse. Cristo endossou a autoridade das Escrituras, e por
conseguinte, sua autoridade e a
autoridade das Escrituras ou se sustentam juntas ou caem juntas[2].
Toda a evidência disponível confirma que Jesus Cristo
consentiu em sua mente e submeteu-se em sua vida à autoridade do Antigo
Testamento. Não é minimente aceitável que tenhamos, enquanto seus seguidores,
uma visão inferior à que ele tinha das Escrituras.
Sabemos que: “o discípulo não está acima de seu mestre. É inconcebível que um
cristão que olhe para Jesus como seu Mestre e Senhor tenha uma visão menor que
a dele sobre o AT. Que sentido faz
chamar Jesus de “Mestre” e “Senhor” para depois discordar dele? Não temos
liberdade para discordar dele. Sua visão das Escrituras deve tornar-se a nossa
visão.”[3]
Inspiração é a
palavra tradicionalmente usada para descrever a atividade de Deus ligada à
composição da Bíblia. Na verdade a inspiração divina da Bíblia é o fundamento
de sua autoridade divina. Dizer que “a Bíblia é a Palavra de Deus é verdade”.
Mas não podemos deixar de considerar que ela traz, também, orientações e
testemunhos daqueles que vivenciaram e/ou narraram situações e acontecimentos,
cujo relato nos permite entende-la racionalmente. A Lei, por exemplo, é
definida por Lucas como “Lei de Moisés” e como “Lei do Senhor” e isso acontece
em versículos consecutivos (Lc 2:22-23). De modo similar, em Hebreus, afirma-se
que “Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas...”,
e em 2 Pedro que “...os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito
Santo” portanto Deus falou e o homem falou. Essas duas afirmações são
verdadeiras e nenhuma contradiz a outra, encontrando reforço em 2 Timóteo 3:16,
a saber: “Toda a Escritura é inspirada por Deus...” (NVI).
“Autoridade” é o poder ou peso que as Escrituras possuem
graças ao que ela é, a saber, a revelação divina dada por inspiração divina. Se
ela é a Palavra de Deus, traz consigo a autoridade de Deus. Pois, por trás de
cada palavra que uma pessoa fala, está a pessoa que a profere. É o próprio
interlocutor (seu caráter, conhecimento e posição) que determina como as
pessoas encaram suas palavras. Portanto, a Palavra de Deus traz consigo a
autoridade de Deus. É pelo que Deus é que devemos acreditar no que Ele diz.
Submissão às Escrituras representa nossa submissão a Cristo.
Não há como separar Nosso Senhor Jesus Cristo e a Bíblia. Jesus disse:
“Examineis as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam.” (Jo
5:39). Este testemunho recíproco entre a Palavra viva e a Palavra escrita é a
chave para a compreensão cristã da Bíblia.
Podemos portanto afirmar que a submissão às Escrituras é
para nós o sinal de nossa submissão a Cristo. O testemunho que Jesus nos
apresenta a respeito das Escrituras certifica-nos de sua autoridade.
Assim, falarmos de autoridade espiritual, implica,
necessariamente, reconhecermos sua revelação e nos submetermos à autoridade
daquele que intercede por nós junto ao Pai, para que sejamos perfeitos em
unidade, e para que o mundo conheça que Deus enviou seu Filho amado por amor de
nós.[4]
O trono de Deus estabelecido sobre a
autoridade
O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata
do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa. Depois de ter
realizado a purificação dos pecados, ele se assentou à direita da Majestade nas
alturas. (Hb 1:3)
Deus age a partir do seu trono, e o seu trono está
estabelecido sobre a sua autoridade. Todas as coisas são criadas pela
autoridade de Deus e todas as leis físicas do universo são mantidas através de
sua autoridade. Por isso a Bíblia nos revela que Deus, por Cristo, resplendor
da sua glória e expressa imagem de sua pessoa,
“sustenta todas as coisas pela palavra de seu poder”, o que significa
que todas as coisas são mantidas pela palavra do poder de sua autoridade. Pois
a autoridade divina representa o próprio Deus enquanto o poder se expressa
apenas pelos seus atos. Só Deus é autoridade em todas as coisas; toda
autoridade da terra foi instituída por Deus. (Rm 13:1-7) A
autoridade é algo tremendo no Universo – nada a supera. Portanto é imperativo
que nós que desejamos servir a Deus conheçamos a autoridade de Deus.
Princípios de Satanás
Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva!
Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!
E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte.
E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte.
Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao
Altíssimo. (Is 14:12-14)
O arcanjo transformou-se em Satanás quando tentou usurpar a
autoridade de Deus competir com Deus, e assim se tornou adversário de Deus. Foi
a rebeldia que provocou a queda de Satanás. Isto é narrado tanto em Isaías
14:12-15, como Ezequiel 28:13-17.
A intenção de Satanás de estabelecer seu trono acima do
trono de Deus violou a autoridade de Deus, tendo por princípio a auto-exaltação
e isto determinou sua condenação. Quando servimos a Deus e não nos submetemos
às autoridades, estamos, em última análise, agindo de acordo com este princípio
de rebeldia, o qual é incompatível com a vontade de Deus.
A vontade de Deus é absoluta
Durante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações
e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte,
sendo ouvido por causa da sua reverente submissão, embora sendo Filho, ele
aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu; e, uma vez aperfeiçoado,
tornou-se a fonte de eterna salvação para todos os que lhe obedecem. (Hb 5:7-9)
Vemos na oração de Nosso Senhor no Getsêmani, o expressão
plena de sua obediência à vontade de Deus. Nosso Senhor considerava o obedecer
à autoridade de Deus mais importante do que sacrificar-se sobre a cruz. Ele ora
sinceramente para atender a efetiva vontade de Deus. Ele não diz: “Eu quero ser
crucificado, eu tenho que beber esse cálice”. Na realidade diz: "Pai, se queres, afasta de mim este
cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua" (Lc
22:42)
Consequentemente a morte do Senhor é a mais alta expressão
da obediência à autoridade.
Na qualidade de servos de Deus, a primeira coisa que temos
de fazer é travar relações com a autoridade. Antes de podermos trabalhar para
Deus temos de ser conquistados por sua autoridade. Todo o nosso relacionamento
com Deus é regulado pelo fato de termos ou não travado relações com a
autoridade. Em caso afirmativo encontraremos a autoridade em todos os lugares,
e sendo assim governados por Deus, podemos começar a ser usados por Ele.
A queda de Adão e Eva
Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais
selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: "Foi
isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’?"
Respondeu a mulher à serpente: "Podemos comer do fruto
das árvores do jardim,
mas Deus disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’ ".
mas Deus disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’ ".
Disse a serpente à mulher: "Certamente não morrerão!
Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal".
Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal".
Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao
paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter
discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu
também. (Gn 3:1-6)
Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se
tornaram pecadores (Rm 5:19)
Depois que Deus criou Adão, encarregou-o de algumas coisas:
entre estas estava a ordem de não comer do fruto da árvore do conhecimento do
bem e do mal. O ponto crucial dessa determinação foi mais do que a proibição de
comer certo fruto; antes, significava que Deus estava colocando Adão sob
autoridade para que aprendesse obedecer. De um lado, Deus colocou todas as
coisa criadas na terra sob autoridade de Adão para que ele as dominasse; mas
por outro lado, Deus colocou o próprio Adão debaixo de autoridade para que ele
pudesse obedecer à autoridade. Só aquele que está sob autoridade pode
constituir uma autoridade.
De acordo com a ordem da criação divina. Deus criou Adão
antes de criar Eva. Colocou Adão em posição de autoridade e Eva sob a autoridade
de Adão.
A queda do homem deve-se à desobediência à autoridade de
Deus. Toda atitude que implica desobediência constitui uma queda, e qualquer
atitude de desobediência é rebeldia.
Os cristãos devem obedecer à autoridade
Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois
não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por
ele estabelecidas. (Rm 13-1)
Não existe autoridade que não proceda de Deus; todas as
autoridades foram instituídas por ele. Quando procuramos encontrar a fonte de
toda autoridade encontramo-la invariavelmente em Deus. Deus está acima de toda
autoridade, e todas as autoridades estão debaixo dele. Ele mantém todas as
coisas pela poderosa palavra de sua autoridade, exatamente como as criou pela
mesma palavra.
Já vimos muitas formas de tentar explicar o que o apóstolo
Paulo ensinou quanto à obediência das autoridades constituídas, mas ele é claro
em sua orientação, não cabendo ai qualquer variável.
Todos devem
sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha
de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas.
Portanto, aquele que
se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e
aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos.
Pois os governantes
não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver
livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá.
Pois é serva de Deus
para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a
espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o
mal.
Portanto, é necessário
que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de
uma punição, mas também por questão de consciência.
É por isso também que
vocês pagam imposto, pois as autoridades estão a serviço de Deus, sempre
dedicadas a esse trabalho.
Deem a cada um o que
lhe é devido: Se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se
honra, honra. (Rm 13:1-7)
Cabe considerar que a submissão é um a questão de atitude,
sendo pois absoluta, já a obediência é uma questão de conduta. Isto se reflete
na conduta de Pedro e João, quando responderam ao concílio religioso dos
judeus: “Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos a vós outros do que Deus”
(Atos 4:19). Seu espírito não foi de rebeldia, uma vez que ainda se submetiam
àqueles que estavam em posição de autoridade. A obediência, entretanto, não
pode ser absoluta. Há de se ter claro, que mesmo em submissão às autoridades
constituídas, a obediência a elas, não pode contrariar aquilo que decorre da
autoridade revelada por Deus em sua Palavra, tais como: crer no Senhor, pregar
o evangelho e assim por diante.
Os filhos podem fazer sugestões a seus pais, mas não devem
demonstrar uma atitude de insubordinação. A submissão é absoluta. Às vezes a
obediência é submissão, enquanto que noutras ocasiões, uma incapacidade de
obedecer ainda pode ser submissão. Mesmo quando fazemos uma sugestão, devemos
manter uma atitude de submissão.
Reiteramos, pois, no entanto, que se uma autoridade
constituída emitir uma ordem claramente em contradição com a ordem de Deus,
deverá receber submissão mas não obediência. Podemos entender melhor tal
situação a partir de alguns exemplos bíblicos:
1. As
parteiras e a mãe de Moisés, todas desobedeceram ao decreto de Faraó
preservando a vida de Moisés. Mas foram consideradas mulheres de fé.
2. Os
três amigos de Daniel recusaram-se a adorar a imagem de ouro erigida pelo rei
Nabucodonosor. Desobedeceram à ordem do rei, mas submeteram-se ao fogo do rei.
3. Ignorando
o decreto real, Daniel orou a Deus; não obstante submeteu-se ao julgamento do
rei sendo lançado na cova dos leões. Neste caso o próprio rei se submeteu ao
decreto que editara conforme a lei dos medos e dos persas, o qual não podia ser
revogado, ficando o rei em grande aflição pelo amigo.
4. José
fugiu com o Senhor Jesus para o Egito para evitar que a criança fosse morta
pelo rei Herodes.
5. Pedro
pregou o evangelho embora fosse contra a ordem do concílio governante, pois
declarou que importava antes obedecer a Deus do que aos homens. Mas submeteu-se
quando foi levado à prisão.
Homem
sujeito à autoridade[5]
A narração bíblica de Mateus capítulo 8, versos de 5 a 13,
ilustram muito bem os princípios de autoridade e do reconhecimento de como ela
deve ser exercida, motivo pelo qual usaremos essa ilustração para melhor
entendermos sua aplicação.
Entrando Jesus em Cafarnaum, dirigiu-se a ele um centurião,
pedindo-lhe ajuda. E disse: "Senhor, meu servo está em casa, paralítico,
em terrível sofrimento".
Jesus lhe disse: "Eu irei curá-lo".
Respondeu o centurião: "Senhor, não mereço receber-te
debaixo do meu teto. Mas dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado.
Pois eu também sou homem sujeito à autoridade, com soldados
sob o meu comando. Digo a um: ‘Vá’, e ele vai; e a outro: ‘Venha’, e ele vem.
Digo a meu servo: ‘Faça isto’, e ele faz".
Ao ouvir isso, Jesus admirou-se e disse aos que o seguiam:
"Digo-lhes a verdade: Não encontrei em Israel ninguém com tamanha fé.
Eu lhes digo que muitos virão do Oriente e do Ocidente, e se
sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus.
Mas os súditos do Reino serão lançados para fora, nas trevas,
onde haverá choro e ranger de dentes".
Então Jesus disse ao centurião: "Vá! Como você creu,
assim lhe acontecerá! " Na mesma hora o seu servo foi curado. Mateus
8:5-13
O registro bíblico se passa na cidade de Cafarnaum, do hebraico:
Kephar Nachûm, que significa "aldeia" ou "vila de Naum". Esta cidade
ficava na margem norte do Mar da Galileia,
terra natal do apostolo Pedro. Também eram de lá outros pescadores que se
tornaram apóstolos: André (irmão de Pedro) e os irmãos Tiago e João. Mateus
também era de Cafarnaum, mas não era pescador e sim fiscal de impostos. Deixou
a profissão de lado para seguir o Messias.
Mateus nos conta o encontro de Jesus com o centurião comandante
do destacamento romano que estava em Cafarnaum, o qual o havia procurado pois, tinha
um servo muito enfermo, paralítico e em “terrível sofrimento”, dando a entender
que além da paralisia, sofria em dores.
Um centurião era o oficial responsável por comandar uma
centúria, dando ordens que deveriam ser prontamente obedecidas pelos homens que
liderava, inclusive na rápida execução de uma formação militar e,
encarregava-se da disciplina e instrução da legião. Devido ao fato de que na
maioria das vezes as legiões estarem distantes do comando central, os
centuriões eram escolhidos pelas suas capacidades de comando e pela prontidão
em lutarem até à morte.
Esse homem de guerra, demonstra claramente ser cuidadoso com
seu servo, ao ponto de que, assim que soube que Jesus de Nazaré chegara à
cidade, onde já realizara milagres, empenhou-se em chegar-se até Ele e
rogou-lhe pelo seu escravo. Destaque-se que o centurião não pediu que Jesus
fosse até a sua casa para realizar a cura, mas o Salvador respondeu
imediatamente: "Eu irei
curá-lo". Isso foi mais do que o centurião pedira; implorara em favor
da cura de seu escravo, mas não estava esperando a presença pessoal de Jesus.
(Importante lembrar que em outra
ocasião, certo oficial do rei foi até Jesus e suplicou-lhe: “Senhor, vem, antes
que o meu filho morra.” (Jo 4:49) Jesus não foi visitar o filho do
oficial, mas enviou sua palavra poderosa, e o curou.)
No caso do centurião, era um escravo, e não uma criança, que
estava sofrendo. No primeiro caso, Jesus confronta o nobre dizendo: "Se vocês não virem sinais e maravilhas,
nunca crerão." e depois do pedido o informa do que ocorrera: "Pode ir. O seu filho continuará
vivo" (Jo 4:48-50). Já no segundo, com o centurião, demonstra a
condescendência de seu espírito ao dizer: “Eu
irei curá-lo”. Ou seja: “Eu mesmo comparecerei e realizarei a cura que você
pede de minha parte”.
O centurião pedira que o Senhor curasse seu servo; está
muito grato pela bondade de Jesus que se ofereceu para ir curá-lo; mas não quer
provocar qualquer inconveniência pessoal para o Salvador. Entende que não há a
mínima necessidade de que faça uma visita a sua casa e, por isso, lhe diz: “Senhor, não mereço receber-te debaixo do
meu teto. Mas dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado.”
Importa observar que o fato ocorre com um centurião, oficial
de guerra, em geral homens grosseiros e rudes que não se importam com ninguém.
Formados nos campos de batalha, recebiam seu treinamento a partir das
fileiras dos soldados rasos e não por
instrução intelectual, mas mediante golpes, contusões e feridas.
Podemos observar, muitas vezes, que os homens mais grosseiros,
as menos cultas pessoas, têm transformado seu caráter quando chegam a crer no
Senhor Jesus Cristo. Sendo assim, o centurião diz: “Meu Senhor, eu ficaria bastante contente com
tua visita: mas não mereço recebê-lo debaixo do meu teto, e não é necessária a
tua presença. Tu podes curar meu servo com uma única palavra. Por isso peço-te,
dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado”. Foi esse sentimento de
consideração por Jesus que o levou a falar dessa maneira; e o que ele disse é
notavelmente instrutivo.
Em primeiro lugar
o centurião traçou um paralelo entre ele mesmo e o Senhor Jesus Cristo. O
centurião disse: “Pois eu também sou homem sujeito a autoridade e com soldados sob o
meu comando”. Alguns têm
procurado fazer uma mudança da ênfase dada neste texto, no sentido de ensinar
que a intenção do centurião era: “Estou sujeito à autoridade, mero oficial
subalterno, porém posso dar algumas ordens. Tu estás sujeito à autoridade, mas
és grande e poderoso, e, por isso, tu podes fazer muito mais”. Mas esse não é o
sentido, de modo algum. O centurião queria dizer que ele mesmo era um homem
sujeito à autoridade, não meramente um cidadão individual, mas servo de Cesar. O
uniforme que usava destacava-o como militar de uma das legiões do Império
Romano; a insígnia de sua farda indicava que ele era um centurião, um
comandante que derivava sua posição e poder do grande Imperador em Roma. Era um
homem “sujeito à autoridade”.
Não foi para desonrar Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo
contrário, que esse centurião queria dizer: “Reconheço também em ti um homem
sujeito à autoridade”, pois
esse nosso Senhor Jesus Cristo entrou no mundo comissionado por Deus. Ele
estava aqui, não meramente na sua capacidade particular, como Filho de Davi, ou
como Filho de Maria, ou até mesmo como Filho de Deus; mas ele estava aqui como
Aquele a quem o Pai escolhera, ungira, qualificara e enviara para levar adiante
uma comissão divina. Esse oficial
conseguia enxergar na pessoa de Cristo as marcas de ser comissionado por Deus.
Por algum meio, ele chegara a essa conclusão segura e verdadeira, que Jesus
Cristo estava agindo sob a autoridade do Deus que fez os céus e a terra; e por
isso o centurião enxergava Cristo como devidamente comissionado para a sua
obra.
Aquele que é comissionado para realizar alguma tarefa também
recebe, da parte da autoridade superior, o poder para realizar essa tarefa. O
centurião, portanto, tem soldados para cumprirem as suas ordens – “Pois eu
também sou homem sujeito à autoridade e com soldados sob o meu comando; homens
colocados sob o meu comando para cumprirem as minhas ordens, porque minhas
ordens são autorizadas pela autoridade superior de Cesar.” Assim, esse homem
parece dizer a Cristo: “Acredito que a ti está providenciada a devida
assistência para o cumprimento de todos os propósitos que vieste ao mundo para
cumpri-los. Se eu quero transmitir uma ordem”, diz o centurião, “digo ao meu
servo: ‘Vá’, e ele vai. E se eu quero que outro venha, digo: ‘Venha’, e ele
vem. Se há alguma coisa para ser feita, convoco um dos homens sob minha
autoridade, e digo a ele: ‘Faça isso’ e ele faz”. Parece estar dizendo ao
Salvador: “Tu, também, comissionado e nomeado pelo grande Deus, decerto tens servidores
que foram destacados para te atender. Tu não fostes enviado à guerra às tuas
próprias custas. Tu não fostes deixado para realizar sozinho essa obra. Devem
forçosamente existir, em algum lugar, soldados e servos sujeitos a ti, os quais,
não percebidos por mim, aguardam para cumprir tuas ordens”.
O paralelo fica muito
claro e, isso faz com que Nosso Senhor tenha admirado a fé desse homem, que o
capacitara a perceber essa grande verdade.
O centurião avançou em seu argumento. “Eu, um homem devidamente comissionado, tenho servos sujeitos a mim
para cumprirem a minha vontade, e eu mantenho esses servos sob meu controle”. Isso
falou porque sabemos que existem patrões que têm servos os quais dizem “Vão” e
eles não vão, ou aos quais dizem “Venham”, mas não vêm muito rapidamente.
Precisam falar “Venham” ou “Vão” várias vezes antes de os servos realmente
virem ou irem; e podem dizer, ainda, “Faça isso” e outra vez, “Faça isso”, mas
não é feito. Mas esse centurião era um oficial que sabia lidar com homens. Era um
mandante, um verdadeiro senhor; não somente no nome, mas também no fato. Não
tolerava, dentro dos seus domínios, nada que se assemelhasse a um motim ou
resistência à sua vontade; tinha seus domésticos tão bem organizados, que,
quando ele dizia ao servo “Faça isso”, ele fazia. O centurião era um
comandante, um disciplinador do tipo que conquistara a obediência de seus
servos. Bondoso, pois procurou a ajuda de Cristo para seu servo enfermo, mas
também firme; de modo que o que ele dizia para ser feito, era par ser feito, e
imediatamente.
O centurião transfere a Nosso Senhor essa característica.
Ele não desacredita Cristo com a suposição de que Cristo não tem seus servos
bem disciplinados, que ele tem servos que ousam não levar a sério suas ordens,
que existem agências que se rebelaram contra o domínio e que agirão do modo que
quiserem. “Não” diz ele, “Tu Jesus, comissionado pelo Pai, tem teus soldados e
teus servos, e creio que tu os tens sob controle e sujeito a tamanha
disciplina, que basta que tu fales, e o ato por ti ordenado é cumprido e fica firme
para sempre.
Não imagino que
qualquer que se diga seguidor de Cristo, seja capaz de questionar a verdade
desse paralelo que o centurião tratou com tanta consideração.
Ao traçar esse paralelo, o centurião dá a entender que, uma
vez que Cristo tinha poder de cumprir
a vontade divina e que tinha esse poder sob seu controle, cria que
Cristo estivesse disposto a dirigi-lo ao objetivo de curar o seu servo.
Para o centurião, não há qualquer dificuldade para que Jesus
resolva o caso e cure seu servo. Pelo contrário, ele parece dizer: “Rei dos
reis, Mestre e Senhor onipotente, tu podes imediatamente ordenar um anjo a voar
até o meu servo, ou podes mandar a enfermidade deixar o meu lar, ou podes falar
à paralisia, e a própria paralisia se tornará seu servo, e sairá voando
imediatamente, segundo seu mandamento.
– É só estender o seu poder para o servo e ele será curado
imediatamente.”
O centurião considerava Cristo o senhor de todos os tipos de
poderes, poderes suficientes para todos os seus propósitos; ele considerava que
Cristo o mantinha sob controle total, de modo que pudesse mandar cumprir suas
ordens num único momento, e o centurião estava muito desejoso de se manter em
posição subalterna. Sabemos disso porque quando Nosso Senhor Jesus se dispôs a
descer até a casa do centurião, ele achou demais receber semelhante honra;
parecia ter certeza de que estava sendo colocado numa posição errada. Ele mesmo
não passava de um servidor e achava que, no papel específico que desempenhava,
não era digno de acolher o Mestre debaixo do seu teto; diante disso, ele disse:
“Dize apenas uma palavra, e meu servo
será curado”.
Como dito desde o início, este fato ilustra perfeitamente o
modo como devemos ver a autoridade espiritual e o modo como devemos agir.
Quando pensamos em Nosso Senhor Jesus Cristo, não precisamos
nos preocupar com o modo como Ele realiza seus propósitos, como os propósitos
de Deus serão realizados, ou como sua promessas serão cumpridas. A coisa
principal que devemos fazer é sermos servos do Senhor e obedecê-Lo. Assim
quando Ele diz a qualquer um entre nós “Vá”, que cuidemos de ir mesmo, e quando
ele diz “Venha”, que realmente venhamos, e quando ele diz “Faça isso”, que
tenhamos certeza de fazê-lo.
Se queremos governar o mundo, melhor será governarmos,
antes, a nós mesmos. Se queremos purificar a igreja ou reformar o mundo, como
poderemos fazê-lo antes de primeiro lavar nossas mãos na inocência?
Devemos nos colocar de modo adequado diante de Cristo.
A suprema questão em relação a Jesus Cristo não é de
semântica (o significado das palavras), mas de homenagem (a atitude do
coração). Não depende de que nossa língua seja capaz de aceitar uma formulação
ortodoxa da pessoa de Jesus, mas depende de os nossos joelhos se dobrarem
diante da sua majestade. Além disso, reverência sempre procede a compreensão.
Só o conheceremos se estivermos dispostos a obedecer-lhe.
Vida e autoridade
E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas,
outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de
preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja
edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho
de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. Efésios 4:11-13
Dificuldades dentro da igreja raramente se encontram em
questões de desobediência externa; na maioria das vezes relacionam-se com a
falta de submissão interna. Por isso o princípio governante de nossas vidas tem
de ser a submissão. A unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus,
não estará tão distante, se reconhecermos a autoridade.
Certamente autoridade implica em grau de liderança e de
iniciativa, mas cabe esclarecer que é aquela que foi demonstrada em Cristo
quando veio estabelecer sua noiva. Mais especificamente, implica sacrifício e
autodoação, do mesmo modo que Cristo por amor de nós.
Se, em algum sentido, “autoridade”, significa “poder”, então
esse poder é para cuidar, e não massacrar; poder para servir, e não para
dominar; poder para facilitar a realização do reino e não para frustrar essa
realização. Em tudo isso o padrão deve ser a cruz de Cristo, na qual ele
entregou a si mesmo, em obediência, até a morte, por meio do amor abnegado, em
prol de sua Igreja.
Que Nosso Senhor Jesus Cristo, nos dê a graça de enaltecê-lo
muito como Senhor e Mestre, cheio de poder, misericórdia e amor; e de nos
colocar como servos dele, para que possamos servi-lo fielmente todos os dias da
nossa vida.
Bibliografia e
citações:
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